O novo ano velho

Em 2013, o mundo deverá manter um olho no euro, no Oriente Médio e na Ásia, e outro na solvência dos EUA

RICHARD N., HASS - THE PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2013 | 02h03

Uma análise do ano de 2012, exigirá que nos concentremos necessariamente em três partes do mundo. Primeiro, a zona do euro, com suas incertezas financeiras aparentemente intermináveis. Em seguida, o Oriente Médio, com suas várias revoluções e a chegada da Irmandade Muçulmana ao poder no Egito, e não apenas neste país, e a selvagem guerra civil na Síria que já causou a morte de mais de 60 mil pessoas. E em terceiro, a região da Ásia-Pacífico, com o nacionalismo e tensões políticas crescentes, que durante décadas se distinguiu quase exclusivamente por seu extraordinário crescimento econômico num contexto de uma considerável calmaria política.

Mas quais são os temas que dominarão 2013? Em grande parte, como os franceses gostam de dizer, plus ça change, plus c'est la même chose.

Portanto, podemos prever sem medo de errar a persistência das dificuldades em toda a Europa, enquanto os países do sul, em particular, lutam para reduzir os gastos públicos a fim de coadunarem suas políticas fiscais à sua real capacidade econômica.

O que poderia haver de diferente este ano é o fato de a França, e não a Grécia e a Espanha, vir talvez a se encontrar no centro do furacão. Isso suscitaria questões fundamentais e até mesmo existenciais para a Alemanha, a outra parte do eixo que constitui o cerne do projeto europeu desde a 2.ª Guerra. A probabilidade de que a Europa como um todo venha a registrar um pequeno crescimento econômico, se é que tanto, tornará a situação muito mais difícil para os principais representantes de governos, bancos e instituições regionais.

De sua parte, o Oriente Médio encontra-se na fase inicial de uma transição revolucionária. Daqui a um ano, o presidente egípcio Mohamed Morsi quase certamente estará ainda no poder, mas não está muito claro de que modo ele usará este poder - e, consequentemente, qual será a situação política e econômica no Egito. Recentes divergências quanto à redação de uma nova Constituição revelam uma sociedade profundamente dividida e uma administração que parece equacionar (e confundir) o governo da maioria com democracia.

Por outro lado, o regime do presidente sírio Bashar Assad provavelmente terá sido derrubado antes do final do ano. Mas, como vimos em outros países da região, será muito mais difícil instalar em seu lugar outro sistema não agressivo e eficiente. A guerra civil de fundo sectário poderá predominar ou haverá enfrentamentos entre os vários grupos de oposição contrários a Assad. Há também uma possibilidade real de amplos levantes no Bahrein e na Jordânia.

Finalmente, a dissensão na região Ásia-Pacífico dificilmente diminuirá. Na realidade, é muito mais provável que se intensifique. A probabilidade de um incidente militar que envolva a China e um dos seus vizinhos - Japão, Filipinas, ou Vietnã - não pode ser ignorada e resta ver se os circuitos diplomáticos da região conseguirão suportar essa carga. Novos líderes em diversos países da região, como China, Japão e Coreia do Sul, tornam o futuro ainda mais incerto.

O que mais poderemos esperar em 2013? Uma possibilidade decepcionante é que os esforços globais para formular novos acordos para promover o comércio, diminuir o ritmo da mudança climática ou regulamentar o ciberespaço provavelmente não irão a parte alguma. O multilateralismo em larga escala, no qual grande parte dos 193 países reconhecidos pela ONU se unem para negociar acordos, tornou-se demasiado complexo para produzir resultados rápidos. Ao contrário, no máximo poderemos esperar acordos de alcance reduzido entre governos selecionados ou acordos que tratem de apenas uma parte de problemas muito mais amplos.

O maior desafio para o mundo será talvez o que fazer a respeito do programa nuclear do Irã. O Irã conseguiu aperfeiçoar grande parte dos elementos necessários para produzir armas nucleares. Ao mesmo tempo, as sanções impostas por um amplo grupo de países começam a produzir um efeito significativo na economia iraniana.

Há até mesmo sinais de um crescente debate no país sobre a possibilidade de seguir adiante com o programa nuclear - e portanto arriscar não apenas a ruína econômica, mas também um ataque militar - em lugar de aceitar um compromisso diplomático. Esse pacto estabeleceria limites às atividades nucleares do Irã e exigiria que o país abrisse as portas a novas inspeções internacionais que insiste em não permitir.

A questão mais importante será portanto se será possível negociar um resultado que seja satisfatório para o Irã, mas não para os EUA, Israel, e outros. O que é certo, entretanto, é que 2013 será definido de uma maneira fundamental pela decisão de empreender uma efetiva ação militar contra o Irã ou sua exclusão.

Outro país deve ser acrescentado à lista de nações "imprevisíveis": os EUA. A questão no caso é se o sistema político americano conseguirá vencer os desafios com os quais se defronta, muitos dos quais se agravaram.

Os EUA continuam sendo a maior potência econômica e militar do mundo, mas as perguntas quanto à sua solvência lançam dúvidas sobre sua capacidade de agir e liderar o mundo. Os recentes acontecimentos em Washington não são absolutamente tranquilizadores. Os desdobramentos globais, não apenas no ano que começa, mas também na próxima década e muito além, dependerão em grande parte da capacidade de os EUA administrarem suas dificuldades e divisões internas.

* É PRESIDENTE DO CONSELHO PARA AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS, RICHARD N., HASS, THE PROJECT SYNDICATE

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