O novo premiê da França

A França conheceu na terça-feira seu novo primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault, que o presidente François Hollande nomeou há algumas semanas. Após seu primeiro discurso importante, descobrimos um personagem misterioso. Na verdade, não descobrimos absolutamente nada. Continuamos sem conhecer Ayrault.

É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2012 | 03h07

É uma especialidade dele, um político experiente. Foi deputado por muitos anos. Era chefe da bancada socialista na Assembleia. No entanto, não fazia nada: gostava de falar, de sorrir, de se explicar, era uma forma oca. Esperava-se que, no discurso de apresentação de seu programa, a forma oca se enchesse. Mas ela continua vazia. O premiê será antipático? Não. Ele é até simpático.

Eloquência? Zero. Lirismo? Zero. Sobriedade? Máxima. O homem é elegante, tem boa cabeça. Parece o premiê de um país escandinavo. Quando fala, causa sono. Quando lê, é monótono. Competente, mas sem uma pitada de humor. Razoável, sério, responsável, mas triste como uma chuva fina. Curiosamente, ele lembra seu antecessor, François Fillon. É soporífero como ele.

Teremos de nos acostumar. Por alguns anos, eis-nos condenados a um premiê que não é possível odiar. A dupla Hollande-Ayrault assume o leme num momento desastroso da história da França. Não só em razão das bizarrices, dos barroquismos e das fanfarronadas do ex-presidente Nicolas Sarkozy. Antes, em virtude da violenta crise da dívida na Europa.

Os franceses estão prevenidos. Os impostos serão pesados. Já em 2012, o amável Ayrault pretende arrecadar 7,2 bilhões a mais, que se somarão aos 15 bilhões que já haviam sido decididos pelo governo anterior. De onde sairá esse dinheiro? Do bolso dos franceses, é claro. Mas Ayrault e Hollande juram que os impostos incidirão sobre as altas rendas, os ricos e as grandes empresas, não sobre as classes média e baixa.

Tudo bem. No entanto, já conhecemos o inconveniente desses métodos. Algumas empresas terceirizarão os serviços. As grandes fortunas procurarão paraísos fiscais e o resultado será desastroso.

O peso dos impostos pode desferir um golpe na produção. Esse seria o pior dos cenários. Se a produção estagnar ou recuar, haverá a tentativa de elevar as alíquotas dos tributos, os impostos deixarão de entrar e teremos o círculo pesado da recessão.

Foram essas as impressões que tivemos ao ouvir o clássico, razoável, asseado e simpático Jean-Marc Ayrault. O jornal Le Monde intitulou assim seu editorial: "Ayrault: o fim do pensamento mágico". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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