O modelo de democracia ocidental contra a internet

"Nunca desperdice uma boa crise" costumava ser o lema da equipe de Barack Obama nos meses que antecederam a eleição presidencial. Na tentativa de preservar esse espírito, vejamos o que pode ser aprendido a partir das reações oficiais após as revelações do WikiLeaks.

John Naughton / THE GUARDIAN, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2010 | 00h00

Há uma deliciosa ironia no fato de agora serem as chamadas democracias liberais que estão se mobilizando para tirar o WikiLeaks de ação. Pensemos, por exemplo, em como a opinião do governo americano mudou no decorrer de um ano. Em 21 de janeiro, a secretária de Estado, Hillary Clinton, fez em Washington um importantíssimo discurso sobre a liberdade na internet. Levando em consideração aquilo que sabemos agora, o discurso soa como uma obra-prima da sátira.

A principal revelação do WikiLeaks é o quanto o sistema democrático ocidental tornou-se oco. Na última década, suas elites políticas mostraram-se incompetentes, corruptas ou irresponsavelmente militaristas. Ainda assim, em nenhum país, os governantes foram obrigados a reconhecer os próprios atos de modo contundente. Em vez disso, os políticos abriram caminho com base em manobras, mentiras e berros.

Quando finalmente o véu do segredo é erguido, sua reação instintiva é matar o mensageiro. Os políticos, porém, enfrentam agora um dilema profundo. A antiga abordagem de esmagar e suprimir não funcionará. O WikiLeaks não depende apenas da tecnologia da web. Milhares de cópias dos documentos secretos - e provavelmente de muitas outras informações sigilosas - estão à solta.

Nossos governantes têm uma escolha a fazer: ou aprendem a viver em um mundo passível de ser vazado pelo WikiLeaks, com todas as implicações que isto traz para seu comportamento futuro, ou terão de fechar a internet. A decisão é deles. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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