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O historiador Stephen Kotkin, de Princeton, autor de três livros essenciais sobre Stalin: "Putin não entendeu quão forte era a Rússia, quão fraca era a Ucrânia e, qual seria a resposta ocidental" Eduardo Munoz/Reuters

'O nosso inimigo é a oligarquia, não a Rússia', diz biógrafo de Stalin

Em entrevista ao podcast Uncommon Knowledge,  Stephen Kotkin, autor de três livros sobre Stalin, explica por que é preciso conter Putin e seus aliados próximos

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2022 | 05h00

Existem duas grandes visões opostas, mas não necessariamente excludentes, sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. A primeira se desenvolveu no Ocidente tendo como base o pensamento de Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, ecoando os russos Aleksandr Solzhenitsyn e Mikhail Gorbachev.

Por essa visão, a Ucrânia seria inseparável da Rússia. São povos que comungam uma mesma raiz étnica e cultural. Kiev, hoje capital da Ucrânia, foi o centro da primeira experiência de uma Rússia unificada, sonho desfeito pela conquista Mongol no século XI. É uma visão que valoriza o empuxo histórico profundo e acredita no poder intangível de uma Alma Russa.

A segunda grande visão tem sua matriz no pensamento pragmático de George Kennan, diplomata lendário nos Estados Unidos por ter formulado os princípios fundamentais da convivência não catastrófica com a União Soviética, cuja expressão cínica foi a Guerra Fria. Essa visão se define por considerar que as oligarquias totalitárias (a comunista, antes, e a cleptocracia de Putin, agora) não representam o povo russo, sendo elas os verdadeiros inimigos. Por essa matriz de pensamento, as tiranias que se abatem periodicamente sobre o povo russo precisam ser "contidas" com toda a energia disponível. Contenção é o conceito-chave.

Essa linha de pensamento orbita hoje em torno de Stephen Kotkin, da Universidade de Princeton, autor de três livros essenciais sobre Josef Stalin. Kotkin diz que nos quase 25 anos de independência recente o povo ucraniano escolheu ser europeu e ocidental, o que parece demonstrado pela resistência ardorosa ao invasor russo e o maior êxodo da história recente da Europa — com a fuga de quase 2 milhões de ucranianos, a maioria mulheres e crianças.

Kotkin defende que é preciso conter o inimigo Putin e seus aliados próximos. Ele celebra o fato de que, depois da invasão, o Ocidente se uniu rapidamente em torno de seus valores históricos: capital humano, democracia, liberdade de expressão, economia aberta e instituições fortes.

O professor de Princeton sustenta, em explanação feita ao podcast Uncommon Knowledge , que a guerra na Ucrânia mudou o curso da história contemporânea, fazendo renascer o Ocidente como ideia – mandando também uma mensagem clara para a China sobre o compromisso ocidental com a independência de Taiwan.

A Ucrânia não é da Rússia

Discordo de Henry Kissinger. (o ex-secretário de Estado publicou em 2014, durante a crise da Crimeia, um artigo no Washington Post no qual argumentou que a Ucrânia, pela história próxima com a Rússia, teria de servir de ponte com o Ocidente, mas nunca seria um país totalmente dissociado do Kremlin).

A Ucrânia é um país separado, independente e soberano em relação à Rússia. Isso é verdade desde 1991, e deve ser verdade daqui para frente. A guerra é sempre um erro de cálculo parcial ou total. Você calcula mal o quão forte você é, quão fraco é o inimigo, e quão fácil vai ser. São cálculos errados de quão baixos serão os custos, quão grandes serão os benefícios.

O susto de Putin

Está muito claro que Putin não entendeu quão forte era a Rússia, quão fraca era a Ucrânia e, acima de tudo, qual seria a resposta ocidental. Antes da guerra, muitos subestimavam a sociedade ucraniana. Muitos subestimaram o presidente da Ucrânia, pensaram que os europeus não se levantariam e fariam sacrifícios.

Muitos pensaram que o presidente Biden não estava à altura, especialmente depois do fiasco no Afeganistão. Além disso, muita gente pensou que o Exército russo é sério, bem administrado e modernizado. Portanto, há muitas suposições nas quais uma guerra se baseia e quando essas suposições estão erradas, tudo pode parecer insano.

