O mundo, de Londres ao Rio

Hoje, bombardeada por perguntas sobre a possibilidade de um atentado durante as competições, penso no que mudou desde 2012

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2016 | 05h00

Há quatro anos, participei da cobertura da Olimpíada de Londres. Hoje, bombardeada por perguntas sobre a possibilidade de um atentado durante as competições, penso no que mudou desde 2012. Londres havia sido palco de uma série de atentados sete anos antes, em julho de 2005, e um forte esquema de segurança foi montado para os Jogos, mas não havia o clima de paranoia de agora. A possibilidade de um ataque era vista como remota. O que mudou desde então? 

Há quatro anos, a guerra civil na Síria era ainda recente. Damasco tinha vivido apenas um episódio de violência – um atentado isolado que deixou 44 mortos, em dezembro de 2011 – e o restante do país continuava em paz. Os confrontos concentravam-se em Homs e os refugiados eram algo como 10 mil sírios (hoje são mais de 4 milhões e somam-se a 7 milhões de deslocados internos). A Síria acabara de formar um conselho nacional de oposição. E 2012 começara com um plano de paz desenhado pelo enviado da ONU, Kofi Annan, endossado pelo Conselho de Segurança, com apoio de China e Rússia, antigos aliados do regime de Bashar Assad. A guerra civil era vista como uma oportunidade de derrubar a ditadura de quatro décadas, no rastro da Primavera Árabe.

Há quatro anos, em julho de 2012, a Líbia acabara de eleger pelo voto popular um novo Congresso, após a morte de Muamar Kadafi, e se preparava para redigir uma nova Constituição. Havia grupos rebeldes descontentes com o ritmo das mudanças e o governo de transição lutava para controlar milícias locais. Mas havia ainda esperança de que a Líbia caminhava para se tornar uma democracia.

Há quatro anos, o Egito acabara de realizar as primeiras eleições presidenciais realmente livres de sua história. Os militares anunciaram o fim do estado de emergência, em prática desde o assassinato de Anwar Sadat, em 1981. O ex-ditador Hosni Mubarak havia sido preso e condenado à pena perpétua pela morte de manifestantes na Praça Tahir. Mohamed Morsi, líder da Irmandade Muçulmana, vencera as eleições presidenciais no segundo turno com 51,7% dos votos e, embora uma parcela da população estivesse insatisfeita com o resultado, o direito ao voto livre era visto como uma grande conquista. 

A Turquia vivia a promessa de se tornar um gigante econômico, com crescimento de 9,2% e 8,8%, em 2010 e 2011, respectivamente. O país, que negociava a entrada na UE, lançara uma “agenda positiva” em que prometia aumentar a cooperação multilateral, e parecia que o governo estava disposto a avançar em termos de liberdade de expressão e de imprensa, direitos humanos e nas relações com Chipre. O bloco europeu elogiara “o total respeito dos padrões democráticos e às leis” nas eleições legislativas, quando o Partido da Justiça e Desenvolvimento, do atual presidente Recep Tayyip Erdogan, perdera a maioria dos assentos. 

Há quatro anos, as tropas americanas haviam acabado de se retirar do Iraque. Osama bin Laden estava fora do jogo, capturado e morto em uma operação secreta americana em Abbottabad, no Paquistão, o que levaria ao fim da guerra no Afeganistão. Acreditava-se que a Al-Qaeda estivesse liquidada. Ninguém, fora dos domínios da Síria e Iraque, havia ouvido falar em um Estado Islâmico.

Na Antiguidade, os Jogos Olímpicos previam a suspensão das guerras no período de competições, para garantir a chegada dos atletas à cidade grega de Olímpia. A trégua olímpica tornou-se uma tradição e, desde 1992, quando o Comitê Olímpico Internacional pediu ajuda à ONU para garantir a participação de atletas da Iugoslávia nos Jogos de Barcelona, o apelo pelo fim dos conflitos faz parte da agenda da Assembleia-Geral. 

A Olimpíada de Londres foi a primeira com adesão de 100% dos países-membros da ONU para o cessar-fogo, que deveria perdurar até sete dias depois do fim das competições. Que seja assim no Rio – e perdure por mais tempo. Se foi possível que o mundo mudasse tanto nos últimos quatro anos, é possível mudar o mundo nos próximos quatro. Quem sabe, para melhor.

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