O naufrágio de Musharraf no tenso Paquistão

O presidente Pervez Musharraf esteve prestes a declarar estado de emergência no Paquistão na semana retrasada, antes de ser dissuadido pela secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, e por conselheiros civis. Nesse país extremamente tenso, está claro para todos que o poder escapa rapidamente de Musharraf, que tenta a todo custo encontrar uma saída para um impasse político insolúvel.A declaração de estado de emergência teria suspendido os direitos fundamentais, imposto restrições à Suprema Corte e adiado as eleições deste ano. Seria improvável que o público, já indignado e mobilizado, aceitasse novas restrições, mesmo as impostas pelo Exército, que Musharraf comanda. Poderia haver protestos generalizados e mais violência.Depois de oito anos como presidente, Musharraf luta pela sobrevivência, recusando-se a ceder o poder a civis, mas incapaz de exercer a autoridade necessária para manter a paz em casa e ainda ser um aliado útil para o Ocidente no combate aos extremistas islâmicos ao longo da fronteira com o Afeganistão.Nas últimas semanas, Musharraf considerou impor a lei marcial, tentou fechar um acordo de partilha do poder com a ex-primeira-ministra exilada Benazir Bhutto e obteve apoio do presidente americano, George W. Bush, para deter a crise que afeta o país desde o início do ano, mas nada funcionou. Bhutto se afasta de qualquer acordo e seus assessores descrevem Musharraf como um náufrago.O governo Bush recusa-se desde 2001 a entender que a estabilidade política do Paquistão requer um grau mínimo de democracia, um consenso político entre as várias forças liberais do país e uma relação efetiva entre suas quatro províncias antes que qualquer batalha contra o extremismo possa ter sucesso.Como Musharraf detinha o poder militar, Washington presumiu que não havia necessidade de pressionar em favor da democracia ou preocupar-se com os políticos civis. Como resultado, o governo Bush perdeu os corações e mentes do povo paquistanês (que se afastou ainda mais ao ver o Paquistão virar bode expiatório em debates entre candidatos presidenciais americanos).O governo Bush fez vista grossa quando o Exército paquistanês fraudou as eleições presidenciais e parlamentares de 2002 e ignorou o exílio ou marginalização de políticos e partidos graças às ações de Musharraf.INSATISFAÇÃONos últimos meses, dezenas de milhares de membros da elite liberal e secular do país - advogados, mulheres ativistas e militantes políticos - protestaram contra a iniciativa de Musharraf de suspender injustamente o chefe da Suprema Corte, Iftikhar Mohammed Chaudhry, em março.No entanto, mesmo enquanto nossa sociedade civil saía às ruas, o Departamento de Estado americano e a Casa Branca mantinham um silêncio estudado - traindo não só o povo paquistanês e a democracia, mas também o interesse permanente dos EUA num governo estável em Islamabad, que seria um parceiro significativo na guerra contra o extremismo.Chaudhry foi reinstalado recentemente por uma decisão judicial inesperada, num grande revés para Musharraf. A Suprema Corte é hoje um curinga, capaz de emitir decisões que impediriam Musharraf de continuar como presidente e comandante do Exército.Agora que o Paquistão completou, no dia 14, 60 anos de fundação, os americanos deveriam lembrar que a criação do país foi resultado de uma longa luta democrática contra o domínio colonial britânico.Em 1945, milhares de advogados e outros membros muçulmanos da sociedade civil protestaram nas ruas da Índia britânica, exigindo um novo país. O Paquistão não foi criado por um general insignificante nem por mulás. E jamais deveria ser comparado às ditaduras muçulmanas do Oriente Médio; seu povo tem uma longa história de luta pela democracia, apesar de um setor militar apoiado pelos EUA que tomou o poder com freqüência ao longo dos anos.INSURGÊNCIAHoje, o Paquistão enfrenta problemas imensos. Há uma insurgência em plena atividade com o apoio da rede terrorista Al-Qaeda na região da Fronteira Noroeste, junto do Afeganistão, na qual mais de 200 soldados foram mortos desde meados de julho, enquanto terroristas suicidas chegaram duas vezes a Islamabad.Enfrentando a revolta civil e diferenças de opinião, o Exército paquistanês não pode reprimir os extremistas efetivamente. E os paquistaneses ainda não foram convencidos de que esta guerra contra o extremismo é deles, e não ditada por Washington.Antes de voltar a insistir que o Exército paquistanês combata a Al-Qaeda, o governo americano precisa ajudar a promover uma transição política pacífica e justa em Islamabad. Musharraf precisa tirar a farda, convocar eleições e declarar que não é candidato à presidência. E Washington deve então ajudar a garantir que os novos líderes eleitos trabalhem com o Exército para mobilizar o apoio do público à luta contra o extremismo.Sozinhos, nem o Exército do Paquistão nem Bhutto podem combater os extremistas e salvar o país da ruína. Bhutto já entendeu isso, mas o Exército ainda não. O presidente Bush tem de aceitar que o momento político de seu aliado já passou - e é hora de parar de igualar Musharraf e o Paquistão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.