O nascimento da Irmandade Muçulmana

Com o colapso do Império Otomano, maior representante do islamismo no início do 20, muçulmanos egípcios procuraram combater a ocidentalização

Jay Winter, do Los Angeles Times, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2011 | 00h00

Para compreender a Irmandade Muçulmana e avaliar seu papel nesse momento em que o Oriente Médio passa por mudanças, é necessário primeiro examinar as forças que ocasionaram o nascimento da organização - o que nos leva ao colapso do Império Otomano durante a 1.ª Guerra.

Antes da guerra, o Império Otomano era a mais forte e a mais visível face do Islã no mundo. No seu auge, nos séculos 16 e 17, ele controlava uma grande extensão de território que se estendia do sudeste da Europa até a Ásia e o Norte da África. Seu território diminuiu enormemente no século 20, mas foi a aliança que firmou com a Alemanha na guerra que provocou sua destruição final.

Em consequência do conflito, o que restou do Império Otomano foi dividido pelos vitoriosos, fato que deu às potências ocidentais muito mais influência no Oriente Médio e criou uma enorme tensão entre as populações islâmicas.

Na Turquia, Mustafa Kemal - que mais tarde recebeu o nome Ataturk, ou pai dos turcos - finalmente subiu ao poder. Herói de Gallipoli, que desafiou e derrotou os invasores britânicos e franceses no Estreito de Dardanelos em 1915, Kemal foi também o homem que frustrou os planos ocidentais de uma partilha da Turquia em holdings imperiais e uniu o Exército turco para vencer a invasão grega. O resultado foi uma nação em que a religião ficou separada do poder.

A Turquia de Ataturk comprometeu-se, sob sua liderança, a ingressar no mundo ocidental - em termos de língua, vestuário, engajada com o desenvolvimento do país e o poder militar. E nesse projeto, Ataturk teve êxito. A Turquia hoje é a sua maior realização.

Mas a insistência de Ataturk no sentido de um governo totalmente secular também desencadeou um movimento contrário de muçulmanos que queriam salvar o Islã do contato corruptor com o Ocidente. No Egito, esse movimento deu nascimento à Irmandade Muçulmana.

O Egito, uma monarquia constitucional a partir de 1922 e membro da Liga das Nações desde 1937, foi incapaz de estabelecer um sistema político estável, em parte por causa da presença constante das forças britânicas controlando o Canal de Suez - que influenciavam vigorosamente o Cairo.

Entre os egípcios preocupados com a ocidentalização do país estava Hassan Banna, filho de um relojoeiro, que, em 1919, aos 13 anos, participou de motins de caráter nacionalista exigindo a autodeterminação do país.

Quando esse movimento fracassou, Hassan ficou cada vez mais preocupado com as consequências políticas e morais nocivas de uma ocidentalização do país. O declínio da civilização islâmica, ele achava, só poderia ser revertido com o retorno à fé.

Para isso, em 1928, em Ismailia, Hassan ajudou a organizar um grupo de professores e militantes conhecidos como Irmãos Muçulmanos. Embora em suas origens fosse um movimento de reforma islâmico mais amplo, o objetivo da Irmandade Muçulmana é fazer do Alcorão o principal ponto de referência para guiar os muçulmanos na sua vida cotidiana, dentro de suas famílias, seus povoados, cidades e nações.

Hassan foi um orador e um militante das bases, discursando onde podia, em mesquitas ou cafés.

O trabalho do grupo era beneficente e educacional, mas seus membros também defendiam um retorno às raízes islâmicas, expurgadas do contato com outras tradições. O grupo aproveitou-se do ressentimento generalizado com a presença das tropas britânicas e a riqueza ostensiva da comunidade expatriada, com a administração do Canal de Suez.

Essa mensagem anticolonialista muçulmana encontrou um público receptivo e em breve criou uma organização de massa perigosa para a dominação britânica e a monarquia egípcia.

No início dos anos 40, alguns membros da Irmandade Muçulmana criaram grupos armados, envolvidos com diversos incidentes violentos. O número de membros aumentou para 500 mil.

Em 1948, Hassan Banna convocou voluntários para combater ao lado dos palestinos. O governo egípcio agiu para dissolver o movimento, prendendo centenas de partidários da irmandade. Uma medida que não teve êxito e provocou o assassinato do primeiro-ministro egípcio por um irmão muçulmano em dezembro de 1948. Três meses depois, Hassan foi atacado também e morreu por causa dos ferimentos que, de acordo com algumas fontes, não foram deliberadamente tratados no hospital por ordem do governo. Mas seu legado não foi fácil de erradicar.

A Irmandade Muçulmana surgiu em resposta ao controle britânico no Oriente Médio antes de 1948. A mesma crise também moldou os territórios palestinos. Os compromissos paralelos e contraditórios dos britânicos com movimentos nacionalistas dos árabes e movimentos nacionalistas dos judeus criaram uma mistura explosiva que ainda precisa ser desativada.

Na Galileia, oito jovens sionistas - incluindo o único armado, Joseph Trumpeldor - morreram num confronto com muçulmanos xiitas em março de 1920. Os oito deram seu nome à cidade de Kiryat Shemona, que se tornou um memorial de guerra.

Em abril de 1920, cinco judeus e quatro árabes morreram e centenas ficaram feridos em distúrbios na Cidade Velha de Jerusalém. Em maio de 1921, 48 árabes e 45 judeus - incluindo o grande escritor Yosef Haim Brenner -, foram mortos em confrontos em Jaffa. O banho de sangue que se observa no Oriente Médio moderno já é um modelo antigo, como também é o sofrimento.

Quando os gigantes caem, disse Tácito, proteja-se. Mesmo que tenha sido uma gigante enferma, a Turquia Otomana foi gigante. Seu colapso levou a uma expansão do poder imperialista do lado dos vitoriosos na guerra e a uma guerra que persiste ainda contra a manipulação ocidental da região em favor de seus interesses estratégicos e econômicos.

Hoje, quase um século depois, vemos as mesmas forças posicionadas na mesma luta crônica e sangrenta, sem um fim a vista. Se você acha que as forças explosivas da 1.ª Guerra são a essência da história antiga, pense novamente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PROFESSOR DE HISTÓRIA NA YALE UNIVERSITY E COAUTOR DO LIVRO "THE GREAT WAR AND THE SHAPING OF THE 20TH CENTURY"

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