AP Photo/Markus Schreiber
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O novo chanceler da Alemanha pode reviver a esquerda na Europa?; leia análise

Olaf Scholz quer reconquistar trabalhadores que desertaram para a extrema direita populista; sucesso pode transformá-lo em modelo para os social-democratas em todos os lugares

Katrin Bennhold, The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2021 | 05h00

BERLIM - Em dezembro passado, enquanto planejava o que a maioria considerava uma tentativa desesperada para se tornar o próximo chanceler da Alemanha, Olaf Scholz interrompeu os preparativos de sua campanha para uma videochamada com um filósofo americano.

Scholz, um social-democrata, queria conversar com o filósofo Michael J. Sandel, professor de Harvard, sobre por que partidos de centro-esquerda como o dele vinham perdendo eleitores da classe trabalhadora para populistas, e os dois homens passaram uma hora discutindo um tema aparentemente simples que se tornaria a peça central da campanha da Scholz: "Respeito".

Nesta quarta-feira, 8, Scholz tomará posse como o nono chanceler da Alemanha no pós-guerra - e o primeiro social-democrata em 16 anos -, sucedendo Angela Merkel e chefiando um governo de coalizão de três partidos. Desafiando pesquisas e especialistas, ele liderou seu partido de 158 anos do precipício da irrelevância para uma vitória improvável - e agora quer mostrar que a centro-esquerda pode novamente se tornar uma força política na Europa.

Scholz venceu por muitos motivos, não apenas porque convenceu os eleitores de que era a coisa mais próxima de Merkel, mas sua mensagem de respeito também ressoou. Pela primeira vez desde 2005, os social-democratas se tornaram o partido mais forte da classe trabalhadora. Pouco mais de 800 mil eleitores que haviam abandonado o partido pela extrema esquerda e extrema direita voltaram na última eleição.

"Scholz surpreendeu", disse Jutta Allmendinger, presidente do instituto de pesquisa WZB Berlin Social Science Center e especialista em desigualdade que conhece Scholz há quase duas décadas. "Muitos o veem como um clone de Merkel", observou ela. "Mas ele é um social-democrata de alma".

Scholz atuou como ministro das finanças no governo de coalizão liderado pelos conservadores de Merkel e prometeu continuidade e estabilidade. No entanto, ele também pretende fazer da Alemanha uma espécie de laboratório político, para tentar reparar a ponte entre os social-democratas e a classe trabalhadora, um esforço que encontra paralelos na agenda política do presidente Joe Biden nos Estados Unidos.

Para a centro-esquerda na Europa, a vitória de Scholz chega em um momento crítico. Na última década, muitos dos partidos que antes dominavam a política europeia tornaram-se quase obsoletos, aparentemente desprovidos de ideias e amplamente abandonados por sua base da classe trabalhadora.

A energia política tem estado na direita, especialmente na extrema direita populista, com muitos conservadores americanos migrando para países como a Hungria para estudar a "democracia iliberal" de Viktor Orbán.

"Todo mundo está olhando para nós", disse Wolfgang Schmidt, conselheiro de longa data de Scholz, que ele escolheu para chefiar a chancelaria. "Se fizermos as coisas direito, temos uma chance real. Não devemos cometer erros, não devemos decepcionar as expectativas. "

Em seus últimos anos no cargo, Merkel, uma conservadora, foi às vezes considerada a única defensora da democracia liberal em uma era de homens fortes globais, seja  Vladimir Putin ou Donald Trump. No entanto, a Alemanha não estava imune à fúria populista, e a Alternativa para a Alemanha (AfD) ganhou assentos no Parlamento e se tornou uma força política no leste do país.

"Para mim, a maior preocupação política é que nossas democracias liberais estão cada vez mais sob pressão", disse Scholz sobre si mesmo no site dos social-democratas. "Temos que resolver os problemas para que os slogans baratos dos populistas não peguem."

O líder social-democrata viajou longamente pelos Estados Unidos, inclusive nos anos anteriores às eleições de 2016. Um de seus conselheiros lembrou que, em uma conversa particular, ele até previu uma vitória de Trump. Em seguida, ele passou meses analisando por que os democratas perderam e lendo uma série de livros de autores com origens na classe trabalhadora nos Estados Unidos, França e Alemanha.

"Ele estudou com muito cuidado o que aconteceu nos Estados Unidos", disse Cem Özdemir, um membro proeminente dos Verdes que será ministro no próximo governo de Scholz. "Ele estudou as perdas dos democratas nos EUA. Por que Hillary não venceu?"

Quando o próprio partido de Scholz desmoronou na eleição de 2017, perdendo pela quarta vez consecutiva, ele escreveu um artigo implacável concluindo que um dos motivos pelos quais os social-democratas perderam seus eleitores mais fiéis foi o fracasso em oferecer-lhes "reconhecimento".

