O mau exemplo turco

Assim como a Turquia, o Egito precisava assegurar a ambas as partes que a política pode ser inclusiva e abraçar todos os segmentos

DARON ACEMOGLU &, JAMES A. ROBINSON, FOREING POLICY, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2013 | 02h09

O sistema político turco - que tentava fazer uma síntese entre um Exército forte e politicamente ativo, a elite rica, culta (e frequentemente burocrática) e a maioria muçulmana conservadora e empobrecida - era considerado um modelo para o Oriente Médio. As recentes manifestações contra o governo do presidente Recep Tayyip Erdogan sugeriam que a democracia turca é muito mais frágil do que muitos suspeitavam. Mas, apesar dos acontecimentos recentes, ainda há importantes lições a serem extraídas da história turca para o restante da região - particularmente para o Egito.

Nos últimos 70 anos, os problemas da democracia turca e o atual impasse a que chegou a intransigência do governo refletem uma profunda polarização da sociedade, que começou há dezenas de anos. No entanto, ela também foi frequentemente explorada por facções rivais e por figuras políticas de grande influência sempre que consideravam que a polarização seria útil a eles.

A polarização da Turquia, assim como a do Egito, muitas vezes é definida por quem está de fora como um choque entre os liberais e as elites influenciadas pelas ideias do Ocidente, de um lado, e as massas tradicionais e religiosas, do outro. Essa imagem, em geral, é equivocada. O conflito essencial em ambos os países deveria ser visto como um fenômeno profundamente arraigado em desigualdades políticas, sociais e econômicas.

O principal problema da democracia em muitas sociedades, particularmente na Turquia e no Egito, está na intermediação dessas divisões. É nesse aspecto que a Turquia fracassou, muitas vezes, ao longo da história - e o Egito deveria ter aprendido com ela.

A primeira transição para uma autêntica democracia multipartidária na Turquia foi um processo doloroso e só ocorreu em 1946 com a fundação do Partido Democrático (PD), um partido conservador favorável ao setor privado, disposto a abandonar o enfoque de cima para baixo dos militares, das elites burocráticas e a falar das prioridades das massas.

Em 1950, para decepção e apreensão dos militares e das elites burocráticas, o PD, liderado por Adnan Menderes, chegou ao poder com uma arrasadora vitória eleitoral. Sua retórica era populista e de tendência mais islâmica, o que irritou ainda mais as elites estatais. No dia 27 de maio de 1960, houve um golpe militar, com amplo apoio dos burocratas, das elites intelectuais e dos "liberais" turcos supostamente defensores da democracia. O entusiasmo era palpável: os militares trataram de enforcar três líderes do PD - entre eles o próprio Menderes. Encorajados pela experiência, os militares intervieram mais três vezes na política turca nos 40 anos seguintes, aprofundando a polarização da sociedade entre as elites e os outros.

Hoje, ainda vemos reverberações dessa polarização. Protestos pacíficos em todo o país são dispersados pela polícia com brutalidade, com a atitude intransigente de Erdogan. Eles consideram os protestos mais uma tentativa das elites cultas, seculares e pró-militares de manter o poder.

O que é de certo modo compreensível, uma vez que - já em abril de 2007 - os militares, apoiados por essas elites e pelo Tribunal Constitucional, tentaram tirar o AKP, partido de Erdogan, do poder e simplesmente encerrá-lo. O governo não se demitiu, a Justiça se apavorou no último momento e o AKP e seu governo sobreviveram.

A situação no Egito parece muito semelhante. Assim como o PD na Turquia, uma vez no poder, a Irmandade Muçulmana abandonou sua suposta preocupação com a conciliação projetada antes das eleições. Indubitavelmente, Mohamed Morsi, como Menderes, estava se tornando autoritário.

Assim como na Turquia, o Egito precisava assegurar a ambas as partes que a política pode ser inclusiva, abraçar todos os segmentos da sociedade, independentemente de credo, religião, gênero e situação social, compartilhando o poder.

Uma mudança mais rápida poderá vir de líderes dotados de visão e coragem, como demonstraram os esforços de Nelson Mandela para superar o abismo ente negros e brancos na África do Sul. Infelizmente, ninguém na Turquia ou no Egito ainda demonstrou a metade dessa coragem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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