AFP PHOTO | Brendan Smialowski
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O mundo já viu esse filme antes. E ele não termina bem

A 'idade do ouro' mundial da globalização, na virada do século 19 para o século 20, culminou com a 1.ª Guerra

Eduardo Porter, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2016 | 09h41

Por que Donald Trump? É a grande questão que o establishment republicano embasbacado, aliados dos EUA preocupados e, exauridos, oponentes democratas se fazem. A questão mais apropriada, no entanto, é: por que demorou tanto para alguém como Trump aparecer e ameaçar subverter a ordem política da nação?

Se olharmos à nossa volta, veremos versões de Trump e da política que ele representa aparecer em todas as democracias de mercado avançadas do Ocidente industrializado comumente próspero. No ano passado, na Dinamarca, abrigo da social democracia que Bernie Sanders adora, um partido nativista que abomina a imigração, o multiculturalismo e a perda da soberania para a União Europeia, conseguiu mais de 20% dos votos nas eleições parlamentares, o triplo da votação obtida em 1998.

Do Partido Finns da Finlândia, ex-Finns Autêntico, ao Partido Independente do Reino Unido, as agremiações populistas de tendência nacionalista xenófoba se encontram em todo o cenário político da Europa. Embora pareça notável no cenário político americano, Trump talvez seja mais bem compreendido como o rosto de uma dinâmica global mais ampla: a resistência às políticas que encorajam a competição global e abrem as fronteiras a pessoas que viveram tempo demais do lado dos derrotados.

Não é nenhuma novidade. A “idade do ouro” mundial da globalização, na virada do século 19 para o século 20, culminou com a 1.ª Guerra. O descontentamento alimentado pela devastação econômica mundial dos anos 30 acabou em outra guerra.

A ira está incorporada. A expansão do comércio e da imigração aumentou a pressão sobre os empregos e os salários da classe trabalhadora, mas também contribuiu para produzir enormes riquezas e o fortalecimento do poder nas mãos de uma pequena elite. Na falta de ações para amenizar os danos e distribuir mais amplamente a riqueza da globalização, não surpreende que a ira justa contra o establishment tenha aberto a porta a políticos nada ortodoxos.

Trump pode parecer um personagem extraordinário aos americanos porque os EUA não produziram os líderes populistas autocráticos que a Europa ofereceu aos século 20, homens que construíram bases de poder culpando os outros por seus males: imigrantes, judeus, estrangeiros em geral.

Talvez uma economia mais vigorosa nos EUA permita a sobrevivência do equilíbrio plutocrático. Mas, depois de 20 anos durante os quais os salários encolheram para quase todos os cidadãos, com exceção dos mais afortunados, os eleitores americanos parecem dispostos a dar uma chance ao populismo nativista. Trump talvez não se eleja presidente dos EUA. A extrema direita europeia talvez continue sendo em geral uma minoria. Essas forças, no entanto, são em grande parte o tema dominante – pressionando os políticos tradicionais a mudar posições em suas linhas fundamentais.

É possível que, dentro em breve, os EUA sejam governados por um presidente que chegou ao cargo em parte apelando para o ressentimento popular contra a China, país onde o nacionalismo escancarado é uma plataforma fundamental da reivindicação de autoridade do governo. Não deveríamos procurar deter a globalização, mesmo que pudéssemos. Mas se não conseguirmos administrar a economia num mundo em mudança, parece evidente que tudo acabará mal de novo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

EDUARDO PORTER É COLUNISTA

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