O novo Grande Oriente Médio

Crises na região interligam-se e ampliam tensão indo-islâmica

Robert D. Kaplan*, O Estadao de S.Paulo

27 de dezembro de 2008 | 00h00

As separações que usávamos para dividir o mundo durante a Guerra Fria finalmente desmoronaram com os atentados em Mumbai. Não veremos mais o Sul da Ásia como uma região distinta do Oriente Médio. Agora, existe apenas uma longa faixa contínua se estendendo do Mediterrâneo às selvas de Mianmar, e cada crise - da disputa israelense-palestina no oeste à disputa hindu-muçulmana no leste - se entrelaça com a crise ao lado. Contudo, esse Grande Oriente Próximo alongado não significa algo novo, mas algo velho. Por períodos significativos da história medieval e moderna primitiva, Nova Délhi esteve sob a mesma soberania que Cabul.As relações hindu-muçulmanas sempre foram historicamente tensas. A partilha do subcontinente, em 1947, desalojou pelo menos 15 milhões de pessoas e causou a morte violenta de quase meio milhão. Com esse histórico, as relações relativamente pacíficas entre a maioria hindu e os 150 milhões de muçulmanos da Índia têm sido um testemunho do experimento bem-sucedido de democracia indiana. A democracia até agora manteve o controle sobre uma divisão étnica e religiosa que, embora remonte há séculos, tornou-se, nos últimos anos, uma hostilidade moderna reinventada.A responsável por isso foi a globalização. O nacionalismo secular indiano do Partido do Congresso de Jawaharlal Nehru, construído em torno da rejeição ao colonialismo ocidental, é cada vez mais uma coisa do passado. Quando a dinâmica economia indiana se mesclou com a mundial, hindus e muçulmanos começaram buscas separadas de raízes para ancorá-los numa civilização global benigna.A reação islâmica a esse nacionalismo hindu tem sido menos explosões de raiva e violência e mais um recuo psicológico: para barbas, turbantes e burcas em alguns casos; auto-segregação em guetos muçulmanos em outros. Os ataques terroristas em Mumbai tiveram alguns objetivos, um dos quais era instalar um detonador nesse tenso impasse intercomunal. Os jihadistas não querem destruir apenas o Paquistão, querem destruir a Índia também. A Índia é tudo que eles odeiam: hindu, vibrantemente livre e democrática, implícita e crescentemente pró-americana e com laços militares estreitos com Israel. Nesse sentido, para os jihadistas, a concepção de um ataque em escala do 11/9 na Índia era brilhante.Da mesma forma como o caos no Iraque até o início de 2007 ameaçava o sistema estatal pós-otomano do Líbano ao Irã, a anarquia crescente no Paquistão solapa não só o Afeganistão, mas o Subcontinente Indiano inteiro. A existência de grupos jihadistas como o Lashkar-i-Taiba que têm vínculos com o aparelho de segurança do Paquistão, mas se esquivam ao controle das autoridades civis paquistanesas, é a definição por excelência do caos. Um Paquistão em colapso, e com isso a perda de qualquer fronteira real separando a Índia do Afeganistão, é o pior pesadelo dos indianos. Ele nos leva de volta às fronteiras medievais, mas não de maneira pacífica.O ataque jihadista no centro financeiro da Índia não prejudica apenas as relações indiano-paquistanesas, mas faz o novo governo civil paquistanês - que genuinamente tentou melhorar os laços com a Índia - parecer absolutamente patético. Assim, o ataque enfraquece ambos os países. Qualquer entendimento sobre a Caxemira, o disputado território de maioria muçulmana reclamado pelo Paquistão, está agora mais longe de se materializar, com a clara possibilidade de distúrbios maciços naquela região.*Robert D. Kaplan é bolsista sênior do Center for a New American Security.

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