A inteligência do Ocidente funcionou

As agências de inteligência dos EUA estavam certas desta vez. E essa informação foi compartilhada em tempo real com os aliados europeus, mostrando a eles as capacidades e possíveis intenções da Rússia e prevendo que eles invadiriam. As agências de inteligência, com os britânicos, acertaram em cheio nisso.

Depois reuniram publicamente o apoio do Ocidente de uma maneira realmente grande. Parabéns às agências de inteligência que levaram uma surra ultimamente, nas últimas duas décadas no Iraque e em muitas outras questões. Eles acertaram nessa. Essa é uma grande questão, não apenas para a Rússia, mas também para a China.

O heroísmo dos ucranianos

Tudo aqui é sobre o povo ucraniano e o governo ucraniano em primeiro lugar. Eles estão na linha de frente, estão morrendo. Os russos estão bombardeando hospitais infantis. Isso é o que está acontecendo. E os ucranianos se recusam a capitular. Eles estão resistindo, estão desarmados. Mas eles têm a determinação de lutar por seu próprio país. E aquela fibra dos ucranianos, que surpreende os russos, surpreende os europeus, surpreendeu muita gente em Washington, que tinha uma opinião ruim da sociedade ucraniana.

As pessoas têm medo de trazer informações ruins para o autocrata. E o autocrata acha que sabe mais do que ninguém, e começam a acreditar em sua própria propaganda. Carecem dos mecanismos corretivos das eleições e de homens sábios dos bastidores que aparecem e dizem: “Sabe, Sr. Presidente, isso pode não ser uma boa ideia”.

Quem faz isso no caso russo ou no caso chinês agora? Ninguém. E isso é uma grande força para uma democracia. Não é preciso ter as pessoas mais inteligentes nos cargos para ter esses mecanismos corretivos.

A expansão da Otan foi só um pretexto

Eu não usaria a palavra “democrata” para muitos que se autodenominavam democratas. Yeltsin era um autoproclamado democrata e nomeou Putin para dar poder à Constituição que Yeltsin criou em 1993. A Constituição foi usada por Putin para criar um regime autocrático. Yeltsin chegou ao poder antes de Putin. Membros da KGB em massa, incluindo Putin, também. Portanto, há um mal-entendido sobre a democracia na Rússia nos anos 90.

Há processos internos na Rússia de Putin, que começaram na Rússia de Yeltsin, que antecedem a ambos em muito, muito tempo, e remontam à autocracia, à repressão, ao militarismo, à suspeita de estrangeiros. Estas não são reações a algo que o Ocidente faz ou deixa de fazer. São processos internos que tiveram uma dinâmica própria e a expansão da Otan se tornou um pretexto ou uma desculpa post facto.

Há muitos anos estamos nessa autoflagelação. Vamos imaginar que não houvesse expansão do perímetro de segurança da Otan, onde estariam esses países agora? Onde estariam a Checoslováquia, Polônia, Estônia, Letônia, Lituânia, onde estariam agora? Eles estariam potencialmente no mesmo lugar que a Ucrânia. Assim, a causalidade é oposta aqui.

A Otan ameaça Putin e sua gangue, não o povo russo

O maior erro de todos é quando nós, o Ocidente, confundimos a Rússia com o seu regime. Putin se sente inseguro, a Otan o ameaça pessoalmente em sua mente. A UE ameaça Putin, a democracia o ameaça, a ele e a seu regime. Mas isso ameaça a Rússia? Ameaça a segurança russa? Uma democracia cheia de falhas como a Ucrânia ameaça a segurança de uma nação gigante, uma civilização completa como a Rússia? Sejamos honestos, não. Isso nunca aconteceu. E, portanto, é uma ameaça fictícia e é uma fusão de um país e sua segurança com um indivíduo e seu regime de gângsteres, místicos e cleptocratas.

Para Entender

Como Putin preparou a economia russa para sanções desde a anexação da Crimeia

Desde que pagou um alto preço pela anexação da do território ucraniano em 2014, a Rússia tentou tornar sua economia à prova de sanções e isolamento.

Então, sinto muito, mas devo discordar de muitos eminentes analistas e dizer que a Otan não é responsável pelo regime de Putin ou pela guerra na Ucrânia. A capacidade dos países de escolher sua política externa e suas alianças voluntariamente está inscrita na carta da ONU. Está escrito na Lei de Helsinque de 1975, na Carta de Paris de 1990 para uma nova Europa, no Ato Fundador da Otan com a Rússia de 1997.

