O mito do ditador útil

EUA devem pressionar até que as ditaduras árabes aceitem as exigências de seus cidadãos

James Traub, Foreign Policy, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2011 | 00h00

Numa coluna recente, zombando do argumento para uma intervenção militar na Líbia, a colunista Maureen Dowd, do New York Times, citou a máxima do ex-presidente John Quincy Adams, de que os EUA "não vão ao exterior atrás de monstros para destruir". Os realistas em política externa têm Adams como seu patriarca. Como Adams, eles veem a intromissão americana em disputas internas de lugares distantes como uma espécie de loucura nacional.

O mundo árabe tem um jeito de transformar os formuladores políticos americanos em realistas: as apostas são simplesmente altas demais para ser de outro jeito. Qualquer um pode vociferar contra líderes perigosos no Sudão, no Zimbábue ou na Líbia, onde os EUA não têm interesses vitais.

No Oriente Médio, onde a população discorda da política ocidental sobre Israel, contraterrorismo e Irã, um grande número de líderes está pronto para ignorar a opinião pública contanto que considere essas políticas do interesse de seu país. Mais ainda, os governantes autoritários oferecem uma espécie de serviço completo que os torna bem mais fáceis de lidar do que Parlamentos ou uma mídia livre.

Os eventos que estão transformando o mundo árabe, porém, ilustram o quanto os herdeiros intelectuais de Adams estão fazendo uma falsa escolha. Os interesses nacionais dos EUA dependem hoje do bem-estar do povo em lugares remotos como não dependiam no século 19. O caos, não só na Líbia, mas em autocracias antes estabelecidas, como Bahrein e Iêmen, coloca em risco os interesses americanos e mostra a tolice que foi contar com a estabilidade desses Estados.

É verdade que esse sentimento virou uma espécie de clichê. O governo de George W. Bush reconhecia os limites do realismo. Mas, fora o Iraque, a política de Bush na região, como a de quase todos os seus antecessores, se mostrou muito mais realista do que sua retórica. Em um famoso discurso de 2005 no Cairo, Condoleezza Rice admitiu que, durante 60 anos, "meu país, os EUA, perseguiu a estabilidade às custas da democracia no Oriente Médio, e não conseguiu nenhuma das duas".

No entanto, disse ela, os EUA haviam, enfim, compreendido que, no longo prazo, regimes despóticos acabavam por perder sua legitimidade e a estabilidade. A própria Condoleezza, assim como os demais defensores da democracia no governo Bush, acabou apostando mais na estabilidade do que na democracia na região. A pressão dos interesses de curto prazo prevaleceu sobre os benefícios no longo prazo. Daí, as políticas dos presidentes americanos para o Oriente Médio tendem a ser muito mais realistas do que suas retóricas.

Atraso. Os presidentes americanos pareciam destinados a fazer as mesmas declarações corretas, perseguir a mesma linha pragmática e, por fim, aprender as mesmas lições dolorosas. Barack Obama só entrou no cordão da mudança no Egito e na Tunísia quando ela adquiriu uma força demolidora. Como seus antecessores, ele se absteve de qualquer crítica pública às políticas domésticas da Arábia Saudita, que pode fechar ou abrir as torneiras do petróleo a seu bel prazer. Mas o realismo já não parece tão realista como era. Os sauditas, por enquanto, parecem inabaláveis. Mas o que fará Obama com os aliados que resistem aos apelos por mudança e causam danos no processo, como Bahrein e Iêmen?

No Iêmen, após semanas de protestos pacíficos, tropas do governo abriram fogo contra manifestantes, matando dezenas. Antes do massacre, havia motivos para esperança de uma solução negociada, porque o presidente Ali Abdullah Saleh havia prometido não concorrer novamente, embora tenha se recusado a deixar o poder antes do fim de seu mandato em 2013. Os dois lados saem tão endurecidos desse novo surto de violência que diplomatas americanos e europeus pouca coisa poderão fazer para reaproximá-los.

A mesma dinâmica perigosa surgiu no Bahrein, onde a situação parece mais perigosa e menos tratável. O Bahrein abriga a 5.ª Frota dos EUA. Em um país onde 70% da população é xiita, a monarquia sunita serve de contrapeso a uma influência iraniana no Golfo Pérsico. A família governante, Khalifa, empreendeu reformas políticas limitadas há cerca de uma década e é menos reacionária do que a monarquia da Arábia Saudita, sua vizinha e principal patrona.

Por todas essas razões, a família Khalifa desfrutara de uma virtual abstenção de críticas por parte dos EUA, mesmo após encarcerar dissidentes e a fechar organizações da sociedade civil no ano passado. Como a repressão não colocou em risco a estabilidade, não havia monstros a serem destruídos por lá.

O governo Obama se ateve, em grande parte, a esse roteiro nos dois últimos anos. Nas primeiras semanas da sublevação, quando dezenas, depois centenas de milhares de manifestantes xiitas foram às ruas pedindo tratamento igual, a Casa Branca não criticou publicamente o regime, como fez no caso do Egito e da Tunísia.

As autoridades americanas só começaram a mudar de atitude quando a família governante decretou a lei marcial, "convidou" 2 mil soldados da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos para ajudá-la a lidar com o levante e, depois, atacou selvagemente os manifestantes com tanques e armas de fogo.

