Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O mínimo alemão

Em 22 de setembro, os alemães elegeram seus deputados. A União Democrata-Cristã (CDU), partido da chanceler Angela Merkel, foi a grande vencedora. Por pouco não conseguiu a maioria absoluta no Parlamento. Para Merkel continuar na chefia do governo alemão, ela deve agora compor uma aliança com uma outra força política.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2013 | 02h02

O aliado da chanceler será o Partido Social-Democrata. Desde 23 de outubro, a CDU e a agremiação irmã da Baviera, a União Social Cristã (CSU), vinham negociando com os social-democratas - um diálogo que foi conduzido eficazmente. Hoje, a grande coalizão está perto da conclusão. O Bundestag, o Parlamento alemão, poderá se reunir no dia 17, quando autorizará Merkel a formar seu terceiro governo.

As negociações foram difíceis. Os socialistas, mesmo derrotados nas eleições legislativas, poderiam bloquear todo o processo e, se necessário, impor novas eleições. Eis porque a todo- poderosa Merkel precisou "colocar água no seu vinho". E aceitou incluir em seu programa medidas às quais é visceralmente contrária - como, por exemplo, a criação de um salário mínimo para os cidadãos alemães.

Na França, as pessoas ficaram espantadas: "Como? Os alemães não têm salário mínimo?" E tiveram a visão contrária do milagre alemão, desse país que provoca admiração e inveja do mundo inteiro e deve registrar este ano um superávit comercial de 200 bilhões.

A contrapartida da formidável saúde alemã são justamente os baixos salários da população economicamente ativa. Claro que quase todos os alemães têm trabalho (ao contrário dos franceses, com uma taxa de desemprego muito elevada), mas é comum que o salário recebido seja insuficiente para viver: muitos alemães, 1,4 milhão deles, ganham menos de 5 por hora. Trabalhadores mais favorecidos, 40 milhões de pessoas, ganham menos de 8,4o por hora. Na França, o salário mínimo é de 9,20 por hora.

A França não sai gloriosa na comparação, porque os altos salários pagos aos seus operários explicam a debilidade da sua indústria e suas exportações. A ironia é que os brilhantes resultados da economia alemã só se tornaram possíveis em razão de medidas severas, adotadas dez anos atrás, em 2003, pelo então chanceler social-democrata, Gerhard Schroeder.

Schroeder entendeu que, para tirar a Alemanha do seu desalento, era preciso impor um tratamento drástico: aumentar a flexibilidade do trabalho e o lucro das empresas.

O então chanceler raciocinou corretamente e agiu com coragem. E foi graças àquelas medidas difíceis que seu país conseguiu, mais tarde, sob o comando então da direita, com Merkel, atravessar os vendavais que se abatem sobre a Europa desde 2008 e 2009.

Os países que não quiseram reduzir seu conforto, como a França, sucumbiram e enfrentam uma situação muito difícil.

Novos tempos. Agora, Merkel muda de estratégia. Isso por razões eleitorais, sob pressão dos social-democratas, mas não é só.

Toda a Europa há meses acusa a Alemanha de egoísmo, de armazenar tesouros nos seus cofres sem se preocupar com os efeitos da sua saúde para as populações enfermas.

Ministros de países vizinhos da Alemanha - incluindo o ministro das Finanças da França, Pierre Moscovici - insistiam para que a Alemanha enfim adotasse o princípio do salário mínimo.

Claro que Merkel poderia ignorar os apelos e conservar sua atitude rígida. Mas, então, os social-democratas rejeitariam uma coalizão de governo com a CDU. A formação de uma base governista sustentável seria impossível. E, na eventualidade de novas eleições, elas se traduziriam, provavelmente, num avanço do partido antieuropeu, o AFD, o que Merkel não deseja por nada neste mundo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.