Se as assinaturas da Rússia em cada um desses documentos, e Moscou assinou a carta da ONU, o Ato Final de Helsinque, a Carta de Paris em 1990 e a fundação da Otan, que não coloca nenhum limite à expansão da aliança. A assinatura de Boris Yeltsin está nela. As obrigações internacionais e a liberdade e a defesa da liberdade estão de um lado, e Vladimir Putin e seu regime de gângsteres e sua invasão não provocada da Ucrânia estão do outro lado.

Faltou diplomacia

A expansão da Otan funcionou para o Ocidente, mas não quer dizer que por si só tenha sido uma política inteligente. O problema com a política americana em relação à Rússia, como sempre, é a síndrome de Pigmalião. Ir aos países, transformá-los, transformar sua personalidade. Sempre gostamos de pensar que, se outro país tiver a oportunidade, está morrendo de vontade de se tornar como os EUA. E isso não é verdade.

China e Rússia têm sua própria história, sua própria cultura, suas próprias instituições e seu próprio orgulho. E assim, quando o esforço Pigmalião na Rússia previsivelmente explodiu na cara dos EUA, em paralelo à expansão da Otan, o Pigmalião foi abandonado. Mas se continuou a expansão da Otan. E não havia diplomacia real levando em conta quaisquer interesses estratégicos que a Rússia tivesse. Os EUA ficaram abertos à surpresa de que Putin tinha o poder de fazer algo sobre o acordo injusto. E ele fez. Mas isso não deve ser confundido com a expansão da Otan.

O papel das elites russas

As elites russas precisam de uma participação na ordem internacional. E essa aposta significaria que, em vez de serem incentivados a perturbar e derrubar, eles seriam incentivados a ajudar. Mas não podemos permitir que essa ordem internacional estável seja usufruída às custas da liberdade de outros países. Não podemos entregar a liberdade de outros países.

O mundo multipolar é uma ilusão

A invasão de Putin da Ucrânia é uma enorme oportunidade. Venho argumentando há muito tempo que o Ocidente é incrivelmente poderoso, tem todas as instituições, todo o capital humano, toda a tecnologia, todo o poder. E mesmo assim não entende isso. Aqui estamos no Ocidente, falando sobre como estamos em declínio.

Estamos falando sobre como o sistema transatlântico não é necessário ou não funciona mais. Estamos falando sobre como a Otan é flácida, talvez esteja com morte cerebral e devesse ir embora. Estamos falando sobre como não podemos ensinar sobre a Civilização Ocidental em nossas universidades porque é demais. Mas isso é um absurdo. O Ocidente é incrivelmente poderoso.

Para Entender

Entenda a crise entre Rússia e Otan na Ucrânia

O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

O poder das instituições

Só precisamos lembrar que os Estados Unidos são uma superpotência. Têm o sistema financeiro. Criam a tecnologia, a biotecnologia, e qualquer outra esfera que você possa nomear. Tem as instituições, a separação de poderes, o estado de direito. Defendem a liberdade, a propriedade privada.

Vamos parar com esse absurdo, com essa autoflagelação, e com essa conversa sobre um mundo multipolar que não existe. Não precisamos nos envergonhar por nossa civilização. O Ocidente não é um termo geográfico. É um pacote institucional. A Rússia é europeia, mas não ocidental. O Japão é ocidental, mas não europeu.

O heroísmo de Zelenski

O presidente Zelenski, mesmo em grande perigo pessoal, permaneceu em Kiev para liderar o esforço de guerra que nos galvanizou para lembrar quem somos. É extremamente cedo na guerra e não queremos exagerar, mas esse tipo de heroísmo, em circunstâncias muito difíceis, é incrível.

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'Putin quer tomar o Mar Negro e inutilizar a Ucrânia'

Stephen Kotkin, historiador da Universidade Princeton, analisa aspectos da guerra

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2022 | 05h00

Neste trecho da explanação sobre a guerra feita no podcast Uncommon Knowledge, Stephen Kotkin, historiador da Universidade Princeton, autor de três livros essenciais sobre Stalin, analisa aspectos como a imposição americana no mundo, a relação de Taiwan com a China, as armas das quais Vladimir Putin dispõe contra o Ocidente e traça as peculiaridades da Eurásia.

