O 'momento de Munique' de Obama será na Ásia?

Discussões sobre o Mar do Sul da China podem ser vitais para o desenvolvimento das relações entre Washington e Pequim

James R. Holmes, do The Diplomat, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2011 | 00h00

Sou um admirador do senador James Webb, da Virginia, desde o final dos anos 80, quando ele era secretário da Marinha. Além de estrategista e parlamentar, Webb é um veterano da força dos Fuzileiros Navais, condecorado no Vietnã, romancista e historiador de considerável destaque. Portanto, quando ele afirma que os EUA estão se "aproximando do momento de Munique com a China", na questão do Mar do Sul da China, vale a pena levar suas palavras a sério.

Ultimamente, ele fez um ataque incendiário. Se um momento de Munique está sendo preparado, quem são os protagonistas? Aparentemente, Webb coloca a China no papel da Alemanha nazista, uma potência agressiva, gananciosa, continuamente pronta a ampliar sua soberania geopolítica à custa de pequenos países. O que torna o presidente Hu Jintao a contrapartida de Adolf Hitler. O presidente Barack Obama estaria no papel de Neville Chamberlain, premiê britânico que barganhou grande parte da Checoslováquia em 1938, na esperança de satisfazer a fome de novas terras de Hitler. Chamberlain voltou ao seu país, proclamando que o Ocidente tinha negociado "a paz do nosso tempo". Os estadistas britânicos e franceses também queriam ganhar tempo, caso a paz se revelasse passageira.

Satisfazendo às exigências de Hitler com territórios etnicamente alemães, eles ganhavam uma folga para recompor suas forças armadas, preparando-se para a guerra que se aproximava na Europa. Os países do Sudeste Asiático são outra Checoslováquia desamparada, incapazes de impedir que as grandes potências barganhem com seus interesses vitais. É muito provável que as escolhas no casting de Webb não agradem a nenhum dos atores do drama que se desenrola no Mar do Sul da China.

"Munique" equivale a "conciliação", um conceito que assumiu conotações repugnantes depois de 1938. Entretanto, é importante destacar que a conciliação é uma atividade diplomática rotineira em tempos normais. Os países firmam compromissos a toda hora. Como aliás deve ser.

Acaso Munique - cuja infâmia denota um toma lá dá cá com poderosos predadores - será uma metáfora adequada para a conduta dos EUA no que concerne às disputas marítimas que turvam o Mar do Sul da China? Vamos dissecar esta analogia para estabelecer alguns parâmetros e avaliar os acontecimentos na região. Em primeiro lugar, a Checoslováquia foi um elemento secundário para os conciliadores. A ameaça à paz, segundo as palavras de Chamberlain, surgiu de "uma briga num país distante entre pessoas a respeito das quais nada conhecemos".

Lutar pela Checoslováquia beirava o impensável para a Grã-Bretanha e a França. Os americanos raramente acompanham a política do Sudeste Asiático, apesar da importância desta encruzilhada marítima para o comércio global e dos EUA. Segundo os líderes filipinos, o tratado de segurança de 1951 entre Manila e Washington refere-se às reivindicações territoriais marítimas no Mar do Sul da China.

Será que os americanos lutariam para defender estas reivindicações, ou, como a soberania checa para as potências ocidentais em 1938, eles as considerariam um assunto secundário? Em segundo lugar, os delegados anglo-franceses ofereceram a um agressor faminto de terras este objeto secundário para comprar uma paz temporária.

Hitler já se tornara notório por suas agressões. Em 1936, por exemplo, as tropas alemãs voltaram a militarizar a Renânia. Berlim começav,a assim, a rescindir o Tratado de Versalhes. No início de 1938, Hitler pressionou a Áustria a aceitar a Anschluss, ou a adesão a um império alemão mais amplo. Então, em Munique, os líderes franceses e britânicos ofereceram concessões que estimularam o apetite do predador por novos territórios. Depois de barganhar a região dos Sudetos, o maior distrito industrial de língua alemã da Checoslováquia, Londres e Paris anularam a possibilidade de Praga resistir às exigências alemãs. As forças alemãs ocuparam logo em seguida o restante do país.

