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O mau caráter da guerra

Foguetes lançados da Faixa de Gaza despencam sobre cidades israelenses, algumas afastadas, como Haifa, situada a 150 quilômetros do território palestino.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2014 | 02h03

Ao mesmo tempo, a artilharia israelense ataca impiedosamente a região palestina: na manhã de ontem já se contava mais de 80 vítimas em Gaza. Todos os elementos estão instalados para aumentar esse número. As populações, apavoradas, exasperadas, só veem salvação na guerra. "É agora ou nunca" - as pessoas afirmam nas ruas de Tel-Aviv ou Jerusalém.

Os chefes de ambos os lados também usam a linguagem da ameaça, da força. No entanto, no fundo, eles sabem muito bem que a guerra será um desastre para todos. Gostariam de encontrar uma maneira de evitá-la.

Infelizmente, a guerra não muda sua conduta facilmente. Toda história do mundo nos ensina isso há 6 mil anos. E a guerra tem um mau caráter, imbuída do espírito de contradição.

Explode quando tem vontade, mesmo que os povos não queiram. Não foi ao acaso que as populações antigas, de Roma à Escandinávia, fizeram da guerra um deus (Marte, Áries, Odin, Thor, etc). Sabemos que os deuses nem sempre escutam os conselhos dos homens. Fazem o que lhes dá na cabeça.

Neste caso, o Hamas, enfraquecido pelas dificuldades que enfrenta há muito tempo, a passagem do Egito sob a presidência de Al-Sissi para o campo de seus inimigos e ainda a ruptura com seu apoio espiritual e financeiro, o Irã (xiita), que não aceita que o grupo (sunita) apoie os jihadistas na Síria, está à beira da asfixia. Uma nova guerra poderá ser fatal.

Em Israel, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu também se encontra fragilizado. Há dois meses ele luta por sua sobrevivência política, pois este "falcão" encontrou um falcão maior em razão da insegurança das fronteiras de Israel. Se bombardeia tão ferozmente a Faixa de Gaza é porque está sob pressão de seus rivais da ultradireita que fazem parte da sua coalizão de governo.

As consequências de uma guerra serão terríveis para os dois lados.

Para o movimento radical Hamas, já arruinado, com ajudas financeiras cada mais reduzidas e uma população desesperada pelo cansaço, lutos e sofrimentos, a guerra talvez signifique seu desaparecimento.

Quanto a Israel, o desaparecimento do Hamas será pior do que sua sobrevivência. O que ocorreria se, de fato, a Faixa de Gaza repentinamente visse desembaraçada dos chefes violentos e da mente tacanha do Hamas? Assistiríamos não ao nascimento de um país bem administrado, pacífico, bem educado e polido, mas à instalação do vazio, do caos, uma espécie de suicídio histórico.

Conhecemos exemplos desses sinistros "fins da História": na Somália, assistimos a um espetáculo desesperador. Neste pequeno país pobre do Chifre da África, perto da Etiópia, não há mais poder, Estado, tampouco governo, polícia ou lei. Em seu lugar o que existe é o horror. Uma paisagem calcinada. Cidades em ruínas, entregues a todo tipo de abuso.

Neste vazio, a violência se estabeleceu com suas brigadas de assassinos e desesperados que constituem uma excelente mão de obra para qualquer jihad.

Eis por que algumas pessoas concluíram, embora ninguém ouse exprimir em voz alta, que, paradoxalmente, Israel tem necessidade de manter na Faixa de Gaza seus piores inimigos: os fanáticos do Hamas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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