O novo diálogo sobre o Oriente Médio

John Kerry fez uma aposta alta, mas necessária, ao assumir a responsabilidade pelas negociações entre palestinos e israelenses

AARON , DAVID MILLER, THE NEW YORK TIMES, É EX-NEGOCIADOR DO DEPARTAMENTO DE ESTADODOS EUA, AARON , DAVID MILLER, THE NEW YORK TIMES, É EX-NEGOCIADOR DO DEPARTAMENTO DE ESTADODOS EUA, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2013 | 02h02

O sucesso do secretário de Estado John Kerry, convencendo israelenses e palestinos a retomarem o diálogo, é um grande desafio para os EUA. No momento, não há nenhuma chance de se alcançar um acordo, mas, ao convencer os dois lados, Washington assume a responsabilidade de obter um consenso. Os americanos, agora, precisam reduzir as expectativas e encontrar convergências realistas. Ou seja, insistir em um acordo sobre fronteiras e segurança, sem excluir a questão de Jerusalém e dos refugiados.

Por onde começar? Kerry acertou ao centrar-se na questão da libertação de prisioneiros, que Israel anunciou recentemente. Além disso, poderão ser firmados acordos em que os israelenses congelariam a construção de novas colônias e os palestinos se comprometeriam a não mover nenhuma ação na ONU ou que leve Israel ao TPI.

Esses acordos poderão dar tempo e respaldo políticos para ambas as partes identificarem interesses comuns sobre os quais negociar, incluindo uma maior cooperação na área de segurança e a possibilidade de os palestinos expandirem seus projetos econômicos na Área C da Cisjordânia, sob controle de Israel. Em vez de perseguir um acordo final quixotesco envolvendo questões de identidade, como o problema de Jerusalém e dos refugiados, o grande tópico das negociações terá de ser o territorial: terras e segurança. O foco deve ser na definição de uma fronteira para o Estado palestino. Ainda assim, o sucesso será extremamente difícil.

Paradoxalmente, o sucesso de Kerry abre para ele a possibilidade de fracasso. As conversações estão começando em Washington, não na região. Ele se colocou como o único porta-voz do delicado processo, não as partes interessadas. Ninguém parece apostar nas conversações, exceto Kerry.

Assumir o domínio total da questão é perigoso. No caso das três históricas negociações de paz bem sucedidas entre árabes e israelenses, todas foram iniciados pelas próprias partes: em 1977, em 1993 e em 1994. Em cada instância, os EUA contribuíram, mas somente depois de as próprias partes terem tomado uma decisão difícil.

Existem três desafios fundamentes nas atuais conversações. Primeiro, o fim do conflito. Um acordo que acabe com o impasse e solucione questões fundamentais, como as fronteiras, Jerusalém, a segurança, os refugiados e o reconhecimento de Israel como Estado judeu. Os dois lados não têm uma ideia comum para firmarem tal acordo.

Em segundo lugar, a questão dos líderes envolvidos. O presidente palestino, Mahmoud Abbas, precisa de um acordo que inclua todos os grandes temas, ao passo que o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, não pode assinar um e sobreviver politicamente. As diferenças são enormes e a desconfiança é profunda, as convicções políticas ferozes.

A população palestina vê com cautela as conversações com Israel e reluta em se desviar da sua posição sobre Jerusalém e os refugiados. Além disso, o governo do Fatah, liderado por Abbas, divide o controle sobre armamentos, partidários e poder de negociação com o Hamas, que é mais militante.

Por outro lado, Netanyahu e o seu governo não estão plenamente de acordo sobre como solucionar o problema das fronteiras, de Jerusalém e dos refugiados de modo que atenda às necessidades palestinas. A própria ideologia do premiê, sua desconfiança dos árabes e a falta de crença na capacidade palestina de cumprir o acordo podem restringir suas concessões. Netanyahu está preocupado com o Irã e a última coisa que deseja é uma crise política que ameace o seu governo.

Em terceiro lugar, o processo tem a marca de Kerry. O presidente Barack Obama ainda tem de assumir o comando dele e terá de decidir o quanto de capital político pretende despender. Um acordo sobre temas mais importantes não será possível se ele não assumir um papel de mais relevância, talvez uma reunião de cúpula dos líderes envolvidos.

Para isso, ele terá de pressionar ambas as partes a fazerem mais concessões. Se Kerry levar o debate a um ponto decisivo em que propostas importantes terão de ser apresentadas, poderá ocorrer um certo distanciamento entre o americano e a posição israelense. Então, Obama terá de tomar decisões difíceis.

Kerry espera que o diálogo direto crie uma base de confiança para israelenses e palestinos sentirem que terão parte no sucesso da iniciativa. Talvez ele consiga que as duas partes cheguem a um acordo sobre segurança e fronteiras, além de debater, mas não decidir, assuntos mais difíceis, como é o caso de Jerusalém.

As chances de fracasso são muitas, mas a aposta de Kerry vale a pena. Sem ela, as coisas só vão piorar para os interesses de americanos, do Oriente Médio, de palestinos e de israelenses. A única alternativa à diplomacia séria é nos rendermos às forças da historia e ao desespero, que a deterioração e o prolongamento do conflito certamente provocarão. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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