A força do Ocidente

Aqui estão duas visões de ordem global operantes no contexto americano, e elas derivam da era Roosevelt, herdada pelo presidente Truman. Uma delas foi a ONU. Somos todos parte de uma comunidade global no sentido de que todos nós podemos nos tornar democracias mais cedo ou mais tarde, tendo crescimento econômico e adotando certas instituições de uma teoria da classe média e da modernização. E assim devemos construir uma ordem inclusiva onde todos participem e uma comunidade global.

E depois há outra ordem, empunhada pelo Ocidente, galvanizada pela Guerra Fria, que deve combater a falta de liberdade e os inimigos da liberdade a todo custo. E deve fazê-lo às vezes apoiando até mesmo regimes ditatoriais. E assim deve haver um Ocidente, que fundamentalmente valoriza a ordem baseada em instituições. Às vezes, os parceiros não pertencem a essa categoria de ordem democrática do estado de direito. Mas eles são importantes para se opor ao totalitarismo.

Nos anos 90, parecia que a Guerra Fria havia acabado e a comunidade internacional ganhou protagonismo. Parecia que a China e a Rússia seriam transformados e seguiriam o exemplo dos EUA por meio da globalização e da adesão à OMC e tudo mais. Bem, com a crise atual, essa ilusão se desfez diante de nós, por não ser essa a forma como o mundo funciona

É inútil aos EUA impor regras ao mundo

Os EUA ressuscitaram a noção do Ocidente. Mas aqui temos uma bifurcação na estrada. Durante a Guerra Fria, eram predominantemente uma potência do status quo. Um poder de status quo significava a construção do mundo, e era o mundo em que queríamos estabilidade.

E assim não se tentou derrubar ditaduras anticomunistas, não se tentou democratizar o mundo inteiro porque se era contra o comunismo. Uma vez que não se estava mais contra o comunismo, os EUA deixaram de ser um poder status quo e então todo mundo teve de se comportar de uma certa maneira para ser seu amigo. E isso não funcionaria no Oriente Médio, não funcionaria de fato em muitos lugares do mundo.

Portanto, agora temos que reexaminar não a expansão da Otan, mas a noção de comunidade global das Nações Unidas, da OMC mundial, onde comprovadamente as nações não cumprem as regras, trapaceiam, assinam acordos que não cumprem. Este é um grande momento, uma grande oportunidade para recalibrar e pegar esse Ocidente galvanizado e expandi-lo como uma esfera de influência voluntária, que pode enfrentar essas ameaças significativas ao nosso modo de vida e nossos valores.

Lições da Ucrânia para a China

95% do que está acontecendo é sobre a Ucrânia e a Rússia, e em longo prazo, 95% é sobre Taiwan e China. A guerra é uma tragédia, mas também é oportunidade, e em múltiplas direções.

Em uma guerra, você pode testar suas armas. Você começa a testar as coisas e ver como funcionam no mundo real. Você pode sancionar o Banco Central de uma economia muito grande e não desestabilizar seu próprio sistema financeiro internacional? Estamos apenas experimentando isso agora, e estamos aprendendo a resposta para isso. E tantas das técnicas empregadas agora contra a Rússia, potencialmente, poderiam ser empregadas contra a China. Nós sabemos disso e os chineses sabem disso.

Taiwan não é da China

Xi Jinping é agora um ditador, um autocrata como Putin, e pode não querer ouvir as informações entregues a ele. Não sabemos como é por dentro na China, mas sabemos o que acontece retrospectivamente com autocracias que caem e ficam cada vez mais repressivas. As pessoas não trazem informações ruins ou negativas para o governante, e o governante começa a cometer ainda mais erros.

Os mecanismos corretivos não existem como na regra coletiva, mesmo sob um sistema autoritário. E assim as elites chinesas podem ver isso, e podem se perguntar: bem, é possível que Xi Jinping calcule mal porque está tomando decisões sozinho, sem consultar e sem considerar toda a gama de informações?

É possível que o Ocidente não seja um tigre de papel, mas seja realmente muito forte e que o Ocidente possa fazer coisas que não entendemos completamente que eles poderiam fazer? E, além disso, eles têm a determinação de fazer isso. É possível que os taiwaneses não capitulem, mas resistam a uma invasão? É possível que essa resistência por parte dos taiwaneses possa galvanizar o resto do mundo? E então, sim, esta é uma oportunidade, uma lição para todos em tempo real.

