O medo do pesadelo soviético

Ucranianos protestam por privilégios assegurados em democracias liberais e não aceitarão um presidente 'fantoche' atendendo aos interesses russos

MICHAEL , WEISS, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2013 | 02h03

O casamento entre nacionalismo e a burocracia supranacional é uma visão singular para maioria dos americanos. Quem se mobiliza por uma ideia como a "Europa", ainda mais uma convertida numa instituição que, de longe, parece funcionar como um gigantesco e presunçoso Departamento de Veículos Motorizados, abrangendo duas dúzias de países.

Tente encontrar uma definição cultural, funcional e coesa de Europa e veja onde isso o leva. Ninguém jamais falou a sério do "grande romance europeu", exceto, talvez, Susan Sontag. "Acomode-se e pense na Europa", uma frase que provavelmente só foi dita por comentaristas de direita aterrorizados com supostas tendências demográficas muçulmanas no continente.

Mesmo o comentário apócrifo geralmente atribuído a Henry Kissinger - "Para quem eu telefono se quiser falar com a Europa" - tinha a intenção de provocar risadinhas sobre a perspectiva de levar nações que se acostumaram a guerrear entre elas a agir como tomadoras de decisões coletivas em questões de política externa.

No entanto, a Ucrânia está entrado em sua quarta semana de protestos sob um frio congelante e sob risco de uma repressão estatal pavorosa, tudo porque o presidente Viktor Yanukovich paralisou um acordo de associação que teria dado à Ucrânia maiores oportunidades comerciais com a União Europeia.

Este acontecimento, inteligível e singular para um "ex-país-satélite" soviético situado numa posição crítica entre o Oriente e o Ocidente foi melhor captado por Timothy Snyder, o grande historiador de nações em zonas críticas dessa natureza (e de tragédias nacionais daí decorrentes), num curto ensaio publicado na New York Review of Books: "Será que alguém, em algum lugar do mundo, estaria disposto a levar uma paulada na cabeça por conta de um acordo comercial com os Estados Unidos?" Implícito na pergunta está um reconhecimento de que, para os países da antiga União Soviética, a identidade é moldada tanto pelo que não se aspira a ser como pelo que se faz.

Afinal, os ucranianos não estão protestando apenas para facilitar sua troca de bens com Bruxelas - estão protestando contra o protecionismo hegemônico de Moscou, que deseja (e já pode ter forçado) que Kiev se junte ao seu próprio consórcio obscuro e surrado, a União Alfandegária, em troca de petróleo e gás mais baratos e o fim de um "terror alfandegário" imposto pelo Kremlin que paralisou as importações ucranianas na fronteira russa desde o último verão local.

Com seu arsenal de subornos, chantagens e ameaças, o presidente Vladimir Putin promoveu o atual estado de agitação social no país vizinho, que ele descreveu como "não sendo realmente um Estado" na Cúpula de Bucareste da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em 2008.

Onde Putin pode tratar com fetiche o conceito de "soberania" quando se trata, por exemplo, de questionar a pressão americana sobre a Síria, ele o vê com pouco menos do que um floreio retórico risível quando aplicado às antigas possessões coloniais da Rússia. A Revolução Laranja, à qual os atuais protestos, chamados na Ucrânia de Euromaidan, estão sendo inevitavelmente comparados, o aterrorizaram em 2004 porque ele via a trajetória política da Ucrânia como um anúncio do fim da Rússia - tudo por conta daqueles defensores da democracia conspiratórios da CIA e do Departamento de Estado americano.

Os "putinistas" seguramente têm sua própria definição insana do que a Europa significa: impotência em crianças de 12 anos, programação de TV escatológica para criancinhas, agentes da CIA provenientes de famílias aristocráticas suecas e um pacto suicida civilizacional.

Mas eles também mobilizaram o populismo do seu lado na forma de eurocéticos de todos as tendências ideológicas dentro da UE. Partidos políticos de extrema esquerda e extrema direita defendendo retiradas da UE e/ou a "saídas" da moeda comum, o euro, ganharam assento nas eleições parlamentares e locais na Grã-Bretanha, França, Holanda, Grécia, República Tcheca e Bélgica nos últimos cinco anos. Pessoas nestes países não conseguem avaliar por que alguém desejaria se aproximar de um projeto que vem sendo pouco consistente desde o aperto do crédito de 2008 e - como já se murmura entre um número crescente de centristas nervosos -, pode mesmo não ter sido uma grande ideia.

Diga isso, porém, aos membros mais novos da UE, aqueles que eram ocupados por regimes totalitários estrangeiros. Toomas Hendrik Ilves, o presidente da Estônia especialista em assuntos cibernéticos e proficiente no Twitter, é um dos propositores mais francos do bloco econômico (seu país ingressou no bloco entusiasticamente, em 2004, e depois aderiu à zona do euro, em 2010, dois anos após da implosão do Lehman Brothers).

Perguntei-lhe por que a Europa era importante para o governo de Tallin há uma década. "Havia um elemento civilizatório muito forte de 'retorno'", respondeu Ilves. "Retorno após 50 anos de ocupações, deportações, enganos e corrupção. Afinal, nós passamos cerca de 800 anos num Kuklturraum germânico. A Liga Hanseática, nossa arquitetura, luteranismo, alfabetização, Kleinbuergerlichkeit (cultura de massa burguesa) e Rechtsstaat (estado de direito). Os soviéticos destruíram tudo isso, de modo que a narrativa, se quiser, era voltar aonde nós todos estivemos, onde o período soviético era como um comercial da Crazy Eddie (uma antiga cadeia americana de eletrodomésticos) num concerto de Mozart."

