REUTERS/Jonathan Ernst
REUTERS/Jonathan Ernst

O mundo está mais seguro depois da cúpula de Cingapura?

Analistas do 'New York Times' e do 'Washington Post' avaliam reunião

O Estado de S.Paulo

14 Junho 2018 | 05h00

Bret Stephens / NEW YORK TIMES

Não:

Uma visão otimista do histórico encontro de Donald Trump com Kim Jong-un é que se trata da Genebra Revisitada deles – uma reprise da cúpula de 1985 entre Ronald Reagan e o líder soviético Mikhail Gorbachev que alterou o teor das relações entre as superpotências e levou ao fim da Guerra Fria.

Poderia o mesmo cenário desenrolar-se com a Coreia do Norte? Provavelmente não, por razões que teriam sido óbvias para a maioria dos conservadores antes do atual transtorno Trump. Em primeiro lugar, Trump não é Reagan, que agia em conjunto com os aliados. Trump descaradamente age contra eles.

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O método de negociação de Reagan: “Confie, mas confira”. Método autodeclarado de Trump: “Meu toque, minha percepção”. Reagan rejeitou ceder às exigências soviéticas de que deveria abandonar a Iniciativa de Defesa Estratégica. Trump rendeu-se imediatamente à insistência de Pyongyang de que os EUA deveriam suspender os exercícios militares com a Coreia do Sul sem receber nada em troca. O objetivo de Reagan era derrubar o governo do Partido Comunista em Moscou. O de Trump é preservar o de Pyongyang.

Em segundo lugar, Kim não é Gorbachev, cuja família sofreu os horrores do stalinismo. Kim nasceu em uma família que fazia o próprio povo morrer de fome. E Kim sabe o que aconteceu com Gorbachev, cuja queda espetacular serviu de lição aos ditadores de toda parte sobre a loucura de tentar reformar um sistema totalitário.

Kim pode buscar uma versão da perestroika para evitar o colapso econômico, mas não haverá glasnost. A sobrevivência de seu regime depende domesticamente do terrorismo de Estado e internacionalmente de seu arsenal nuclear. Ele não abandonará nenhum dos dois.

Trump quer uma “conquista” de política externa em nome das eleições de meio de mandato, e talvez um Prêmio Nobel da Paz em algum momento antes da eleição de 2020. Kim planeja governar a Coreia do Norte até quando um dos filhos de Chelsea Clinton for presidente. O incentivo de Trump será fazer concessões adiante. Kim pode voltar atrás em suas promessas mais tarde.

Trump é um otário. Kim não é. Digam o que quiser sobre o déspota norte-coreano, mas consolidar o poder em seu regime de ninho de víboras, montando um arsenal nuclear confiável, melhorando sua economia sem atenuar o controle político, jogando uma arriscada diplomacia nuclear com Trump e depois, em poucas semanas, obter o prestígio de uma cúpula de superpotências são conquistas políticas de primeira ordem. Maquiavel sorri do túmulo.

Quanto a Trump, o suposto sucesso da cúpula após o fracasso em Quebec remete ao amor inato pelo drama. Ele está onde adora estar: no centro das atenções de um mundo aturdido.

Eu ficaria feliz em estar errado. Ficaria emocionado em saber que Kim é um reformador de visão ampla disfarçada, por necessidade e desespero, como um vigarista. Também seria bom pensar que Trump está jogando uma partida de xadrez geopolítico num nível que os especialistas mal conseguem conceber.

Os comentaristas políticos devem sempre manter a capacidade de se surpreender e admitir erros. Mas, por enquanto, é difícil ver o que a cúpula de Cingapura alcançou além de trair os aliados dos Estados Unidos, a nossa crença nos direitos humanos, a nossa história de sobriedade geopolítica e a nossa dependência do senso comum. Para quê? Uma foto com um glutão sinistro e seu colega norte-coreano? / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Michael O’Hanlon / THE WASHINGTON POST

Sim:

Em muitos setores de Washington vem se formando um consenso de que o presidente Trump cedeu demais e recebeu muito pouco de Kim Jong-un.

Oferecer ao brutal ditador uma oportunidade de foto ao lado do líder do mundo livre, prometer a suspensão dos exercícios militares conjuntos de EUA e Coreia do Sul, garantir a segurança da Coreia do Norte, virtualmente ignorar o histórico terrível do país no campo dos direitos humanos – e, ao mesmo tempo, obter de Kim pouco mais do que a promessa vaga de desnuclearizar seu país – está muito distante do que Trump considera ser a arte do negócio. Os alertas para não se comemorar prematuramente ou falar em Nobel da Paz são justificados.

Mas, ao contrário do modo humilhante como tratou o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau, dias atrás, o caso de Cingapura talvez tenha a ver com a maneira bizarra de pensar de Trump. Seja como for, existe razão para se ter esperança de um controle de armas bem sucedido e um processo de distensão mais amplo. 

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Analisemos em primeiro lugar algumas das concessões feitas por ele. Sim, houve muita pompa e circunstância, e talvez uma adulação exagerada do ditador norte-coreano. Mas, em termos de diplomacia, algum esforço para criar um ambiente de camaradagem é sensato – especialmente depois da troca de insultos entre Trump e Kim.

Além disso, todos os presidentes americanos nos últimos 25 anos prestaram mais atenção ao programa nuclear norte-coreano do que aos abusos de direitos humanos cometidos no país. Trump seguiu a mesma estratégia dos seus três antecessores, reconhecendo a necessidade de enfatizar a ameaça que a Coreia do Norte representa.

Trump cometeu erros. Por exemplo, não deveria ter chamado de “provocativos” os exercícios militares com a Coreia do Sul. Mas eles são, de fato, grandes e caros e podem ser substituídos por outras atividades. Nos EUA, o Exército raramente realiza atividades de treinamento tão enormes quanto essa. As manobras com a Coreia do Sul produzem benefícios militares, mas o objetivo maior é mostrar força, o que pode ser alcançado dividindo os exercícios em partes menores. 

É verdade que as sanções à Coreia do Norte, impostas após testes de mísseis balísticos e um teste nuclear, em 2017, vêm enfraquecendo aos poucos. É a lamentável – mas inevitável – consequência de um processo diplomático promissor. Trump tem de ficar atento a essa dinâmica e precisa alertar países como a China a não burlar a proibição. Mas nenhuma das sanções foi suspensa, por isso a preocupação é exagerada.

Uma visão otimista da cúpula e do que ela significa só será sustentável se o comportamento de Pyongyang melhorar. A moratória de testes nucleares e de mísseis é apenas o começo. A Coreia do Norte está, ainda hoje, enriquecendo urânio, reprocessando plutônio e fabricando bombas.

A responsabilidade agora é do secretário de Estado, Mike Pompeo, encarregado de iniciar as negociações de fato. A desnuclearização no curto prazo, seguindo o modelo de Líbia, África do Sul ou Ucrânia, não é realista. Mas Pompeo não precisa fazer grandes avanços este ano. Com o tempo, algumas sanções poderiam ser suspensas e um tratado de paz ser concluído. Outras sanções, especialmente as justificada na lei americana, devem ser mantidas até o efetivo desarmamento da Coreia do Norte, o que pode levar anos.

Somente quando Kim aceitar este tipo de plano e colocá-lo em prática saberemos como avaliar o que ocorreu em Cingapura. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO



 

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