''O momento carismático da Revolução Cubana acabou''

CORRESPONDENTE / WASHINGTON

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2011 | 00h00

Arturo López-Levy, ANALISTA CUBANO

Fidel Castro continuará como "fator importante" nos rumos de Cuba, apesar de sua saída definitiva do comando do PC Cubano - que chamou um burocrata de 80 anos para a segunda posição mais importante, como meio de preparar uma transição política inevitável e acabou por traçar sua linha de aproximação ao capitalismo. A avaliação é do professor cubano Arturo López-Levy, da Universidade de Denver, no Colorado. "O momento carismático da política cubana acabou", afirmou, em entrevista ao Estado.

Fidel deixou oficialmente a presidência de Cuba em 2008 e agora deixa o PCC. Pode-se prever sua aposentadoria completa ou apenas um distanciamento?

Ele será um fator importante na política cubana, mesmo depois de sua morte. Fidel se vê como revolucionário e esse tipo de gente, como dizia Danton, não descansa até chegar ao túmulo. Mas o momento carismático da política cubana acabou. O governo será medido por sua capacidade de prover bem-estar para a população, mais participação política e defesa da soberania.

Que mensagem o PC quis dar aos cubanos ao eleger José Ramón Machado, de 80 anos, como segundo secretário-geral?

Foi um ato paradoxal, mas esperado. O congresso aprovou mudanças substanciais na economia e, em menor medida, na política cubana. Entre elas, limites para os mandatos, que são extremamente importantes para a futura sucessão. Mas, para adotar essas mudanças, elegeu um político burocrático tremendamente conservador. Era uma decisão esperada, pois Raúl Castro havia insistido em criticar o modelo fidelista de elevar quadros mais jovens "por helicóptero" a postos fundamentais. Depois da demissão de Felipe Pérez Roque (ex-chanceler) e de Carlos Lage (ex-vice-presidente), criou-se um vazio. Raúl decidiu cobri-lo para os próximos cinco anos. Machado não será o sucessor de Raúl, a menos que este adoeça. Seu papel será supervisionar a criação de uma nova forma de dirigir, com separações entre o PCC e o governo, e contribuir para a designação ou eleição do sucessor de Raúl - ou sucessores. É possível que o Artigo 74 da Constituição seja revisto, para permitir a presença do primeiro-secretário do PCC e presidente do Conselho de Estado e também do Presidente de Conselho de Ministros.

O 6.º Congresso discutiu a regulação da propriedade privada em Cuba, mas não anunciou nenhuma medida efetiva. Em setembro, o governo cubano havia permitido a formação de pequenas empresas e de companhias cooperativas. Essas medidas estão funcionando?

Não houve medidas específicas sobre o regime de propriedades em Cuba, mas foram aprovadas linhas muito claras, que mudam as fronteiras ideológicas do regime político cubano. A propriedade privada e o mercado não foram somente permitidos, mas considerados legítimos e desejáveis pelas autoridades. Há ainda a rejeição à concentração da propriedade privada, mas isso também tende a mudar no futuro. Por exemplo, o Congresso aprovou a ampliação da quantidade de terras entregues em usufruto aos que a exploram com eficiência.

Cuba está atrasando seu processo de reforma econômica ou está tentando criar uma fórmula própria para reinserir-se ao capitalismo?

Não tenho a impressão de que a cúpula do PCC esteja atrasando as reformas. O problema é uma burocracia doutrinada por décadas. O PCC está buscando um novo caminho para se sustentar no poder. Claro que chama a esse projeto de "socialismo", mas o importante é ter concordado em abrir um espaço de cerca de um terço da economia cubana ao setor não estatal. Também propôs uma mudança econômica, no marco da continuidade unipartidária.Fidel Castro continuará como "fator importante" nos rumos de Cuba, apesar de sua saída definitiva do comando do PC Cubano - que chamou um burocrata de 80 anos para a segunda posição mais importante, como meio de preparar uma transição política inevitável e acabou por traçar sua linha de aproximação ao capitalismo. A avaliação é do professor cubano Arturo López-Levy, da Universidade de Denver, no Colorado. "O momento carismático da política cubana acabou", afirmou, em entrevista ao Estado.

Fidel deixou oficialmente a presidência de Cuba em 2008 e agora deixa o PCC. Pode-se prever sua aposentadoria completa ou apenas um distanciamento?

Ele será um fator importante na política cubana, mesmo depois de sua morte. Fidel se vê como revolucionário e esse tipo de gente, como dizia Danton, não descansa até chegar ao túmulo. Mas o momento carismático da política cubana acabou. O governo será medido por sua capacidade de prover bem-estar para a população, mais participação política e defesa da soberania.

Que mensagem o PC quis dar aos cubanos ao eleger José Ramón Machado, de 80 anos, como segundo secretário-geral?

Foi um ato paradoxal, mas esperado. O congresso aprovou mudanças substanciais na economia e, em menor medida, na política cubana. Entre elas, limites para os mandatos, que são extremamente importantes para a futura sucessão. Mas, para adotar essas mudanças, elegeu um político burocrático tremendamente conservador. Era uma decisão esperada, pois Raúl Castro havia insistido em criticar o modelo fidelista de elevar quadros mais jovens "por helicóptero" a postos fundamentais. Depois da demissão de Felipe Pérez Roque (ex-chanceler) e de Carlos Lage (ex-vice-presidente), criou-se um vazio. Raúl decidiu cobri-lo para os próximos cinco anos. Machado não será o sucessor de Raúl, a menos que este adoeça. Seu papel será supervisionar a criação de uma nova forma de dirigir, com separações entre o PCC e o governo, e contribuir para a designação ou eleição do sucessor de Raúl - ou sucessores. É possível que o Artigo 74 da Constituição seja revisto, para permitir a presença do primeiro-secretário do PCC e presidente do Conselho de Estado e também do Presidente de Conselho de Ministros.

O 6.º Congresso discutiu a regulação da propriedade privada em Cuba, mas não anunciou nenhuma medida efetiva. Em setembro, o governo cubano havia permitido a formação de pequenas empresas e de companhias cooperativas. Essas medidas estão funcionando?

Não houve medidas específicas sobre o regime de propriedades em Cuba, mas foram aprovadas linhas muito claras, que mudam as fronteiras ideológicas do regime político cubano. A propriedade privada e o mercado não foram somente permitidos, mas considerados legítimos e desejáveis pelas autoridades. Há ainda a rejeição à concentração da propriedade privada, mas isso também tende a mudar no futuro. Por exemplo, o Congresso aprovou a ampliação da quantidade de terras entregues em usufruto aos que a exploram com eficiência.

Cuba está atrasando seu processo de reforma econômica ou está tentando criar uma fórmula própria para reinserir-se ao capitalismo?

Não tenho a impressão de que a cúpula do PCC esteja atrasando as reformas. O problema é uma burocracia doutrinada por décadas. O PCC está buscando um novo caminho para se sustentar no poder. Claro que chama a esse projeto de "socialismo", mas o importante é ter concordado em abrir um espaço de cerca de um terço da economia cubana ao setor não estatal. Também propôs uma mudança econômica, no marco da continuidade unipartidária.

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