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O novo protagonismo turco

Talvez seja uma reviravolta na epopeia tumultuada do Estado Islâmico (EI), que ambiciona recriar o califado da época otomana e, como por milagre, conseguiu se apoderar em pouco mais de um ano de um imenso território no norte do Iraque e norte da Síria.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2015 | 02h02

É verdade que essa área é formada sobretudo de terras desérticas, mas é imensa e vem sendo administrada com mão de ferro pelos chefes da jihad. Qual é a possível reviravolta?

A entrada em cena de um novo protagonista, a Turquia. Membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o país aprova teoricamente os objetivos da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos contra os jihadistas do Estado Islâmico.

Mas, na prática, embora divida uma fronteira de 900 quilômetros com a Síria, os turcos até agora tinham evitado participar da frente formada contra o Estado Islâmico. O governo turco chegou mesmo a proibir que aviões americanos se abastecessem em seu aeroporto de Incirlik, ao sul do país.

O comportamento evasivo, hipócrita, do presidente Recep Tayyip Erdogan (islamista dito moderado) era muito mal recebido pela comunidade internacional, que considera o poder dos assassinos do Estado Islâmico o maior de todos os perigos até hoje enfrentados pelo Ocidente.

Mas os subterfúgios de Erdogan podem ser explicados por várias razões: de um lado, Ancara considera seu principal inimigo não o Estado Islâmico, mas a Síria de Bashar Assad. Além do que, as únicas tropas aguerridas que poderiam interromper a terrível cavalgada dos islâmicos são os curdos (iraquianos, sírios e turcos). Ora, os curdos da Turquia, soldados notáveis, são odiados por Ancara e por Erdogan.

Mas, agora, o presidente turco parece sair do seu imobilismo. Após um diálogo telefônico com o presidente americano, Barack Obama, Erdogan deu seu acordo para os americanos utilizarem os aeroportos de Incirlik e Diyarbakir, ao sul da Turquia, para lançar ataques contra posições do Estado Islâmico. Ancara chegou mesmo a enviar quatro bombardeiros, no fim de semana, para atacar os jihadistas no vilarejo de Hayar.

Como explicar a mudança repentina de Erdogan? Primeiro, a pressão dos americanos e seus aliados finalmente fez com que o governo de Ancara cedesse. Em seguida, um atentado atribuído aos jihadistas do Estado Islâmico, na cidade de Suruc, matou 32 pessoas, na grande maioria curdos.

Enfim, Erdogan reelegeu-se com dificuldade e enfrenta o descontentamento da população turca, que não perdoa as obras faraônicas ordenadas por ele para imortalizar seu reinado e sua pessoa.

O Estado Islâmico, por sua vez, lançou uma ofensiva contra a Turquia. Na última edição da revista publicada pelo califado, Kostantiniyye, o Estado Islâmico chegou ao ponto de publicar uma fatwa (decreto islâmico) contra a carne de origem turca, declarada "imprópria para o consumo".

A Turquia não perdeu tempo. Na manhã de segunda-feira, 5 mil policiais turcos foram mobilizados em todo o país para uma operação antiterrorista e simpatizantes do Estado Islâmico eram o alvo.

Mas Erdogan tomou o cuidado de incluir um outro alvo. Os policiais turcos devem igualmente erradicar os militantes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), proscrito na Turquia.

/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARINO

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris 

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