Sedat Suna/EFE/EPA
Sedat Suna/EFE/EPA

O novo prefeito de Istambul já se mostra um rival para Erdogan

Integrante de partido fundado por Ataturk, Imamoglu conquistou partidários do governo

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2019 | 05h00

ISTAMBUL - Mesmo antes de iniciar seu primeiro dia no trabalho como novo prefeito de Istambul, Ekrem Imamoglu estava sendo considerado o homem que poderia desafiar o presidente Recep Tayyip Erdogan pela liderança da Turquia em quatro anos.

No momento, ele evita a pergunta e insiste que se concentrará nos próximos cinco anos em servir a Istambul, uma metrópole de 15 milhões de habitantes, um quarto dos quais vive abaixo da linha da pobreza.

“Neste momento, sou uma pessoa totalmente concentrada em governar”, disse ele a jornalistas estrangeiros numa entrevista coletiva em seu primeiro dia no cargo na última sexta-feira. “Mas existem aqueles que veem a nossa estrela no céu, e agradecemos a eles.”

Não há dúvida de que ele apresenta uma ameaça mais ampla ao presidente. Imamoglu disse que pretendia usar totalmente o enorme apoio popular que o elegeu por uma margem bastante ampla em um novo turno das eleições, em 23 de junho, como um mandato para lutar contra o autoritarismo de Erdogan e trazer democracia e equidade para toda a Turquia.

“Ela se transformou na luta de uma nação”, disse o novo prefeito sobre a eleição, que foi refeita depois que o partido de Erdogan alegou irregularidades e contestou sua derrota em uma votação em março. “Esta foi uma eleição sobre Istambul, e ao mesmo tempo uma luta pela democracia.”

Atrás dele está o Partido Republicano do Povo, ou CHP. O partido político mais antigo da Turquia, fundado pelo primeiro presidente do país, Mustafa Kemal Ataturk, e é o principal desafiante para o domínio de Erdogan sobre o cenário político.

Desde que Erdogan assumiu o poder com seu Partido da Justiça e Desenvolvimento, ou AKP, nas eleições de 2002, a oposição fracassou em desalojá-lo ou impedi-lo de expandir seu controle sobre as instituições turcas, muitas das quais são orgulhosas criações do legado de Ataturk.

Na verdade, o partido da oposição havia fracassado em tantas eleições que parecia fadado a representar uma parcela cada vez menor da sociedade, a elite secular que se deslocava cada vez mais para o exterior.

O partido estava lutando para combater a crescente percepção de que Erdogan era imbatível, disse Kemal Kilicdaroglu, o presidente do partido desde 2010. Sua participação na votação estacionou em torno dos 25%, enquanto o Partido da Justiça e Desenvolvimento de Erdogan estava em 45% a 50%.

Kilicdaroglu, um ex-burocrata de 70 anos, trabalhou silenciosamente pela reviravolta.

Nove anos de oposição lhe ensinaram que o Partido Republicano do Povo precisava não só se renovar, mas também abrir-se ao mundo intelectual e acadêmico como às pessoas comuns.

Em vez de criticar Erdogan, era preciso oferecer soluções para os problemas das pessoas, disse ele em uma entrevista na sede do partido na capital, Ancara.

Voltou-se para a conquista dos partidários de Erdogan - a maioria dos quais são pobres da classe trabalhadora e da população urbana - visando setores específicos, como subcontratados, e conversando com pessoas em seus próprios bairros.

“Havia grandes diferenças entre nossa linguagem e a do AKP”, disse ele. “Desenvolvemos uma linguagem que seus partidários ouviam. Encontramos a oportunidade de conversar no espaço dele”.

O partido encontrou um sentimento disseminado de injustiça na sociedade, não só por causa das prisões e expurgos que Erdogan ordenou após um golpe fracassado em 2016, mas de um eleitorado muito maior em todo o país "que achava que a justiça não conseguiria prevalecer”.

