O movimento que ele não entendeu

Desafiado pela geração das comunicações, Mubarak mostrou-se, até o fim, o pior dos comunicadores

ROGER COHEN, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

Depois de todas as palavras, todo o contorcionismo e todas as artimanhas de bastidores de um ditador árabe confrontado por um movimento que fugia à sua compreensão, o desfecho foi breve. "Hosni Mubarak renunciou à presidência da república e transmitiu o governo do país ao Conselho Supremo das Forças Armadas." A declaração foi lida por um abatido Omar Suleiman, vice-presidente e assecla de Mubarak de longa data.

Desafiado pela geração das comunicações, um movimento formado por egípcios de pouco mais de 20 anos ligados pela internet e exigindo o direito de se expressar livremente, até o fim Mubarak se mostrou o pior dos comunicadores. Quem quer que deseje lecionar sobre a política do século 21 deve começar pelo caso do Egito, onde o poder de organizações horizontais acostumadas a usar a rede em tempo real acaba de ilustrar sua força sobre hierarquias paquidérmicas.

Ainda não sabemos como agirá o Exército egípcio, mas sua simpatia pela causa da revolta - ou ao menos sua determinação de não disparar contra as pessoas e defender o país em lugar do déspota - tem sido evidente desde o primeiro grande protesto, dia 25. Um comunicado emitido pelo Conselho Supremo dos militares antes da renúncia de Mubarak falava-se num "povo honesto que recusa a corrupção".

Parecia que finalmente um povo árabe - há muito tripudiado, sujeito à humilhação da não cidadania num Estado sem leis - assumia o palco. O mundo árabe acordou de um longo sono cheio de conspiração induzido por déspotas cada vez mais velhos e determinados a manter seu povo afastado da modernidade.

Nós, do Ocidente, muitas vezes nos perguntamos por que a paz no Oriente Médio era tão difícil de se construir. Talvez devamos admitir que os tijolos que tentamos usar estavam podres até o miolo, um apodrecimento do qual fomos cúmplices.

Quase uma década depois do 11 de Setembro, evento que evidenciou o devastador abismo que se formou entre Ocidente e Islã, esta sexta-feira trouxe esperança para milhões de jovens árabes e para todo o mundo. A revolução do Egito veio rapidamente depois da revolução na Tunísia, e traz inevitavelmente uma pergunta: qual dos espécimes do parque árabe dos dinossauros será o próximo a ser extinto? As democracias precisam de tempo para ser construídas, mas, uma vez erguidas, como ilustra a Europa, estabelecem uma paz significativa umas com as outras. Para afirmar o óbvio - embora não seja óbvio para alguns -, não há nada de antidemocrático no genoma árabe.

O discurso de Mubarak da quinta-feira, no qual ele tentou aferrar-se ao poder, foi um surreal exercício de surdez política: não se pode anunciar a própria partida enumerando aquilo que se pretende fazer. Como disse um destacado diplomata ocidental: "Ele nunca entendeu". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA

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