O namoro entre Irã e Taleban

Quando os EUA aprovaram o envio de uma delegação do Taleban ao Catar, em 2011, esperavam que o pequeno emirado do Golfo Pérsico fosse um lugar propício para conversações para pôr fim a dez anos de guerra.

ERNESTO, LODOÑO, THE WASHINGTON POST, É JORNALISTA, ERNESTO, LODOÑO, THE WASHINGTON POST, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2013 | 02h03

O Taleban tinha ambições bem maiores: aproveitar o escritório como base diplomática para se posicionar como força política em ascensão no Afeganistão, enquanto os EUA se preparam para sair do país. O sinal mais claro dos seus objetivos é a recente viagem a Teerã de representantes do Taleban com sede em Doha.

Há novas evidências de que o grupo militante e seus interlocutores afegãos e americanos têm posições diferentes em relação ao escritório aberto na semana passada. Sua inauguração transformou-se num fracasso para os EUA, que tiveram trabalho para aplacar a ira do governo afegão quando o Taleban desfraldou sua bandeira e instalou uma placa com os dizeres: Emirado Islâmico do Afeganistão, como o Afeganistão era chamado no governo Taleban, nos anos 90.

O atrito diplomático entre Washington e Cabul provocou o congelamento das negociações de um acordo sobre segurança, que permitiria que as tropas americanas permanecessem no país depois de 2014.

Os enviados do Taleban a Doha vinham se mantendo discretos, hospedados em hotéis de luxo sob a rigorosa vigilância do governo do Catar. A discrição acabou no início do mês, quando anunciaram a viagem de seus emissários a Teerã a convite do governo iraniano. Não é o primeiro contato entre o governo xiita de Teerã e o Taleban sunita, que têm um longo passado de desconfianças e animosidade, em parte em razão das conflitantes ideologias religiosas.

A primeira reunião aberta entre as duas partes poderia passar por cima das divergências sectárias por objetivos comuns: minar a posição dos EUA, rival comum, e conseguir que as forças militares americanas deixem definitivamente a região quando o mandato da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) expirar, no fim de 2014. "A viagem pode ser considerada o início de relações diplomáticas regionais de alto nível sem que tenhamos sido consultados", disse Vali Nasr, ex-funcionário do Departamento de Estado.

A ambição do Irã é exercer maior influência no Afeganistão e isso preocupa os EUA, que consideram Teerã um sério fator de desagregação desde a guerra do Iraque. Funcionários americanos acusaram o Irã de alimentar a violência no Iraque enviando milícias e de prestar ao Taleban uma limitada assistência militar. O Taleban, cujos principais líderes estariam no Paquistão, há muito aspira voltar ao poder e tem procurado manter uma espécie de Estado soberano nas províncias que domina.

Com a retirada das forças dos EUA do país e o mandato do presidente afegão Hamid Karzai terminando, provavelmente no próximo ano, o Taleban não se sente motivado a procurar uma negociação séria que possa levar ao cessar-fogo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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