As sanções podem ser mais duras

As sanções impostas à economia russa foram muito maiores do que prevíamos que seriam impostas. Os russos se anteciparam e elas não são suficientes para derreter completamente a economia russa. As pessoas estão exagerando os seus efeitos. Há muita coisa nas entrelinhas.

A maior história até agora foi a redução das exportações de petróleo e gás, ainda intocadas, pois é um último recurso. Se os chineses não comprarem, se concordarem com as sanções porque não querem pagar um preço, é fim de jogo para o regime de Putin.

Portanto, há muitas sanções adicionais que podem ser impostas e ainda não o foram. As sanções foram parciais. Ainda não chegamos lá e há essa grande variável sobre se os chineses querem ser vistos como cúmplices da fúria assassina de Putin ou vão continuar tentando jogar em cima do muro e ver se eles podem ganhar com isso.

Mas se os chineses começarem a sentir que isso é algo que eles não topam, arriscar suas relações comerciais com a Europa, então podemos ver os chineses talvez pressionando a Rússia ou talvez aplicando algumas das sanções, incluindo embargo de petróleo e de gás.

Putin pode cortar cabos submarinos

Estamos no início da guerra e há muitas armas que os russos ainda não usaram que estão em seu arsenal, artilharia que pode reduzir cidades a escombros. Sabemos sobre como as comunicações estão na nuvem. A internet está na nuvem. Na verdade, está no oceano. 99% de todas as comunicações estão no oceano. E esses cabos submarinos estão mapeados na Rússia, que tem uma força submarina. Eles podem escalar.

Eles podem cortar esses cabos entre a Europa e a costa leste dos EUA e a Ásia e a costa oeste dos EUA, e o oceano é um lugar grande. Você pode cortar os cabos em muitas áreas. E então, quando eles estiverem consertados, o que leva muito tempo, você pode cortá-los de novo. Então, temos o problema de que a Rússia tem ferramentas que podem realmente machucar, realmente prejudicar. O sistema financeiro internacional vale muito mais para o Ocidente que para os russos.

A segurança energética europeia, a segurança energética dos aliados americanos e a segunda maior economia do mundo. Portanto, precisamos de um processo diplomático de alguma forma, que não comprometa a Ucrânia.

É impossível Putin administrar a Ucrânia

Vejo cenários. O primeiro é que Putin não pode ocupar com sucesso um país tão grande. Quando os nazistas conquistaram grande parte da Ucrânia, eles realmente não a administraram. Você vê esses mapas, quando a Rússia força o território e eles o colorem como Rússia. Na verdade, isso não é controlado pelos russos. Esse é o nível de penetração da atividade russa, atividade militar. Mas eles não controlam esse território. Eles não estão administrando esse território. Esse território está sujeito à ação de retaguarda como aconteceu com os nazistas. Os nazistas tomaram Kiev.

Eles pegaram todos os hotéis de luxo. E três dias depois, as armadilhas começaram a disparar e começaram a matá-los. De fato, Hitler decidiu que não tomaria Leningrado por causa do que aconteceu em Kiev. Ali Hitler decidiu que em vez disso eles cercariam Leningrado e os matariam de fome. É o mesmo plano de Moscou. E então você é um administrador em um território ocupado. Você tem um escritório bonito e não sabe se é seguro, se a mulher que está fazendo seu chá está colocando algo ali. Você não sabe se vai sair na rua e haverá algo embaixo do seu carro que pode não ser amigável. Não há como a Rússia ocupar com sucesso a Ucrânia.

A opção da terra arrasada

O segundo cenário é Putin dizer: bem, não posso ter a Ucrânia, você também não pode ter. Eu vou quebrá-los e esmagá-los. Vou manter o litoral do Mar Negro, aquele lindo litoral até Odessa. E aquele pedaço da Moldávia, conhecido como Transnístria, e um pouco além do Danúbio na Bacia, o Danúbio no Delta, a Ponte Terrestre do Delta do Rio Danúbio para a Crimeia até o leste da Ucrânia. As chamadas latas de lixo de Donetsk e Luhansk ficam.

