O momento de Morsi

Presidente egípcio poderia usar seu atual prestígio para alcançar um acordo de paz entre Israel e os palestinos

Análise: THOMAS L. FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2012 | 02h06

A guerra entre israelenses e o Hamas, na semana passada, foi o primeiro teste da ordem que se instalou na região após o despertar árabe no Oriente Médio. O Hamas, que se envolveu num duelo de mísseis com Israel e depois pediu apoio aos países árabes, particularmente ao Egito, testou não apenas o Cairo, mas também Israel.

A questão que o Hamas apresentou aos egípcios foi simples: o Egito realizou uma revolução democrática no ano passado para se tornar mais parecido com o Irã ou com a China?

Em outras palavras, o Egito estará disposto a sacrificar o acordo de Camp David, a ajuda dos EUA e o desenvolvimento econômico para apoiar o programa radical, pró-iraniano do Hamas, ou não? A resposta do Cairo foi não. O presidente Mohammed Morsi, do partido da Irmandade Muçulmana, não quis ser forçado a um rompimento total com Israel em favor do Hamas e, por isso, usou a influência do Egito para intermediar um cessar-fogo.

Mas isso suscita uma questão ainda mais intrigante daqui para a frente - a possibilidade de Morsi usar seu prestígio para um avanço na situação entre Israel e os palestinos a fim de o Egito não ser apanhado novamente.

É impossível não se sentir preocupado com o prestígio que Morsi poderia vir a ter no processo de paz, se optasse por apoiar Israel. Exatamente por ele representar a Irmandade Muçulmana, a vanguarda do Islã árabe, e justamente por ter sido eleito democraticamente, se ele usasse sua influência num acordo de paz israelense-palestino, seria muito mais valioso para Israel do que a fria paz que Anwar Sadat proporcionou e Hosni Mubarak manteve. Sadat ofereceu aos israelenses a paz com o Estado egípcio. Morsi ofereceria a Israel a paz com o povo egípcio e, por meio dele, com o mundo muçulmano.

Ironicamente, tudo isso dependeria de Morsi não se tornar um ditador. Agora isso está sendo posto em dúvida pelo fato de Morsi ter-se dotado de mais poderes.

Sem dúvida, o preço de Morsi por sua aproximação com Israel seria a Iniciativa de Paz Árabe - a retirada total dos israelenses da Cisjordânia e do setor leste de Jerusalém, salvo por trocas de territórios segundo acordos mútuos, e o retorno de alguns refugiados. Se Morsi apresentasse essa proposta em conversações diretas com Israel, poderia ressuscitar unilateralmente a ala israelense favorável à paz.

Estarei esperando isso? Tanto quanto espero ganhar na loteria. A Irmandade há muito odeia o Estado Judeu, assim como o pluralismo político e religioso e o feminismo. Portanto, o que espero são mais problemas entre Israel e o Hamas que ameaçarão constantemente envolver o Egito.

O Hamas subordina os interesses do povo palestino ao Irã (e anteriormente à Síria), que quer que o Hamas faça o possível para impossibilitar a solução dos dois Estados, pois isso prenderia Israel numa armadilha mortífera na Cisjordânia, destruindo a democracia judaica, com a finalidade de desviar as atenções da opinião pública mundial do comportamento assassino do Irã e da Síria.

Israel se retirou de Gaza em 2005 e o Hamas teve a possibilidade de escolher: reconhecer Israel e ter uma fronteira aberta, ou continuar negando a existência de Israel, manter a fronteira fechada e contrabandear foguetes. Optou pelos foguetes. A melhor maneira de Israel enfraquecer o Hamas será dando poderes à Autoridade Palestina secular, para que desfrute de uma maior independência e construa uma economia florescente, para que cada palestino possa decidir qual é a estratégia que funciona melhor: trabalhar com Israel ou contra Israel.

Hoje, uma liderança inteligente, corajosa, poderia neutralizar o conflito israelense-palestino, promover a democracia egípcia e isolar os regimes do Irã, da Síria e do Hamas. Uma liderança fraca ou temerária fortalecerá os três. Este é um grande momento. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA E ESCRITOR

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.