O médico do meu inimigo é meu inimigo

Maior parte da ajuda enviada à Síria é percebida como unilateral, atendendo apenas um ou o outro lado do conflito

Jonathan Whittall*,

14 de março de 2013 | 12h56

O que têm em comum a Coalizão Nacional Síria, um grupo fundamentalista islâmico estrangeiro, um país do Golfo e os governos iraniano e americano? Todos estão provendo ajuda "humanitária" em diferentes escalas para o lado do conflito sírio que apoiam, mas nenhum deles é capaz de reduzir, atuando individualmente, o imenso sofrimento das pessoas e nem garantir que a sua ajuda alcance, primeiramente, os mais vulneráveis. Essa não é uma guerra simples, e não há soluções fáceis, mas o atual status quo não pode ser uma alternativa.

A resposta humanitária é reflexo da complexidade política da crise; a maior parte da ajuda enviada à Síria é percebida como unilateral, atendendo apenas um ou o outro lado do conflito. É praticamente impossível para a ajuda cruzar as linhas de frente de batalha no volume necessário para atender a imensa demanda. No momento, organizações humanitárias, de forma geral, precisam atravessar a fronteira ilegalmente para adentrar áreas sob o controle da oposição para levar ajuda e contam com o suporte de redes partidárias.

Isso é um problema, uma vez que o provedor da ajuda passa a estar relacionado à solidariedade política vinculada a um ou a outro lado do conflito. Tentar cruzar as linhas de frente sem contar com a boa vontade de todos os envolvidos significa correr o risco de ser barrado nos pontos de fiscalização uma vez que identificado como alguém que está assistindo o "inimigo" ou enfrentar bombardeios e a mira de francos-atiradores.

À medida que o conflito na Síria evolui, o mesmo acontece com as necessidades da população. Milhões de pessoas sofrem com a grave falta de alimentos, de combustível, de abrigo e de água limpa. Comunidades inteiras vivem cercadas e sob constantes bombardeios. Recentemente, surtos de febre tifoide e leishmaniose têm sido reportados em áreas controladas pela oposição. Médicos Sem Fronteiras (MSF) pôde apenas fazer doações de suprimentos médicos para a região, uma vez que a intensidade dos confrontos prejudicou diretamente a capacidade de nossas equipes de alcançar as áreas afetadas.

A destruição de instalações de saúde deixou uma lacuna na área médica. Segundo estatísticas do governo sírio, 57% dos hospitais públicos foram danificados, 36% não têm mais possibilidade de funcionar e 78% das ambulâncias públicas foram prejudicadas. Muitas áreas estão dependentes de hospitais improvisados, a maioria dos quais convertidos de forma rápida - usando de mesas da cozinha a porões subterrâneos. Presenciei um trabalhador do ramo da construção civil atuando como cirurgião. Alguns desses hospitais de campo priorizam o atendimento de combatentes, deixando a população comum sem acesso a cuidados de saúde.

Em regiões controladas pelo governo, o sistema público de saúde também enfrenta grande dificuldade. As sanções internacionais congelaram ativos financeiros e transações, impossibilitando que o governo adquira suprimentos médicos internacionalmente. A Síria produzia internamente a maioria de seus suprimentos médicos, mas grande parte das fábricas está, atualmente, destruída. Em visita recente feita a Damasco, observei uma enorme escassez de suprimentos médicos nas instalações de saúde do governo e os médicos estavam com receio de trabalhar, com medo das ameaças feitas por grupos opositores, para que não deem suporte a "hospitais governamentais".

Sem autorização por parte do governo para atuar, MSF, no entanto, estabeleceu três hospitais extraoficiais no norte. Essa não é a forma mais efetiva de responder às imensas necessidades por todo o país. Nossa resposta equivale a uma gota no oceano.

A polarização da ajuda perpetua-se por todos os lados. Poderes regionais têm interesse em oferecer ajuda como parte de uma solidária política. Governos ocidentais, recentemente, têm se mostrado mais interessados em prover suporte "não letal" à oposição armada ao invés de oferecer alimentos, que são muito necessários, e medicamentos para a população em geral. As Nações Unidas estão autorizadas a enviar ajuda apenas por meio de Damasco, e afirma depender de uma improvável resolução do Conselho de Segurança para levar ajuda sem o consentimento do governo. Atualmente, os provedores de ajuda mais ativos na Síria são as redes da diáspora, grupos ativistas e comunidades locais, que são justamente os grupos que permitiram que MSF desenvolvesse suas atividades nos últimos dois anos.

Considerando a maneira como a ajuda é ofertada na Síria atualmente, o ceticismo dos envolvidos no conflito quanto à ajuda proveniente de regiões sob o controle de seus oponentes é justificável. No entanto, essa é uma realidade originada pela negação do acesso a organizações independentes por Damasco, o que permite aos que têm motivações geopolíticas intrínsecas à provisão de ajuda esconderem-se por trás da justificativa de que não lhes resta outra opção senão entrar na Síria ilegalmente.

Damasco tem nas mãos a possibilidade de solucionar a inércia dessa situação, aceitando a livre circulação de ajuda independente por todo o país. Um acordo negociado com todos os envolvidos também é urgentemente necessário para permitir que ajuda humanitária essencial à vida das pessoas cruze a linha de frente da batalha. Sem isso, os esforços humanitários não poderão ser dissociados da complexidade geopolítica que contamina essa crise. Enquanto aguardamos a resolução do impasse, é preciso que a ajuda seja urgentemente ampliada, tanto por parte de Damasco quanto dos outros lados da fronteira. À medida que a violência na Síria segue imperturbável, o fracasso da resposta humanitária torna-se ainda mais inaceitável.

*Jonathan Whittall, trabalha em Médicos Sem Fronteiras (MSF) e voltou da Síria recentemente.

 

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