Aji Styawan / Getty Images Climate Visuals Grant Recipient
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O mercado onde os morcegos ainda estão no menu e são best-sellers

Mercados que vendem animais selvagens na Indonésia são como 'refeitório para patógenos', mas resistiram aos esforços para fechar

Richard C. Paddock e Dera Menra Sijabat / The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2020 | 12h03

BANGKOK - Seis dias por semana, os açougueiros de Tomohon se reúnem no mercado mais famoso da Indonésia e cortam morcegos, ratos, cobras e lagartos que foram retirados das áreas selvagens da ilha de Sulawesi.

Alguns dos açougueiros também matam cães - muitos deles animais de estimação roubados - causando protestos de ativistas dos direitos dos animais.

Durante anos, amantes de animais e ativistas pediram às autoridades que fechassem o local conhecido como o Mercado Extremo de Tomohon. Agora, a pandemia do coronavírus está dando a eles outro motivo para pressionar as autoridades a finalmente tomarem medidas.

"O mercado é como um refeitório para patógenos animais", disse o especialista principal da força-tarefa da Indonésia, Wiku Adisasmito, que pediu ao governo que feche mercados desse tipo. "Consumir animais selvagens é brincar com fogo."

O primeiro conjunto de casos de coronavírus no surto global foi vinculado a um mercado em Wuhan, na China, onde os animais vivos eram mantidos próximos, criando uma oportunidade para o vírus saltar para os seres humanos. Acredita-se que o vírus da SARS, que matou 800 pessoas em todo o mundo, tenha se originado em morcegos antes de se espalhar em um mercado na China e, finalmente, infectar pessoas em 2002. A China determinou o fechamento de todos os seus mercados de vida selvagem após o surto de Wuhan, em dezembro.

O mercado de Tomohon, na Indonésia, é um dos poucos desse tipo no país. A maioria dos animais selvagens de Tomohon é abatida pouco antes de chegar ao mercado. São principalmente os cães que são mantidos vivos em gaiolas e mortos no local pelos clientes que dizem que preferem a carne fresca.

"É como uma bomba-relógio", disse Billy Gustafianto Lolowang, gerente do Tasikoki Wildlife Rescue Center, em Bitung, cidade vizinha. "Só podemos esperar até nos tornarmos o epicentro de uma pandemia como Wuhan."

Os moradores locais acreditam que alguns animais têm propriedades medicinais, incluindo morcegos, que dizem curar a asma. No norte de Sulawesi, a província amplamente cristã que inclui Tomohon, a carne desses animais é uma parte tão grande da dieta local que cobras e morcegos são frequentemente vendidos em supermercados.

"Antes do vírus, os morcegos eram os mais populares, seguidos por ratos e pítons", disse Roy Nangka, de 40 anos, que trabalha como açougueiro em Tomohon desde 1999. "Agora as pessoas compram principalmente a carne de porcos e javalis".

A Indonésia, que possui a quarta maior população do mundo, demorou a reconhecer a ameaça do coronavírus e fica muito atrás de outras nações nos testes. Na quarta-feira, havia registrado 15.438 casos e 1.028 mortes, o segundo maior número de mortes no leste da Ásia depois da China.

Na terça, uma coalizão de grupos de direitos dos animais chamada Dog Meat Free Indonesia instou o presidente da nação, Joko Widodo, a fechar os mercados de vida selvagem para evitar o possível surgimento de um novo patógeno. "Se não agirmos, a questão não é se outra pandemia semelhante surgirá, mas quando", disse o grupo em uma carta.

Qualquer decisão de fechar os mercados de vida selvagem da Indonésia é de responsabilidade das autoridades locais, disse Indra Exploitasia, diretora de conservação da biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente e Florestas da Indonésia. Ela disse que o ministério incentivou as autoridades locais a fechar esses espaços.

O governo identificou sete grandes mercados nas ilhas de Java, Sumatra, Bali e Sulawesi que vendem animais silvestres para consumo. Ativistas dizem que mercados menores também vendem carne de animais selvagens. Muitos são mais conhecidos por vender aves capturadas na natureza em um comércio ilícito que retira das florestas da Indonésia cerca de 20 milhões de aves por ano. 

As autoridades de Tomohon e outras localidades resistiram aos apelos para fechar as seções dos mercados que vendem animais silvestres porque fornecem uma fonte importante de comida e renda. Cerca de 120 açougueiros trabalham no calor equatorial para cortar as espécies que oferecem, incluindo pitons, lagartos, ratos, javalis e sapos. 

As autoridades da cidade de Tomohon, em resposta ao coronavírus, reduziram o horário do mercado em mais da metade em março para reduzir o contato social. "A maioria das pessoas no norte de Sulawesi consome carne de animais selvagens", disse Lolowang. "Haverá protestos públicos se eles fecharem totalmente o mercado da vida selvagem".

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