Talvez ele fique com isso, talvez tente matar o governo ucraniano ou simplesmente destrua tudo e diga, OK, você pode ter de volta agora. Exceto pelas partes que são realmente valiosas, aquela área costeira no Mar Negro que torna a Ucrânia sem litoral. Temo esse tipo de resultado, porque ele não precisa reconstruí-la. Ele não precisa possuir. Ele só precisa quebrá-los, infelizmente.

E, portanto, precisamos de uma situação em que não apenas possamos reverter quaisquer ganhos que eles tenham no terreno, mas também que possamos reconstruir ou desestimular as tropas russas.

Bilhões para a resistência

Além de observar a resistência, é preciso armar essa resistência. Correremos os riscos de armar essa resistência como estamos fazendo agora. A Polônia não tem medo de correr esses riscos porque sabe que tem a garantia do Artigo 5 da Otan. Graças a Deus. E assim esses riscos estão sendo assumidos e serão assumidos, e a resistência ucraniana será apoiada. Assistência humanitária é absolutamente crucial em grande escala, com bilhões e bilhões, um desafio logístico.

A Eurasia vs. o Ocidente

A esfera anglo-americana, que subiu ao poder primeiro com o Império Britânico e depois com os Estados Unidos, deu a todos uma lição sobre o poder moderno.

Investiu em capital humano, criou a tecnologia, construiu a infraestrutura, teve boa governança e fez isso com o comércio, porque o comércio com outros países ricos é como você fica mais rico. Além disso, tanto britânicos quanto americanos contaram com uma Marinha forte para se defender.

Esse é o poder mundial, esse é o mundo moderno, essa é a história moderna. E se você está no comando disso, é melhor não estragar tudo. Algumas pessoas fazem melhor e outras, pior. Mas esse é o tipo de herança que você recebe quando está no Ocidente para administrar.

A Eurásia é diferente, é uma massa de terra. Nem tudo são oceanos abertos. Os chineses têm apenas uma costa e é uma costa leste cercada por aliados e bases militares dos EUA.

Mais alianças pela estabilidade

O problema vem de Moscou, de Pequim, de Teerã, porque eles são mais fracos e estão tentando compensar essa fraqueza. Eles estão tentando administrar o abismo entre eles e o Ocidente. Eles estão tentando superar esse abismo ou gerenciá-lo de uma forma que não seja tão devastadora.

E então eles tentam dividir o Ocidente, que é tão forte e eles tentam usar o poder do Estado e a coerção para forçar seu povo a se modernizar e forçar seu povo a não ser atraído pelo modelo anglo-americano e pelo sistema transatlântico e pela Europa. Eles tentam forçar seu povo porque esse outro lado é mais poderoso e a Eurásia é mais fraca e os líderes na Eurásia têm que jogar um jogo de não estar no comando em Londres, não estar no comando em Washington ou Nova York ou Los Angeles ou Vale do Silício, mas estar no comando na Eurásia, com menos herança.

Pior, as instituições usam o Estado para tentar coagir porque não podem preencher aquele abismo, não podem substituir a liberdade, a abertura, as medidas corretivas e as instituições. E então isso é um problema. São maus líderes, Xi Jinping, Putin, aqueles em Teerã, esse tipo de pessoa continua aparecendo de novo e de novo. A maioria é de medíocres. E ainda assim continuamos e somos fortes e superamos nossos erros e os corrigimos.

E no Oriente, e na Eurásia, tudo é existencial. Eles cometem alguns grandes erros. E toda a sua civilização está em risco de repente. Portanto, é um problema que a Eurásia seja terra, sem mar, é coercitivo, não é aberto, é apenas um pacote diferente de economia e política. Não são os mesmos há 500 anos, evoluíram tremendamente. Há incorporação dessa parte do mundo na esfera anglo-americana. Há todo tipo de conquistas tremendas na Rússia como civilização, na China, no Irã. Devemos compartilhar o mundo com eles.

Eles não vão embora. Mesmo quando desmoronam, eles voltam. À medida que o Ocidente garante as instituições ocidentais, as alianças de infraestrutura de tecnologia de capital humano ficam cada vez melhores. Mas descubra como viver no mesmo planeta com aqueles que têm uma mão mais fraca. E eles jogam de maneira muito semelhante, infelizmente, por causa dessa fraqueza diante de nossa enorme força.

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