Interpretações. Outra maneira de considerarmos a questão do Mar do Sul da China é a seguinte: será que Pequim já dispõe de um histórico igualmente incontestável de agressões, que tornaria um compromisso entre os EUA e a China uma traição em relação aos governos amigos do Sudeste Asiático - resultado que Washington deveria prever e evitar? Talvez, mas é bom lembrar que o próprio sucessor de Chamberlain, Winston Churchill, foi generoso retrospectivamente. Em seu discurso fúnebre a Chamberlain, Churchill aconselhou a não julgar um caso como o de Munique "fora do seu contexto". Além disso, durante seu mandato de primeiro-ministro no pós-guerra, Churchill afirmou que "a diplomacia é sempre melhor do que a guerra". Estas não são as palavras de um estadista que automaticamente rejeitou o compromisso, até mesmo com um possível antagonista como Hitler, Joseph Stalin ou Nikita Kruchev. Reduzir as polêmicas internacionais ao caso de Munique pode ser uma excessiva simplificação - e um equívoco.

Diplomacia. Será melhor para Washington usar a diplomacia ou chegou o momento de enfrentar Pequim em nome dos governos amigos do Sudeste Asiático? Em terceiro lugar, as potências ocidentais sacrificaram os interesses vitais de uma terceira parte sem consultá-la. A conferência de Munique excluiu o presidente Edvard Benes da Checoslováquia, cujo país era a principal parte interessada na disputa. Dando de presente a região dos Sudetos, a conferência consentiu efetivamente com a demolição da economia, da indústria e das defesas naturais checas. Se a analogia com Munique cabe no caso, então EUA e China decidirão o futuro do Mar do Sul da China sem pedir o consentimento dos governos do Sudeste Asiático. Se Obama desempenhar o papel de Chamberlain, fará uma escolha imprudente - encorajando Pequim a arrancar novas concessões dos governos asiáticos.

As analogias históricas são sempre imperfeitas. Isso é válido no presente caso. Resta ver se o Mar do Sul da China, uma passagem marítima que a secretária de Estado Hillary Clinton e outros dignitários reiteradamente declararam um interesse nacional americano, constitui um objetivo menor para Washington. Há pelo menos um indicador que mostra que é o contrário: o projeto de Estratégia Marítima dos EUA de 2007, documento norteador da Marinha, do Corpo de Fuzileiros Navais, e das iniciativas da Guarda Costeira americana, declara com efeito que os EUA permanecerão a principal potência marítima no Pacífico Ocidental e no Oceano Índico no futuro previsível.

Se o governo em Washington está convencido disso, dificilmente relegará o Sudeste Asiático a uma consideração tardia. Na terminologia de Chamberlain, o Mar do Sul da China pode constituir uma vastidão distante, enquanto os americanos se interessarem tão pouco pelos problemas regionais. Mas não poderão continuar a olhá-los com indiferença.

Algumas concessões estimulariam a China, encorajando-a a procurar uma expansão maior à custa dos vizinhos? Esta é a questão fundamental para os observadores da China. Solucionar os problemas em sua periferia marítima - o Mar do Sul da China, Taiwan, a disputa em torno das Ilhas Senkaku/Diaoyai, e outras do gênero - em seus próprios termos talvez satisfizesse Pequim. De fato, estas controvérsias todas estão na periferia histórica da China, e ela está convencida de que devem ser solucionadas à sua maneira. Mas é também possível que estas sirvam apenas como uma espécie de entrada, como a Checoslováquia foi para os nazistas. Não sabemos se a China será uma potência que se satisfaz ou se buscará outros pratos suculentos.

E finalmente, é duvidoso que Washington resolva excluir os governos do Sudeste Asiático das discussões sobre o seu futuro. Na realidade, a posição tradicional dos EUA a respeito de reivindicações territoriais marítimas é não adotar uma posição. Os EUA insistem principalmente que as partes resolvam suas divergências sem recorrer às armas, e seja quem for o vencedor nestas disputas sobre soberania e jurisdição marítima, eles defendem a navegação livre pelas de águas e céus regionais. O governo Obama poderá se envolver ainda mais nos problemas do Sudeste Asiático. Mas seria exagero achar que isso o tornaria porta-voz dos governos asiáticos.

Se o paralelo histórico do senador Webb deve ser considerado adequado, é uma opinião pessoal de cada um. Munique oferece um excelente parâmetro para acompanhar as relações entre EUA e China, independentemente da adequação da analogia. Além disso, a posição franca de Webb sobre a região poderá atender aos interesses americanos e regionais. É importante ser honesto consigo mesmo e com os amigos em questões complexas e arriscadas. E é ainda mais importante quanto se trata de possíveis concorrentes, como a China. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É PROFESSOR ADJUNTO DE ESTRATÉGIA DO NAVAL WAR COLLEGE DOS EUA

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