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O 'novo' candidato no Irã

Surpresa em Teerã: o Ministério do Interior recebia as candidaturas para a eleição presidencial que se realizará em 14 de junho, quando, meia hora antes de terminar o expediente, Akbar Hashemi Rafsanjani apresentou sua inscrição. Rafsanjani foi presidente do Irã de 1980 a 1997, mas caiu em desgraça por suas opiniões moderadas.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2013 | 02h03

Ele é considerado líder da ala reformista, que faz frente à dos "radicais", religiosos e ideólogos com duas tendências: a do líder supremo Ali Khamenei, o real número 1 do regime, e a de Mahmoud Ahmadinejad, o presidente, cada vez mais contestado dentro do país, mesmo entre os conservadores.

As eleições de junho são incertas. Em primeiro lugar, porque a crise econômica reduziu o poder de compra dos iranianos. Em seguida, porque o braço de ferro com o Ocidente sobre o programa nuclear do país pode resultar num aumento das sanções já insuportáveis aplicadas ao Irã. Enfim, porque o atual presidente, já no seu segundo mandato, não se candidatará novamente.

Outra razão: as eleições presidenciais anteriores, em junho de 2009, foram um desastre. Embora os reformistas tenham vencido, Ahmadinejad foi declarado vitorioso. As multidões invadiram as cidades, mas Khamenei mostrou-se intratável e a repressão foi violenta. Centenas de mortos. Prisões e torturas em massa. A ala reformista foi decapitada.

Por isso, até agora a opinião reinante era que Rafsanjani, com 78 anos, não se candidataria. Vale dizer que, embora mantido na chefia do Conselho de Discernimento - uma das principais engrenagens do regime, apesar do nome barroco e kafkiano -, a repressão foi violenta contra sua família e pessoas próximas: sua filha foi encarcerada na prisão de Evin. Seu irmão Mehdi, depois de três anos em Londres, foi preso ao voltar para Teerã.

Desde que surgiu a notícia da candidatura de Rafsanjani, o clã conservador reagiu com fúria. Websites publicaram uma foto de sua Mercedes, um pouco chamativa, é verdade, para um regime que se coloca como religioso e asceta. E encontraram um bom alvo para atacar: Rafsanjani possui uma fortuna gigantesca, construída com o comércio atacadista de pistache e avaliada em alguns bilhões de dólares.

A réplica política também se delineia no campo conservador, que coloca na disputa seus grandes campeões: Mohammad Ghalibaf, prefeito de Teerã; Mohsen Rezai, que foi comandante dos aterrorizadores guardiães da revolução; Manouchehr Mottaki, que foi diplomata. Enfim, o mais inquietante de todos, Said Jalili, figura sombria, silenciosa e dogmática como uma pulseira de aço.

Por outro lado, se Ahmadinejad não se apresenta, alguns de seus fiéis o fazem. Vários são muito ortodoxos e podem seduzir o líder supremo Khamenei. Mas existe um, o mais poderoso, que é Esfandiar Rahim Mashaie, que não agrada absolutamente ao clero, por suas opiniões consideradas sacrílegas sobre a divisão entre sunitas e xiitas (a vertente dominante no Irã).

As eleições de junho serão, portanto, abertas, perigosas e plenas de esperança. Até sua realização, devemos examinar de perto as fissuras que fragilizam a sociedade iraniana. Escutar o que se diz no "bazar", essa área importante de comércio de Teerã, atingida dolorosamente pela crise. O "bazar" é um bom barômetro do destino do Irã.

É bom lembrar que, quando essa região abandonou o xá Reza Pahlevi, em janeiro de 1979, o mundo todo compreendeu que o caminho estava livre para o retorno do aiatolá Khomeini do exílio. E quanto a este ano? Em outubro, o "bazar" ficou fechado durante alguns dias. E, a partir daí, flagelados pela crise causada pelas opções políticas de Teerã continuam bastante inquietos.

Tradução de Terezinha Martino.

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris.
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