O medo de uma epidemia nuclear

Mundo encontra-se em um 'ponto de virada' no sentido da formação de uma multidão armada com mísseis nucleares

WILLIAM POTTER & GAUKHAR MUKHATZHANOVA THE INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

A julgar pelos comentários feitos pela maioria das figuras políticas, dos estudiosos e comentaristas da mídia, independentemente de sua orientação política, o futuro da proliferação nuclear é sombrio.

Desta vez, sem dúvida, o céu está despencando. O mundo encontra-se, no mínimo, num "ponto de virada", no sentido da formação de uma multidão armada com mísseis nucleares, composta por um número muito maior de países buscando e obtendo armamento atômico.

Em relação a isso, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton; o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu; o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon; e o senador americano John McCain parecem concordar.

Esse pessimismo diante da proliferação costuma ser expressado nos termos de dominós nucleares, cadeias, cascatas e ondas. Na maioria dos casos, o cenário pessimista supõe um processo reativo por meio do qual a aquisição de capacidades nucleares por parte do Irã leva outros Estados da região - e quem sabe de outras partes do mundo - a seguir o exemplo da República Islâmica em rápida sucessão.

Tais prognósticos costumam ser citados para defender a adoção de medidas urgentes para deter o programa nuclear iraniano. Ainda assim, como ocorreu no caso da teoria dos dominós que previa a difusão do comunismo, poucas provas são mostradas para sustentar as suposições acerca da proliferação reativa.

Uma análise de estimativas nacionais de espionagem trazidas a público pelo governo americano, bem como prognósticos feitos por especialistas, mostram que o alarmismo tem sido uma característica das avaliações de ameaças aos Estados Unidos durante a maior parte da era nuclear.

Os catalisadores das projeções de rápida proliferação e as características das "condições limítrofes" mudaram com o tempo, mas previsões anteriores apresentaram a tendência de superestimar o ritmo da proliferação.

O mais famoso dos prognósticos sombrios foi feito pelo presidente John F. Kennedy em 1963, quando ele supôs um pesadelo futuro no qual 15, 20 ou 25 países atingiriam o status de potências nucleares. Apesar do pouco movimento no sentido de um cenário como esse, persiste a suposição de que o nascimento de um novo país dotado de armas nucleares provocará outros a seguir o mesmo rumo.

Ondas de proliferação foram esperadas por muitos depois do teste nuclear "pacífico" da Índia em 1974; do colapso da União Soviética em 1991; dos testes atômicos feitos por Índia e Paquistão em 1998; e, mais recentemente, depois que a Coreia do Norte abandonou o Tratado de Não Proliferação Nuclear. Apesar de tais acontecimentos não terem produzido efeitos óbvios de difusão, os responsáveis pela política externa identificaram o Oriente Médio como local da próxima onda de proliferação.

Será que os fatos sustentam este prognóstico? Nosso estudo prolongado da dinâmica da proliferação nuclear no caso de uma dúzia de "suspeitos prováveis" sugere o contrário. Ele mostra que a difusão das armas nucleares para um número cada vez maior de países não é iminente nem envolve uma "reação em cadeia".

Apesar de surpreendente em termos de sua contestação do senso comum em relação a uma pandemia de proliferação, nossa conclusão condiz com o ritmo historicamente lento da proliferação e com as circunstâncias excepcionais que devem prevalecer para que um Estado decida abandonar a contenção nuclear.

Ela destaca também o importante papel desempenhado pelos líderes individuais e pelas coalizões políticas domésticas, para quem a busca das armas nucleares representa grandes custos políticos, econômicos e defensivos.

O Egito - considerado o dominó cuja probabilidade de cair é mais alta no caso de o Irã reconhecer a existência de objetivos militares para seu programa nuclear - é um exemplo disso. Como demonstra James Walsh, no estudo que desenvolveu para o projeto, as motivações do Egito para a aquisição de armas nucleares foram mais intensas nas últimas décadas do que são agora e do que devem ser no futuro próximo, enquanto os fatores de dissuasão apresentam hoje força igual ou superior em relação ao passado.

Por qual motivo Cairo decidiria emular a posição nuclear do Irã depois de tolerar um programa nuclear muito mais potente desenvolvido pelos israelenses? Por que correr o risco de danificar suas relações com os EUA, para não falar na perda de imensas quantidades de ajuda econômica e militar, em troca dos benefícios muito incertos de um caro programa de desenvolvimento de armas nucleares? Também devemos manter ceticismo em relação à Turquia, outro possível elo numa reação em cadeia instigada pelo Irã. Por que o país abandonaria suas tentativas de se tornar membro da União Europeia e poria em risco as garantias de segurança feitas pela Otan apenas para emular o Irã? E quanto à Arábia Saudita, outro país importante do Oriente Médio? Qual de seus problemas, seja interno ou externo, o país solucionaria ao adquirir capacidades nucleares?

Sugerir que o céu ainda não está desabando no caso da proliferação não equivale a desmerecer o risco representado pela difusão das armas nucleares. De fato, a aquisição de armas atômicas por parte do Irã ou a adoção de medidas militares contra o país pode muito bem alterar o equilíbrio entre incentivos e estímulos contrários no cálculo da proliferação referente a certos casos.

Mas, se a história servir como guia, estes fatores serão específicos para cada país, e mesmo que uma nação decida voltar atrás no seu compromisso com a não proliferação, há poucos motivos para esperar uma epidemia. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

POTTER É PROFESSOR DE ESTUDOS DA NÃO PROLIFERAÇÃO E MUKHATZHANOVA É PROFESSORA ADJUNTA DO INSTITUTO MONTEREY DE ESTUDOS INTERNACIONAIS

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