No ano passado, no meio do primeiro lockdown da covid-19, Scholz leu o livro mais recente do professor Sandel, "The Tyranny of Merit" ("A tirania do mérito: O que aconteceu com o bem comum?", na edição em português), no qual o filósofo de Harvard argumentou que a narrativa meritocrática da educação como motor de mobilidade social alimentava ressentimento e contribuiu para o surgimento de populistas como Trump.

"A reação de 2016 expressou vividamente que simplesmente dizer às pessoas: 'Você consegue se tentar' não foi uma resposta adequada à estagnação salarial e à perda de empregos provocada pela globalização", disse o professor em uma entrevista. "O que as elites social-democratas não perceberam foi o insulto implícito nesta resposta à desigualdade, porque o que se dizia era: 'Se você está lutando na nova economia, seu fracasso é sua culpa'."

Durante o último governo social-democrata na Alemanha, o chanceler Gerhard Schröder cortou benefícios e empreendeu uma dolorosa reforma do mercado de trabalho de 2003 a 2005, em uma tentativa de reduzir o número de desempregados que ultrapassou os cinco milhões. Scholz, então secretário-geral do partido, tornou-se a face pública das mudanças.

O desemprego caiu gradualmente, mas o programa também ajudou a criar um amplo setor de baixos salários e levou muitos eleitores da classe trabalhadora a desertar dos social-democratas.

Sandel argumenta que foi nessa época que os partidos de centro-esquerda, incluindo os democratas do presidente Bill Clinton, abraçaram o triunfalismo da direita no mercado, tornaram-se mais identificados com os valores e interesses daqueles com educação formal e começaram a perder contato com eleitores da classe trabalhadora.

Scholz, certa vez um jovem socialista impetuoso que se juntou a seu partido quando adolescente, defendeu os trabalhadores como advogado trabalhista na década de 1970, antes de se tornar gradualmente em um centrista pós-ideológico. Hoje ele é considerado à direita de grande parte da base do partido, não muito diferente de Biden nos EUA, com quem às vezes é comparado, embora, como Biden, ele tenha demonstrado alguns reflexos liberais.

"Ele foi um idealista em sua juventude, depois se tornou um tecnocrata e até um hipertecnocrata, mas acho que ele pode estar se tornando mais radical de novo, em uma idade mais avançada", disse Kevin Kühnert, uma figura proeminente da ala à esquerda do SPD e novo secretário-geral do partido.

Durante a pandemia, Scholz, então ministro das Finanças, impressionou os críticos de esquerda ao liberar centenas de bilhões de euros em auxílio estatal para ajudar trabalhadores e empresas em dificuldades. A pandemia, por sua vez, revelou como categorias repentinamente consideradas essenciais - enfermeiros e assistentes sociais, mas também catadores de lixo, caixas de supermercado e entregadores - muitas vezes não recebem muito bem.

"A pandemia mostrou em quais ombros nossa sociedade está construída, quem trabalha duro e ainda se beneficia muito pouco com uma melhora econômica", disse Scholz a repórteres durante a campanha.

Scholz agora vai liderar um governo de três partidos, com progressistas verdes e libertários democratas livres. O tratado de governo prevê o aumento do salário mínimo de 9,60 euros (R$ 60,94) para 12 euros (R$ 72,18) por hora - um aumento instantâneo de salário para cerca de 10 milhões de pessoas. Scholz também prometeu construir 400 mil casas por ano, 100 mil a mais do que o planejado anteriormente, e garantir níveis estáveis de aposentadoria.

Mais abstrato, mas igualmente importante, é sua promessa de outra "revolução industrial" que terá como objetivo fazer da Alemanha uma potência manufatureira para a era neutra em carbono e fornecer a base econômica para o estado de bem-estar do futuro.

"Precisamos dizer às pessoas duas coisas", disse Scholz durante a campanha. "Em primeiro lugar, que precisamos de respeito, precisamos de bom pagamento e reconhecimento adequado pelo trabalho. E, em segundo lugar, temos que garantir que haja bons empregos no futuro. "

Em toda a União Europeia, os social-democratas governam em nove dos 27 estados membros, e as lições da Alemanha já estão se mostrando influentes. Na França, a prefeita socialista de Paris, Anne Hidalgo, que recentemente anunciou sua própria candidatura presidencial, evocou o tema do "respeito".

Mas os slogans vão apenas até certo ponto. Os social-democratas ficaram em primeiro lugar na votação fragmentada de setembro na Alemanha, mas reuniram apenas 26% do total, muito longe dos 40% registrados no início do primeiro mandato de Schröder. Kühnert, o secretário-geral do partido, disse que o desafio de Scholz era mostrar que o modelo social-democrata é a abordagem certa para o país - e além.

"Esperamos que nossa vitória eleitoral na Alemanha envie um sinal para o renascimento da social-democracia internacionalmente", disse Kühnert. "Estamos olhando acima de tudo para o resto da Europa, porque precisamos fortalecer a UE nos próximos anos, se quisermos ter algo a dizer ao mundo nos anos seguintes".

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