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O novo marechal

Quem é o tal general Abdel-Fattah al-Sisi, agora elevado à posição de marechal, que deve se apresentar nas próximas eleições no Egito, concorrendo à presidência do país, três anos depois da Primavera Árabe? Se isso ocorrer, o Egito terá sido vítima - ou beneficiário? - de uma fantástica manipulação.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2014 | 02h05

Há três anos, a população egípcia, revoltada, empreendeu sua "primavera", depondo o presidente Hosni Mubarak com o objetivo de pôr fim à ditadura militar que oprimia o país. O Exército, então, apossou-se da cadeira presidencial, descartando os jovens democratas inspirados, líricos e desordenados da Primavera Árabe. Em seguida, a Irmandade Muçulmana tomou conta do poder.

Sobre o marechal Sisi sabe-se pouca coisa. Apenas uma parte do seu rosto, pois os olhos estão eternamente ocultos por óculos escuros com lentes espessas. Uma figura elegante. As mulheres costumam ficar extasiadas diante desse homem viril. Que é, antes de tudo, um militar.

É preciso dizer que o Exército modelou o general e o seu destino. Filho de pequenos negociantes do bairro de Gamalaya, no Cairo, sua escolaridade rapidamente foi assumida pelo Exército.

Em 1997, ele sai da academia militar e decide se aperfeiçoar em infantaria mecanizada. Formado nos EUA, começa uma bela carreira. "É um homem inteligente", dizem algumas pessoas. "Ele tem um caráter dominador", afirmam outras.

A ironia é que o cargo que lhe permitiu destituir em julho de 2013 Mohamed Morsi foi oferecido a Sisi em agosto de 2012 pelo próprio presidente. E por que motivo? O fato é que o general tinha o perfil perfeito para servir como chefe do Estado-Maior e ministro da Defesa da Irmandade, então no poder.

Era considerado "compatível" com os islamistas. Um homem muito devoto. À época do golpe, sua mulher estava nos EUA e usava o niqab. E como ele evidentemente era leal à instituição militar, agradava às duas forças dominantes do país: o Exército e a religião.

Mas a ruptura não tardou. Em 2012, a Irmandade Muçulmana pretendeu aprovar à força um projeto de Constituição que não era do agrado do Exército. O general Sisi tentou uma mediação entre militares e governo. Morsi o recebeu com virulência e desdém.

Surge o confronto. E o início de um processo caótico que terminará por levar às ruas do país, em 30 de junho de 2013, milhões de manifestantes exigindo eleições antecipadas. O Exército fica do lado dos manifestantes.

Esse foi o caminho percorrido pelo general para se tornar o "homem forte" do Egito. Etapa seguinte: nomeado marechal e, ao mesmo tempo, indicado pelo Exército para concorrer nas próximas eleições. Em seguida? Sisi presidente.

O marechal evidentemente é um estrategista sutil. Mas tem uma outra força por trás, que demarca seu percurso. Trata-se do Conselho Supremo das Forças Armadas, um círculo de generais por muito tempo desconhecido e misterioso, melhor identificado hoje, que se tornou, após a queda de Mubarak, o verdadeiro detentor do poder no Egito.

Assim, após os contratempos decorrentes da Primavera Árabe e depois do período desastroso da Irmandade Muçulmana, retornamos à real tradição do Egito moderno. Esse país foi continuamente governado pelo Exército desde a revolução dos oficiais livres em 1952, organizada por Gamal Abdel Nasser Hussein. Desde essa ocasião, o Egito é o seu Exército.

Resta saber se o marechal Sisi será o porta-voz leal da instituição militar ou se tentará, uma vez assegurada sua autoridade, soltar as amarras que coíbem seus passos. Até agora, tudo o que se sabe sobre ele é que se trata de um homem leal - ao Exército, sobretudo.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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