O meltdown político de Obama

Após o quase desastre de um calote da dívida dos EUA, nasce um consenso. A maior e (ainda) mais poderosa nação do planeta estaria à mercê de extremistas. Quem manda em Washington hoje, segundo dizem, é o Tea Party, grupo da ultradireita que propaga a total liberdade econômica. E bem como demonstraram seus militantes nas últimas semanas, estão dispostos a tudo em nome de pátria, família e o capital privado.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

A versão tem certo charme. Os 87 congressistas do Tea Party parecem fundamentalistas de terno e tailleur. São o Taleban à americana, que prega jihad em nome do déficit zero, tributação mínima e um Estado minguante, e ainda cobram a cabeça de Barack Obama.

Mas essa versão é simplista. Sempre houve extremos na política dessa democracia bicentenária, do populismo febril de Huey Long, dos anos 30, ao canto reacionário atual do "cinturão da bíblia" do profundo sul do país. No início do século passado, havia meia dúzia de partidos disputando eleições nacionais. Com tempo e para ganhar escala e musculatura, os fragmentos juntaram-se. Sobreviveram duas grandes legendas, democrata e republicana, ambas de tendências múltiplas. O problema era como manejá-las. A crise da dívida americana mostrou que Obama não é Roosevelt.

Não que o Tea Party seja um grêmio ameno ou de trato fácil. Longe disso, são verdadeiros anarquistas de direita, que antes de influir nos rumos da política preferem tocar-lhe fogo e recomeçar das cinzas.

Mas é bom lembrar que a mais nova grife da política americana - inspirada nos rebeldes coloniais que se levantaram contra os impostos da coroa britânica e jogaram fardos de chá importado no mar - começou não como um movimento contra Obama, mas uma dissidência no seio do Partido Republicano.

O Tea Party não almeja formar um terceiro partido. Querem, sim, criar barulho e encostar contra a parede seus pares "desviados" da pura linha ultraliberal. Diferente dos neoconservadores, não se interessam em invadir o Irã ou exportar democracia pelo mundo, apenas dizimar terroristas e fazer o planeta mais seguro para os americanos.

Desta forma, são um problema não apenas para Obama, mas também para o establishment republicano. Seu núcleo duro votou contra o acordo da dívida e promete criar mais encrenca se os gastos voltarem a crescer. Não são os novos donos da política americana, mas descobriram outro papel, o do fiel da balança.

Agora, analistas afirmam que Obama se rendeu ao "terrorismo" da direita. Afinal, no acordo da dívida houve apenas cortes de despesas e nenhum tributo novo. Os ricos que gozam de quase US$ 1 trilhão em isenção de impostos não pagarão um centavo a mais. Colegas do partido e muitos militantes americanos disseram se sentir frustrados e até traídos. Sob fogo cerrado da direta e da esquerda, Obama estaria em apuros, com chances mínimas de reeleição em 2012.

Sem dúvida, o arranjo final teve uma redação conservadora. Mas nisso não há nada de novo. Há quatro décadas, a ala da esquerda da política partidária americana não consegue emplacar nem um representante na Casa Branca.

Das dez eleições presidenciais entre 1968 a 2004, os republicanos venceram sete. Nas outras três, prevaleceram democratas moderados: Jimmy Carter e (duas vezes) Bill Clinton.

Pior, esses dois governaram como conservadores. Carter rejeitou um projeto de criar um seguro saúde universal, assinado pelo progressista Ted Kennedy, e Clinton frustrou a ala esquerda ao abraçar o Nafta (o tratado de livre comércio americano), zerar o déficit orçamentário e ainda podar os benefícios sociais do sistema Welfare.

Com Obama não foi diferente. Eleito o candidato da mudança, ele logo foi empurrado para ao centro, onde atolou. Deixou de lado as bravas bandeiras da campanha, como a reforma de imigração, para promover medidas polêmicas e pouco eficazes, como o estímulo econômico contra a recessão, socorro aos bancos e ajuda às fabricantes de carros.

Em um país com US$ 14,3 trilhões de dívida que ainda precisa de 40 centavos emprestados para cobrir cada dólar que gasta, sua adesão ao acordo "republicano" é menos uma capitulação à direita do que a falta de alternativo contábil.

Se algo pode salvá-lo é que o presidente carece de rival a sua altura. Seja no Partido Republicano, fraturado entre os taleban do Tea Party e os pretendentes pouco expressivos, seja entre democratas, que jamais conseguiram desbancar um presidente da própria legenda. Só que com a economia nacional na lona e as bolsas mundiais na gangorra, mesmo sua reeleição pode sair como uma vitória com gostinho amargo de chá.

É COLUNISTA DO "ESTADO", CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK" NO BRASIL E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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