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O mundo no divã

Um protesto global, que deve mobilizar simultaneamente manifestantes em várias partes do mundo, está sendo articulado para o dia 15. Na pauta, a busca de caminhos contra basicamente tudo o que está aí: o sistema político, partidos, corrupção, autoritarismo, a ascensão da direita radical, a esquerda corrompida, movimentos sociais desgastados, o sindicalismo tosco, instituições que já não representam mais ninguém, o sistema internacional, a burocracia, as guerras, a desigualdade social, discriminação, aquecimento global, políticas públicas equivocadas - ou a falta delas.

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2016 | 04h32

O epicentro da organização desse grande gesto de indignação coletiva e global é a Praça da República, em Paris, onde milhares de pessoas se reúnem todas as noites, há mais de um mês, em torno do movimento Nuit Debout. Seria algo como "Noite em pé", na tradução literal. O nome teria sido inspirado na frase do escritor francês Étienne de La Boétie, do século 16: "Eles só estão por cima porque estamos de joelhos"; ou, defendem alguns, no hino da esquerda revolucionária do século 19.

Embora o embrião tenha sido gerado por movimentos da esquerda contra um projeto de lei que tornaria mais flexíveis as leis trabalhistas na França, ganhou vida própria e se expandiu. Floresceu nas ruas, tornou-se apolítico e apartidário e não está sob o guarda-chuva de quaisquer instituições, legendas, ONGs ou sindicatos, nem é organizado por eles.

A forma como se dará o protesto internacional será decidida em reuniões abertas a cidadãos de todas as nacionalidades na Praça da República, entre hoje e amanhã. Embora não tenha agenda predefinida - está aí essência do que há de mais novo e revolucionário no movimento -, um dos principais slogans do #globaldebout é: "Juntos nós somos uma força imensa".

O projeto de lei trabalhista francês foi apenas o estopim de um movimento contra todo o tipo de indignação. Uma pichação na calçada da praça sinaliza como seus adeptos se vêem: "Geração Revolução".

Desde a crise econômica de 2008, o mundo viu surgir os movimentos das ruas: Primavera Árabe, Occupy Wall Street, em Nova York, Os Indignados, em Madri. Todos tiveram como alvo os sistemas político e econômico atuais. Mas o Nuit Debout é diferente: não tem reivindicações claras, não pretende ocupar espaços definitivamente, não tem como objetivo, ao menos até agora, formar um partido político como o espanhol Podemos - o terceiro mais votado nas eleições de 2015, o que resultou na eleição de 69 deputados e 14 senadores e na nomeação dos prefeitos de Madri e Barcelona.

O Nuit Debout não quer chegar ao poder (porque o poder está corrompido), mas mudar a forma de exercer a democracia. O movimento propõe a "convergência de lutas" numa só grande assembleia horizontal, onde os problemas serão compartilhados e debatidos, sem lideranças nem bandeiras. É uma espécie de terapia coletiva.

Todo fim de tarde, às 17 horas, a multidão começa a chegar, alguns armam tendas, outros se sentam em círculos ou circulam entre os diversos grupos. O espaço público se transforma em uma grande arena para a troca de informações, debates, discussões políticas em que todos têm o direito de falar - cada um por, no máximo, três minutos. As reuniões de comitês e da Assembleia Geral são transmitidas ao vivo na Internet pela rádio e a TV Debout.

A ideia central do movimento é devolver as rédeas da política para as mãos de quem é de direito: o cidadão. Os participantes têm chamado isso de "democracia direta". Não sob a direção de partidos, ONGs e outras instituições. É uma nova forma de ação política, sem intermediários. O "ativismo autoral" - ouvi a expressão pela primeira vez de Marina Silva, na semana passada. "O velho ativismo era dirigido pelo partido, pelo sindicato, pelas ONGs, pelas comunidades de base. Essa foi a luta do nosso tempo. Hoje é ativismo é outro, de cada cidadão, autoral. É uma nova força que emerge no mundo."

Alguns dos encontros foram marcados pela violência, tanto de manifestantes quanto policiais, e o movimento já foi criticado por ser vago e sem objetivos precisos. Mas é fato que abriu espaço para discussão democrática e o exercício da liberdade de expressão. Pode ser visto como uma iniciativa para maturação do debate e produção de ideias. É, no mínimo, um sinal de que as pessoas estão buscando novas formas de organização. Talvez chegar em algum lugar não seja realmente o objetivo. É o processo de discussão que tem sido revolucionário.

 

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