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O novo Itamaraty

A confirmação de José Serra como ministro das Relações Exteriores foi recebida nos corredores do Itamaraty com "otimismo cauteloso". Otimismo porque Serra é visto como nome politicamente forte, com poder de influência para levar recursos aos cofres desfalcados da pasta, que deixou de ser prioridade na gestão da presidente Dilma Rousseff. Além disso, a expectativa entre diplomatas é de que os planos políticos do ex-senador devolvam ao ministério a relevância que teve nos governos anteriores.

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2016 | 04h33

"Dilma, claramente, não priorizava a política externa. Independentemente de preferências ideológicas, pode ser positivo ter um nome forte como o de Serra à frente do Itamaraty", disse um diplomata. "Muitos aqui veem esse movimento como uma tentativa de Serra de voltar a disputar a presidência em 2018. Ele não aceitaria um ministério para ficar de escanteio."

O último chanceler não diplomata de carreira foi Celso Lafer, entre 2001 e 2002, no governo Fernando Henrique Cardoso, e o próprio FHC, ministro de Relações Exteriores de Itamar Franco e, em seguida, da Fazenda, cargo que deixou para disputar as eleições à Presidência, em 1994.

"Serra visa trilhar o caminho que FHC fez há mais de 20 anos e deve mostrar a que veio. Acreditamos que ele terá espaço político maior do que os nossos últimos ministros e certamente mais recursos."

O Itamaraty sofreu cortes nos últimos anos que resultaram em atraso de salários, problemas na manutenção de embaixadas e dívidas. Ao que tudo indica, o governo interino de Michel Temer dará mais ênfase à política externa, como meio de acelerar a economia. A necessidade de uma política comercial mais agressiva é consenso entre os diplomatas e pode fortalecer o Itamaraty, que já trabalhava na promoção de negócios do Brasil, mas não como foco principal da política externa.

A cautela sobre Serra vem do receio de que o Itamaraty se reduza ao comércio. "Essa é uma visão simplista da política externa. Temos objetivos puramente políticos, mas que elevam o prestígio do país."

Alguns diplomatas temem que o Brasil se afaste de blocos como Brics e Mercosul. O governo do PT, principalmente sob Lula, assumiu como pressuposto ideológico a ideia de que o mundo caminhava gradualmente, mas de forma inevitável, para um cenário multipolar, com relativo declínio dos EUA após o fim da Guerra Fria e a ascensão de outras potências. O Brasil priorizou as relações Sul-Sul e diversificou a pauta, reduzindo a dependência de parceiros tradicionais. Uma das últimas ações do chanceler Mauro Vieira foi a troca inicial de ofertas entre Mercosul e UE.

PSDB e PMDB não compartilham da mesma visão. Na campanha de 2010, Serra referiu-se ao Mercosul como uma "farsa", "uma barreira" para acordos comerciais. Serra deve redirecionar o foco para as relações Sul-Norte, e investir na aproximação com parceiros mais tradicionais como EUA, Japão e Europa Ocidental. "É outra maneira de ver o mundo, mas o ideal é equilibrar as relações Sul-Sul e Sul-Norte. Hoje a China detém o maior poder de compra e é o primeiro parceiro econômico do Brasil, EUA são o segundo, Argentina é o terceiro e Alemanha, o quarto. É muito diversificado. Índia teve crescimento maior do que os chineses. Então, não é possível, em 2016, fazer política externa como fazíamos há 25 anos. Seria ignorar aspectos atuais importantes da geopolítica."

Mudança mais simbólica, mas com peso na opinião pública, será o afastamento dos vizinhos bolivarianos e um discurso mais duro contra a Venezuela - embora o governo Dilma tenha no último ano se afastado gradualmente do vizinho. A aproximação com Cuba, que rendeu críticas ao PT, deixa de ser relevante com o fim das sanções e a aproximação dos EUA.

No mais, a política externa deve se manter. Petistas e tucanos concordam com a importância de fazer parte do Conselho de Segurança e ter voz em questões globais como mudança de clima. Historicamente - nas gestões FHC, Lula e Dilma - o Brasil se opôs a sanções unilaterais, como impostas pelos EUA contra Cuba. Lula se aproximou mais do Oriente Médio e envolveu-se em polêmicas como o acordo nuclear com o Irã. Mas a posição sobre questões cruciais foi a mesma com FHC, que já defendia a solução de dois Estados na Palestina e foi contra os EUA sobre a invasão do Iraque sem consentimento do CS. Em crise ou não, o Brasil é um ator global. Limitar as relações externas diminuiria nossa influência e estatura diplomática.

 

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