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Adriana Carranca
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O naufrágio da humanidade

Aos que a acusaram de violar a dignidade humana ao exibir a foto do menino sírio morto em uma praia da Turquia, Liz Sly, chefe da sucursal do Washington Post no Oriente Médio, sugeriu: "Leia sobre a Síria e tente encontrar ali alguma dignidade". Ela foi uma das primeiras a compartilhar a imagem.

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2015 | 02h00

Mais de 2.300 mortes foram noticiadas este ano - dois afogados por hora no Mediterrâneo. Na semana passada, 4 crianças estavam entre os 71 asfixiados num caminhão na Áustria. A diferença é que, desta vez, o mundo foi obrigado a ver.

De repente, os "imigrantes ilegais" não eram mais a horda de anônimos desocupados tentando tirar proveito da seguridade social da Europa ou roubar-lhes os empregos, como são vistos por muitos, mas um menino.

Seu nome era Aylan Kurdi e ele tinha 3 anos. A tragédia agora tem um rosto, pálido e sem vida. Não era mais possível ignorá-la, porque aquela imagem tirou-nos o sono. A história do menino sintetiza a tragédia da guerra.

Aylan não é o símbolo de uma crise na Europa, mas do drama sírio. Seu pequeno corpo na areia é o retrato mais visível do fracasso da diplomacia e da incompetência da política internacional em encontrar solução para um conflito que já deixou 250 mil mortos, entre os quais 12 mil crianças como ele. A guerra obrigou a deixar suas casas 11 milhões de sírios - metade da população de 22 milhões. É a maior tragédia humana em mais de quatro décadas e ela acontece diante dos nossos olhos. Mas só a enxergamos quando desembarcou nos portos europeus, enquanto a crise se aprofundava do outro lado do Mediterrâneo longe das vistas desse mundo míope.

As ondas migratórias que chegam ao continente são marolas de um tsunami que atingiu o Oriente Médio. Pelo menos 6,5 milhões de sírios continuam no país, deslocados de um lugar para outro ao som dos bombardeios - frequentemente, mais de uma vez.

Outros 4 milhões atravessaram as fronteiras para o Líbano, Jordânia, Turquia e Iraque, expurgados pela violência, a opressão e a desesperança. Apenas uma pequena parcela disso chega às portas da Europa - e esses são os que ainda têm algo como R$ 23 mil para pagar a atravessadores. Os mais pobres e miseráveis ficam para trás.

Fluxo. A Turquia calcula que receberá 1,9 milhão de refugiados - o dobro dos 800 mil que a Alemanha prometeu abrigar este ano. O bloco europeu recebeu 219 mil no ano passado; outros 300 mil chegaram entre janeiro e agosto, enquanto no Líbano e Jordânia já são mais de dois milhões.

Outros 250 mil acumulam-se na região curda do Iraque, também em guerra, somando-se a outros dois milhões de deslocados iraquianos. O influxo de desesperados teve impacto sem igual sobre a economia, os serviços sociais e a infraestrutura destes países. No Líbano, representou aumento de 33% da população.

Em 2013, o Alto-Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) já alertava o Conselho de Segurança sobre o aprofundamento da crise nos países vizinhos da Síria. A comunidade internacional ignorou o apelo, como se não fosse problema seu. Ocorre que é. Ilegais são os países que se recusam a aceitá-los, violando o direito a asilo, protegido por leis e tratados internacionais.

Sem solução para a guerra na Síria, é improvável que voltarão para casa no curto prazo. O tempo no exílio e as sucessivas migrações em busca da sobrevivência consomem seus recursos. António Guterres, chefe do Acnur, comparou a situação dos refugiados com os que caem em uma areia movediça. "Cada vez que eles se movem, afundam ainda mais."

 

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