'O muro é um sentimento'

BERLIM - A apresentadora Anja Goerz trabalha na Radioeins, uma emissora que transmite para Berlim e a cidade vizinha de Potsdam. Como a rádio surgiu a partir da junção de uma estação da antiga Alemanha Ocidental e outra da Alemanha Oriental, Anja tem colegas originários tanto de um lado quanto do outro da Cortina de Ferro.

Entrevista com

Anja Goerz, apresentadora da Radioeins

Melina Costa, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

08 Novembro 2014 | 16h30

Inevitavelmente, o tema da integração das duas ‘alemanhas’ aparece nas reuniões de pauta. Depois de muitas discussões, ela resolveu lançar o livro “Die Osten ist ein Gefühl: über die Mauer im Kopf“, que quer dizer, literalmente, “O leste é um sentimento: sobre o muro na cabeça”. Leia abaixo a entrevista concedida ao Estado.

O Muro de Berlim foi derrubado há 25 anos, mas ainda ouve-se falar do “mauer im kopf”, literalmente o “muro na cabeça”. O que é isso?

O "muro na cabeça" não é mensurável nem em altura, nem em largura. Você não pode tocá-lo e também não é possível saber de que material é feito. Para a maioria dos alemães orientais, não é um sentimento explicável, é uma memória de infância e de juventude que é diferente daquela das pessoas no lado ocidental. Para o alemães ocidentais, o "muro na cabeça", de acordo com a minha pesquisa, é significativamente maior que entre os alemães orientais. Muitos ocidentais ainda falam sobre o "Ossi (como os alemães orientais são conhecidos) preguiçoso" que não consegue se acostumar ao ocidente.

Alguns clichês parecem persistir na sociedade alemã. Como esse, do alemão oriental preguiçoso. O que você descobriu a respeito?

Eu sei que existem esses preconceitos, mas tenho certeza de que não têm nada a ver com a origem no leste ou no oeste. Não é possível fazer generalizações. É como dizer que todo alemão da Baviera come chucrute diariamente e todas as alemãs da região andam vestidas em Dirndl (vestidos tradicionais usados na Oktoberfest). O que os alemães orientais dizem de si mesmos é que eles não parecem ser tão confiantes como os alemães ocidentais.

De onde, afinal, veio o clichê “alemão oriental preguiçoso”?

Muitos alemães ocidentais gostam de dizer que os alemães orientais são preguiçosos porque não teriam aprendido questões relacionadas ao desempenho no trabalho, devido ao sistema econômico da Alemanha Oriental. Lá era quase impossível ficar desempregado, não importa quão bom ou quão ruim você fosse. Já na Alemanha Ocidental, foi sempre necessário se esforçar profissionalmente para chegar ao topo. Isso daria uma vantagem aos alemães ocidentais no mundo de hoje. Mas, ao assumir isso, você também assume que os alemães orientais ainda têm a mentalidade de 20 anos atrás.

A sra. é da Alemanha Ocidental. Como foi conviver com os alemães orientais? A sra. sentia que eles eram diferentes?

É como com todas as pessoas. Olhando para os alemães orientais apenas superficialmente, qualquer preconceito parece se encaixar. Mas se você conversa com eles, percebe rapidamente: são todos indivíduos. Não há o típico alemão oriental, assim como não há o típico alemão ocidental.

É comum ouvir que os alemães orientais sentiram-se negligenciados durante o processo de reunificação. O que a sra. descobriu em sua pesquisa?

Os alemães orientais sentem, muitas vezes, que não são devidamente apreciados no oeste. Tenho um colega que disse 'você está falando, na melhor das hipóteses, sobre os alemães orientais, mas não com eles'. Minha impressão, depois de tantas discussões, é que os alemães orientais não se sentem incluídos no ocidente. Eles sentiram a reunificação, em parte, como uma aquisição. Por exemplo: gestores em empresas, hospitais e universidades foram substituídos por gente da Alemanha Ocidental, que muitas vezes também trouxeram seus colegas. Ninguém perguntou aos antigos funcionários 'como você faz isso?' Tudo que veio do leste foi igualado ao regime.

Os novos colegas de trabalho, em muitos casos, não consideraram os sentimentos nem a experiência profissional ou as ideias de alemães orientais. Em minhas entrevistas, entendi como é grande o desejo, para muitos, de simplesmente contar o que aconteceu em suas vidas. Longe da política, o que eles querem falar é sobre a infância ou a juventude sem iniciar cada frase com 'eu sei que o sistema era uma grande porcaria, mas'. No leste, as pessoas também tiveram um primeiro amor, uma experiência de férias.

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