Kilicdaroglu liderou uma marcha de mais de 400 quilômetros pela justiça de Ankara a Istambul, no verão de 2017, atraindo centenas de milhares de participantes em um esforço multipartidário para engajar a sociedade.

O partido também teve que se reconciliar com seu passado antidemocrático. Nas primeiras décadas da república, foi o único partido, e carrega a bagagem política de ser quase correspondente ao estado. Ainda é criticado por elitismo e discriminação do passado contra minorias étnicas e islâmicas.

Kilicdaroglu, ele próprio um alevita, uma das minorias religiosas da Turquia, disse que encorajou os representantes do partido a adotarem a autocrítica, especialmente quando conversavam com seguidores do AKP, e buscaram relações mais próximas com partidos democráticos menores.

O mais importante acontecimento recente foi o sucesso do partido em conseguir eleger prefeitos em seis das cidades mais importantes da Turquia, graças à cuidadosa seleção do perfil de seus candidatos e, em parte, devido a uma aliança com outros partidos da oposição.

Imamoglu é um dos seis prefeitos que o partido vê como sua nova geração de políticos que podem avançar além de sua base tradicional. A maioria não vem dos escalões existentes de legisladores do partido.

“É um dos nossos deveres tornar isso sustentável”, disse Kilicdaroglu. “Nosso trabalho começa agora. Temos de torná-lo um sucesso e manter nossas relações com os outros partidos que estão apoiando a democracia”.

No dia seguinte à sua posse, Imamoglu encontrou-se com jornalistas de todo o mundo para anunciar uma estratégia de abertura e transparência que, segundo ele, atrairia milhões de turistas e investimentos para Istambul.

Ele disse que procuraria trabalhar com Erdogan e observou que o presidente lhe desejou sucesso em um discurso para seu grupo parlamentar, dois dias após a eleição.

“À medida que nos reconciliarmos, podemos fazer este país e esta cidade ganhar muito”, disse o prefeito de suas relações com Erdogan. “Estou totalmente com esse humor. Exigirei isso com insistência e, juntos, vamos observar o reflexo do presidente”.

Mas ele também sinalizou que lutaria contra Erdogan se o presidente tentasse dificultar sua administração da cidade.

Imediatamente após a eleição, o governo de Erdogan emitiu uma circular para limitar os poderes dos prefeitos na nomeação de administradores para as companhias que atendem aos municípios, disse Imamoglu.

A circular transferiu o poder do gabinete do prefeito para o conselho da cidade, onde o partido de Erdogan muitas vezes é majoritário. A prefeitura de Ancara já havia apresentado uma queixa contra a circular e a anulou, disse Imamoglu.

Provavelmente, foi apenas a primeira dessas tentativas, disse ele, acrescentando: “Pode haver litígios além deste ponto também”.

Ele disse que pretendia usar a transparência e a força da opinião pública para desbloquear a resistência burocrática e superar os obstáculos políticos levantados por Erdogan. Em seus breves 17 dias no cargo antes que as eleições anteriores fossem anuladas, ele transmitiu as reuniões do conselho ao vivo para o público.

“É como se eles não tivessem aprendido sua lição no dia 23 de junho”, disse Imamoglu sobre a circular do governo. “Temos visto que quando as manobras políticas trazem um impasse ao invés de uma solução, a vontade do povo, a vontade do cidadão fica acima de tudo.”

Ele disse que os meios de comunicação pró-governo achariam que ele também deveria atenuar sua hostilidade após o resultado das eleições. “Acho que esta eleição lhes ensinou uma lição”, disse. “Eles aprenderam que notícias difamatórias e enganosas não os levarão a lugar algum”".

Os resultados das eleições mostraram que o povo turco não aceitou acatar ordens, disse ele.

“Nós provamos que os políticos ou os partidos políticos que têm a abordagem de ‘Tudo o que eu digo é certo’ jamais conseguirão governar esta nação”, disse ele referindo-se ao governo cada vez mais autoritário de Erdogan. “Se eles se comportarem assim, chegará o dia em que a nação lhes dará uma lição nas urnas”. / NYT, tradução de Claudia Bozzo

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