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, disse que o país "deplorava o uso da força", enquanto o secretário de Defesa, Robert Gates, insistia em dizer que o regime do Bahrein deveria tomar "medidas mais abrangentes" para atender as reivindicações dos manifestantes. Nenhum dos dois pediu, porém, para que as tropas sauditas saíssem ou para que o regime bareinita começasse a abrir mão de parte de sua autoridade, como os manifestantes cobravam.

O governo argumenta que os EUA não podem simplesmente tomar partido dos manifestantes, como fez em outros lugares, porque a linha dura entre eles está bloqueando um acordo, assim como a linha dura do regime. As autoridades vêm tentando, portanto, preservar espaço para os moderados de ambos os lados.

No entanto, Leslie Campbell, diretor para o Oriente Médio do National Democratic Institute, diz que as autoridades americanas na região, incluindo Gates e o secretário-assistente de Estado, Jeffrey Feltman, se mostraram mais dispostos a criticar partidos xiitas moderados por não quererem entrar em negociações do que os líderes do regime por rejeitarem categoricamente as reivindicações dos manifestantes.

Michele Dunne, uma especialista em Oriente Médio do Carnegie Endowment for International Peace, dá mais credito ao governo americano pela firmeza nos últimos dias, mas diz que, até então, "eles estavam sendo realmente brandos com a família Khalifa".

Uma preciosa oportunidade foi perdida. No princípio do levante, o Al-Wefaq, o maior grupo de oposição xiita no Bahrein, havia prometido aceitar a continuação da dinastia Khalifa, mas havia pedido, no mínimo, uma mudança nas absurdas regras de constituição de distritos, que permitia que mais sunitas do que xiitas ganhassem assentos na Câmara Baixa.

Campbell acredita que os moderados teriam conseguido persuadir o grosso dos manifestantes a virem para a mesa de negociações se a família governante tivesse aceitado discutir a redefinição dos distritos ou "sinalizar que a família Khalifa estava aberta a uma eventual instalação de uma monarquia constitucional".

A própria linha dura do regime, no entanto, se recusou a fazer essa oferta. É improvável que uma pressão americana mais incisiva pudesse ter inclinado a balança - a Arábia Saudita tem mais importância para o Bahrein do que os EUA -, mas Campbell argumenta que a Casa Branca não se esforçou o suficiente. Agora, muitos manifestantes estão pedindo a cabeça do rei, o que realmente seria um desastre para a política externa americana.

Há muito que os formuladores políticos em Washington viam o Bahrein, assim como as outras monarquias do Golfo, como um lugar onde os interesses americanos são mais bem servidos por um regime autoritário que tempera suas políticas o suficiente para satisfazer as cobranças dos críticos.

Esse cálculo realista, contudo, não parece tão inteligente. O Bahrein está evoluindo para algo como a Síria: um Estado governado por uma minoria, que usa a repressão e a força para impedir que a maioria chegue ao poder.

E o Bahrein, provavelmente, não conseguirá o controle político com o mesmo punho de ferro que a Síria exerce sobre seus dissidentes. O medo da maioria xiita, alimentado pelo pesadelo saudita de um Estado dominado pelo Irã do outro lado do Golfo Pérsico, o fará intensificar a repressão - que, por sua vez, radicalizará os já indignados xiitas bareinitas.

Isto, ao contrário, aumentará a probabilidade de uma intromissão iraniana. A estabilidade autoritária será uma lembrança distante. A 5ª Frota estará estacionada não no calmo abrigo de um déspota esclarecido, mas em mares perpetuamente tormentosos.

É uma confusão terrível para todos: os EUA, o regime e, sobretudo, a oposição xiita. E é uma confusão que justifica a visão de que Estados autoritários parecem estáveis, mas não são - e é tarde demais para fazer alguma coisa a esse respeito.

Democracia. O regime de Muamar Kadafi, na Líbia, parecia tão impermeável às pressões como o da família Khalifa. Agora, a violência e o caos chegaram a tal ponto que outros países se sentem compelidos a uma intervenção arriscada. John Quincy Adams jamais poderia ter imaginado um sistema global em que distúrbios distantes ameaçassem profundamente os interesses americanos.

Os EUA, seguramente, descobrirão que é muito mais difícil operar políticas antiterror em um Oriente Médio onde os líderes prestam contas a seus cidadãos. No entanto, o Oriente Médio cheio de cidadãos explodindo de ódio contra tiranos que esmagam suas aspirações democráticas estará tão fixado em sua própria segurança interna que será inútil para ajudar os americanos em algumas de suas preocupações centrais, como a contenção do Irã e a não proliferação.

Os sauditas, realistas ao máximo, acreditam que dirigentes autoritários podem permanecer no poder para sempre com uma combinação de repressão e suborno. E isto os faz considerar a preocupação americana com legitimidade uma ilusão perniciosa.

São os sauditas, porém, os que estão desafiando a realidade. O "realismo" saudita pode ser uma ameaça maior para a região - e para os interesses americanos - do que o expansionismo iraniano. Os EUA não podem se dar ao luxo de uma sublevação popular natimorta no mundo árabe.

No Bahrein e alhures, os EUA e seus aliados do Ocidente agora devem a si mesmos insistir na reforma democrática e continuar pressionando, com todos os instrumentos disponíveis, até que regimes aceitem as reivindicações de seus cidadãos. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É COLABORADOR DA "NEW YORK TIMES MAGAZINE" E ESCRITOR

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