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O menino morto na praia

Mario Vargas Llosa , O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2015 | 03h00

A foto de Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos morto em uma praia da Turquia quando sua família tentava imigrar para a Europa, comoveu o mundo todo. E serviu para vários países europeus ampliarem sua quota de refugiados - não todos, naturalmente, e a opinião pública internacional se conscientizar da magnitude do problema representado pelas centenas de milhares, talvez milhões, de famílias que fogem da África e do Oriente Médio para o mundo ocidental, onde, acreditam, encontrarão trabalho, segurança e uma vida digna e decente que seus países não lhes oferecem.

É bom que agora, nos países mais prósperos e livres do mundo, exista uma consciência maior do dilema moral que lhes é colocado pelo problema dessas migrações em massa e espontâneas, mas é necessário que, por mais positivo que seja o esforço dos países avançados para receber mais refugiados, as pessoas não se iludam, achando que dessa maneira o problema será resolvido. Nada mais errado. 

Mesmo que os países persistam na política de fronteiras abertas, defendida pelos liberais radicais, jamais haverá infraestrutura e trabalho suficiente para todos que querem fugir da miséria e da violência que assolam certas regiões do mundo. O problema está lá e somente lá é que podemos achar uma solução real e duradoura. Da maneira como está a situação na África e no Oriente Médio, infelizmente, essa solução ainda levará algum tempo. No entanto, os países desenvolvidos poderiam diminuir esse tempo se orientassem seus esforços nessa direção, sem se dispersar em paliativos momentâneos de eficácia duvidosa.

A raiz do problema está na pobreza e na insegurança terríveis em que vive a maioria das populações africanas e do Oriente Médio, seja por culpa de regimes despóticos, incompetentes e corruptos ou pelos fanatismos religiosos e políticos - por exemplo, do Estado Islâmico e Al-Qaeda - que geram guerras, como na Síria e no Iêmen, além de um terrorismo que diariamente cega vidas humanas, destrói habitações e mantêm milhões de pessoas em pânico, paralisadas e famintas, como ocorre no Iraque, país que lentamente se desintegra. 

Não são países pobres, porque hoje qualquer país, mesmo que careça de recursos naturais, pode ser próspero, como comprovam os casos extraordinários de Hong Kong ou Cingapura, mas estão empobrecidos pela cobiça suicida de pequenas elites dominantes que exploram com cinismo e brutalidade essas massas que antes se resignavam à sua sorte.

Hoje não é mais assim graças à globalização e especialmente à grande revolução das comunicações, que abriu os olhos dos mais desvalidos e marginalizados sobre o que sucede no resto do planeta.

Essas multidões exploradas e sem esperança sabem hoje que em outras regiões do mundo existe paz, coexistência pacífica, um alto nível de vida, segurança social, liberdade, legalidade, oportunidades para trabalhar e progredir. E, com toda razão, estão dispostas a empreender todos os sacrifícios, até arriscar sua vida, para chegar a esses países. Essa migração jamais será contida com muros ou cercas de arame farpado como as que, ingenuamente, a Hungria erigiu e outros países se dispõem a construir. 

Os imigrantes passarão por baixo ou por cima desses muros e sempre encontrarão máfias que lhes facilitarão o trânsito, embora, às vezes, os enganem e os conduzam não ao paraíso, mas à morte, como os 71 infelizes que morreram há algumas semanas asfixiados em um caminhão frigorífico numa rodovia austríaca. 

A capacidade de um país desenvolvido receber refugiados tem um limite que não convém extrapolar, porque pode ser contraproducente e, em vez de resolver o problema, provocará outro, o de favorecer movimentos xenófobos e racistas, como a Frente Nacional, na França. É algo que vem ocorrendo também em países tão avançados como a Suécia, onde recente pesquisa de opinião coloca um partido anti-imigração como o mais popular. 

Não há dúvida que a imigração é algo indispensável para os países desenvolvidos que, sem ela, jamais poderiam conservar no futuro seu alto padrão de vida. Mas, para ser eficaz, essa imigração deve ser organizada e ordenada de acordo com uma política comum inteligente e realista, como propõe a chanceler alemã, Angela Merkel, que deve ser felicitada pela lucidez e energia com que enfrenta o problema.

Na verdade, o problema só será resolvido onde nasceu, ou seja, na África e no Oriente Médio. Não é impossível. Há duas regiões no mundo que eram, como estas agora, grandes propulsoras de imigrantes clandestinos para o Ocidente: uma grande parte da Ásia e América Latina. Esta corrente migratória diminuiu sensivelmente à medida que a democracia e políticas econômicas sensatas se instalaram nessas regiões, os Estados de direito substituíram as ditaduras e suas economias começaram a crescer e a criar oportunidades e trabalho para a população local.

A maneira mais eficaz de o Ocidente contribuir para reduzir a imigração ilegal é colaborar com aquelas pessoas, nos países africanos e do Oriente Médio, que lutam para extinguir as ditaduras que os governam e instituir regimes representativos, democráticos e modernos que criem condições favoráveis ao investimento e atraiam esses capitais (abundantes) que circulam pelo mundo procurando se estabelecer.

Lembro-me de ter lido, ainda estudante universitário no Peru, uma pesquisa que me fez entender porque milhões de famílias indígenas trocavam o campo pela cidade. O objetivo era saber o que atraía essas famílias a ponto de elas abandonarem as aldeias andinas que o indigenismo literário e artístico embelezava, para viverem na promiscuidade insalubre dos bairros periféricos de Lima. A conclusão foi enfática: por mais triste e suja que era sua vida nessas periferias, aqueles ex-camponeses viviam muito melhor do que no campo, onde o isolamento, a pobreza e a insegurança pareciam invencíveis. A cidade, pelo menos, lhes oferecia uma esperança. 

Qualquer pessoa que sofra sob a ditadura homicida de um Robert Mugabe, no Zimbábue, o inferno de bombas e o machismo patológico do Taleban, no Afeganistão, ou o horror quotidiano que vi no Congo, trataria de fugir dali, atravessando selvas, montanhas e mares, expondo-se a todos os perigos para chegar a um lugar onde fosse possível ter esperança. 

Essas massas que chegam à Europa, demonstrando um heroísmo extraordinário, rendem, sem saber na maioria dos casos, uma grande homenagem à cultura da liberdade, dos direitos humanos e à coexistência na diversidade, princípios que trouxeram desenvolvimento e prosperidade para o Ocidente. Quando esta cultura se propagar também - como ocorreu na América Latina e na Ásia - pela África e pelo Oriente Médio, o problema da imigração clandestina irá se diluindo, pouco a pouco, até atingir níveis que podem ser administrados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É ESCRITOR E GANHADOR DO PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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