Olivier Hoslet/Pool via REUTERS
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O mistério de May 

Em poucos dias, premiê terá de defender no Parlamento o acordo que assinou com a UE

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2018 | 05h00

Então é isso. O divórcio entre Reino Unido e União Europeia foi pronunciado. Depois de mais de dois anos de discussões, os 27 membros da UE aprovaram um acordo. Permanece um último obstáculo: o pacto tem de ser aprovado pelo Parlamento britânico. E, nesta corrida de obstáculos, este é o mais formidável dos problemas, um que pode inviabilizar a equipe e deixar britânicos e europeus na mais completa das trevas. 

Todos os olhos estão na primeira-ministra, Theresa May. Será que ela enfrentará tempestade que agitará Westminster? Pela lógica, essa batalha final deve ser perdida. Mas, antes de se tornar a primeira-ministra, após o referendo sobre o Brexit, em 23 de junho de 2016, ela tinha seguido uma carreira honrada, mas sem qualquer esplendor que revelou após apresentar 17 leis de virtudes notáveis. 

Uma de suas primeiras virtudes é um defeito: falta de carisma e de empatia que lhe valeu o apelido de “Maybot” formada pela junção das palavras “May" e “robot”. Até mesmo seu andar, rígido e um pouco irregular, confirma essa semelhança entre May e um robô. Será que foi por esta razão que, há algumas semanas, ela apareceu em uma importante reunião esboçando alguns passos de dança? Segundo especialistas, o exercício foi inconclusivo. 

Ela dança, dizem eles, “como uma vassoura com boa vontade”. Esta falta de flexibilidade foi, por vezes, uma desvantagem nas negociações. Ao mesmo tempo, permitiu que ela superasse grandes perigos que teriam posto fora de ação uma pessoa mais flexível que Maybot. 

Sejam quais forem os furacões, ela não se desvia, persiste e ganha. Em abril de 2017, ela teve uma ideia desconcertante: convocou eleições quando ninguém pediu e sua posição era muito precária. Ela persistiu. Todo mundo esperava sua queda e ela se manteve acrobaticamente no poder com o apoio de um microscópico partido da Irlanda do Norte, o Partido Unionista Democrático (DUP). Então, ela ganhou outro apelido: “Zombie May”, que mostra seu talento para ir até a beira do abismo. 

May acaba de fornecer uma nova prova de sua tenacidade. Na semana passada, quando anunciou que um acordo de divórcio com a UE tinha sido firmado, seus inimigos tentaram derrubá-lo, especialmente as pessoas de seu próprio partido, favoráveis a um Brexit rigoroso. 

Seis ministros ou vice-ministros renunciaram. Durante três horas, esta mulher orgulhosa se submeteu às explosões dos seus oponentes no Parlamento, com oradores formidáveis, como Boris Johnson, que poderia esmagar sob a sua retórica a medíocre oradora May. Pois ela, exausta, privada de sono e ainda empoleirada em seus belos escarpins, enfrentou tudo. Hoje, oito dias depois dessa “matança”, ela está sempre onde está. 

Onde essa mulher encontra sua força? Alguns nos dizem que ela é filha de pastor e, em sua infância, não gostava de brincar. Tudo foi julgado segundo duas virtudes fundamentais: dever e honra. Muito boa aluna, foi para Oxford, onde fez duas coisas: estudou geografia e encontrou um marido, Philip, com quem não teve filhos. 

May é a primeira a admitir que não é engraçada. O estilo de respostas espirituosas não é com ela. A premiê é terrivelmente séria. É uma solitária. Às vezes, a gente se pergunta quais são seus prazeres. Um jornalista fez a pergunta. Ela olhou por alguns instantes e encontrou: “Eu gosto muito de correr pelos campos de trigo”. 

Esta é a dama que aparecerá em poucos dias diante dos deputados para defender sua solução mediadora: o tratado assinado com Bruxelas. No papel, ela está perdendo, ela já está morta. No entanto, como bom soldado, May irá para o fogo. 

É verdade que, no seu arsenal, possui uma arma muito poderosa, que poderia ser uma “arma de dissuasão” decisiva: se os deputados rejeitarem o acordo assinado com a União Europeia, então haverá uma crise política, um novo governo e um segundo referendo sobre o Brexit ou um divórcio sem acordo. Em ambos os casos, a possibilidade de caos é grande. “Zombie May” luta à beira do abismo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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