Quirinale Press Office / AFP
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O método Draghi de reconstrução da Itália; leia o artigo

Diagnóstico preciso, habilidade, transparência e ética têm garantido avanços animadores no início do novo governo italiano 

Maria Cristina Pinotti* / Especial para o 'Estadão', O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2021 | 05h00
Atualizado 21 de setembro de 2021 | 08h00

A formação de uma ampla coalizão em torno de Mario Draghi vem alimentando a esperança de que a Itália tenha reencontrado seu caminho, saindo da armadilha da estagnação econômica, populismo e corrupção das últimas décadas. Os erros do passado precisam ser corrigidos para que o futuro seja melhor, e esse é o propósito do novo governo. 

Um diagnóstico preciso, habilidade, transparência e ética nas negociações políticas têm garantido avanços animadores nos primeiros sete meses de Draghi no poder. Caso tenha o sucesso esperado, a empreitada favorecerá não só a Itália, mas também a consolidação da União Europeia, agora sem Angela Merkel, e com Emmanuel Macron debilitado à frente da eleição que se aproxima. Ao mundo, vem ensinando como é possível e necessário aglutinar as forças democráticas na construção do bem comum. 

Sem partido, Draghi foi nomeado pelo presidente Sergio Mattarella para o cargo de premiê (presidente do Conselho de Ministros), tendo recebido a aprovação de 535 votos (56 contra), na Câmara, e de 262 (40 contra), no Senado, e de 85% da população no momento da sua posse. Apenas o partido de extrema direita Fratelli d’Italia, de Giorgia Meloni, ficou fora da coalizão. Além do caos provocado pela pandemia, esse amplo apoio é explicado pela rara conjunção de competências de Draghi e pelo extraordinário volume de recursos destinados ao país por meio do fundo europeu, o Next Generation EU, com € 750 bilhões a serem distribuídos entre os países-membros para enfrentar a crise atual.

Um ano depois da chegada da covid, era evidente o fracasso da Itália no seu enfrentamento. Em fevereiro, por exemplo, enquanto a primeira dose de vacina já havia sido aplicada em 36% dos israelenses com mais de 12 anos, 14% dos ingleses, 8% dos americanos, apenas 2% dos italianos haviam sido vacinados, proporção menor do que a observada entre portugueses, espanhóis e franceses. A situação se inverteu e espera-se que, em outubro, 90% dos italianos estejam imunizados com a primeira dose. 

O sistema sanitário foi reorganizado, e a maior parte da população vem sendo convencida a se vacinar, tanto pelo discurso coerente de especialistas, como pelo progressivo endurecimento de leis que exigem comprovação de vacina – o “green pass” – em restaurantes, trens, locais de trabalho, tanto público como privado. Tal estratégia tem enfrentado barulhenta oposição da direita, mas sem comprometer a coalizão. Desde o início da pandemia, medidas fiscais que atingem 10% do PIB, e financeiras, de mais de 35% do PIB, vêm dando suporte às pessoas e empresas mais afetadas.

Além do front sanitário, havia outro desafio gigantesco: como definir prioridades e gerir investimentos de mais de € 200 bilhões, vindos do fundo europeu, obedecendo aos critérios de eficiência e integridade exigidos pela UE, em um país com notório histórico de corrupção? Difícil imaginar pessoa mais adequada que Draghi para tanto. Sua sólida formação acadêmica, larga experiência no setor público italiano, no comando do Tesouro e do Banco Central, e internacional, na presidência do BCE, reforçaram características pessoais especiais. 

Ao contrário de “mitos” antidemocráticos de esquerda ou de direita, que dependem do rancor dos excluídos para se manterem no poder, Draghi é um líder genuíno, suas ações aglutinam, iluminam e inspiram as pessoas. Discretíssimo, honesto, preparado, trabalha muito e fala pouco, uma arma poderosa nesse mundo esgotado com a cacofonia geral. Ausente das redes sociais, não aparece em programas populares na TV e concede poucas entrevistas coletivas. 

Apesar de falar pouco, Draghi se comunica muito bem, como indica o impacto produzido pelos seus discursos e suas célebres frases de efeito. Depois de salvar o euro, hoje faz de tudo para reconstruir a Itália. Como Cavour, citado no seu discurso de posse, acredita que “as reformas executadas a tempo, ao contrário de debilitar a autoridade, a reforçam”. Adiciona Draghi que “o crescimento de um país não é gerado apenas por fatores econômicos”. “Depende das instituições, da confiança que os cidadãos nelas depositam, da comunhão de valores e esperanças.”

Traz, dessa maneira, para o centro do palco político, o compromisso com a busca do bem comum. Seu plano de reformas sintetiza objetivos caros à esquerda – a redução das desigualdades de renda, oportunidades, gênero; investimentos em educação, saúde, meio ambiente; o amparo aos vulneráveis – e à direita – a busca da eficiência na Justiça, na máquina pública; reforma tributária; investimentos em infraestrutura. 

Ao assim proceder, escancara os vícios das velhas práticas do “centro”, baseadas na corrupção e compra de votos. Atordoa o carcomido sistema político italiano e reduz as resistências às reformas, que reescreverão as regras do jogo para “entregar uma Itália melhor e mais justa aos seus filhos e netos”, como prometeu Draghi no discurso de posse.

*É FORMADA EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA NA FGV, FEZ DOUTORADO EM ECONOMIA PELA USP E É SÓCIA DA A.C. PASTORE & ASSOCIADOS

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