Budas? Se 2004 é a comparação de calendário óbvia com os eventos que agora se desenrolam em Kiev, 1991 e o assunto inacabado da consolidação pós-soviética também assombram a imaginação ucraniana. "Adeus, legado comunista!" é como o deputado de oposição Andriy Shevchenko saudou a derrubada de uma estátua de Lenin no último fim de semana, um evento que o primeiro-ministro Mykola Azarov comparou bizarramente à destruição pelo Taleban dos Budas de Bamiyan.

Vale lembrar que uma rejeição ao imperialismo russo - e o irônico reconhecimento de que Kiev foi o berço do império russo - foi o leitmotiv da renascente literatura ucraniana nos últimos 20 anos. O ato preliminar foi o romance de 1993 de Yuri Andrukhovych, The Moscoviad, cujo protagonista, com seu inconfundível nome europeu, Otto von F., vomita nas ruas de Moscou antes de subir encharcado de bebida num trem para uma Ucrânia recém-independente. Está claro que ele não está vomitando apenas bebida russa vagabunda, mas os restos metafóricos de uma superpotência degringolando.

Não importa os meios que Putin usar para seduzir Yanukovich, a mensagem foi imediata e clara: de volta à "neo-URSS" restaurada, com um títere do Kremlin na presidência e a classe política governando à velha maneira russa soviética. Isso é precisamente o que os ucranianos não aceitarão, e contra o que se revoltaram. Embora o medo de sucumbir à contracorrente de desígnios neo-URSS seja uma parte da história, há questões mais práticas que também estão dividindo os protestos ucranianos.

Igor Pomerantsev, um intelectual e apresentador de rádio ucraniano, contou-me que jovens ucranianos - muitos dos quais não falam russo, mas falam o inglês como segunda língua - não saíram em massa por algum conceito mítico de um Estados Unidos da Europa, nem desconhecem as insuficiências dos tratados de Roma, Lisboa ou Maastricht que destravaram a UE. Eles saíram em massa porque reivindicam os concomitantes políticos básicos da integração econômica - os direitos e privilégios assegurados às pessoas em democracias liberais. "A proximidade com a UE melhora as chances de obter vistos para o espaço Schengen no futuro, abre possibilidades de estudar em universidades europeias e dá uma esperança de obter empregos legais no Ocidente. A maioria dos ucranianos sabe que cidadãos da UE têm padrões de vida mais altos, vivem mais tempo, têm apartamentos e tratamento médico melhores", afirmou Pomenrantsev por e-mail.

Poucas pessoas marcharão deliberadamente por ditaduras, níveis africanos de corrupção, aumento das taxas de mortalidade, estagnação e uma política externa movida por alianças com assassinos em massa. Numa transmissão da BBC, o correspondente Steve Rosenberg não conseguiu um único apoiador de Yanukovich para explicar por que estaria se manifestando. Nenhuma pessoa sensata tampouco deseja ter seu destino nacional moldado por sanguessugas estrangeiros e seus prepostos domésticos. Yanukovich depende de valentões contratados, conhecidos como titushkas, que agridem pessoas em protestos ou agem como agentes provocadores.

Enquanto isso, os serviços de segurança do Estado invadiram os escritórios da sede de um partido de oposição e confiscaram computadores. Seguramente preparando o terreno para essa repressão, na semana passada, Putin chamou os protestos de "pogroms", enquanto a Rússia continua agitada por tumultos anti-imigrantes que, estes sim, estão à altura da letra e do espírito dessa palavra.

Outro problema: Yanukovich é um crápula. Segundo uma investigação da OpenDemocracy, a residência particular do presidente, Mezhyhirya, uma enorme mansão de madeira construída por uma empresa finlandesa, custou entre US$ 75 milhões a US$ 100 milhões. No entanto, seu salário oficial durante boa parte de sua carreira política jamais passou de US$ 2 mil mensais. Uma estrada ligando a capital a essa cabana bizantina de troncos foi evidentemente construída para o benefício pessoal de Yanukovich com dinheiro do Tesouro reservado para o campeonato de futebol Euro 2012. Tudo isso, enquanto a economia vive uma situação catastrófica.

"Você tem na Ucrânia um país que por 20 anos sofreu muito com corrupção, ausência de práticas democráticas e - assim me parece, para uma grande parte do povo ucraniano - não se trata apenas dos níveis de vida da UE que são buscados, mas o tedioso, regulatório, estado de direito", disse o ex-embaixador americano na Ucrânia, Steven Pifer. "Os russos não oferecem nada para competir com isso."

David Kramer, presidente da Freedom House, que defende a renúncia de Yanukovich, acrescenta que mesmo autocratas democraticamente eleitos chegam a um ponto em que suas escolhas não mais são movidas por interesse nacional ou vontade popular, mas pelo simples imperativo de que eles não podem abdicar porque o sistema os canibalizará. Ele não se referia apenas a Yanukovich, mas também a Putin e a Alexander Lukachenko, da Bielo-Rússia, outro sobrevivente sinistro dos velhos dias ruins e uma advertência do que a Europa pós-soviética ainda pode se tornar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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