O novo secretário-geral da ONU

Nome que coordenará as Nações Unidas após saída do sul-coreano Ban Ki-moon deve sair da Europa Oriental

SHASHI THAROOR, PROJECT SYNDICATE*, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2014 | 02h02

As campanhas eleitorais estão se tornando mais prolongadas no mundo todo. Nos Estados Unidos, por exemplo, políticos ambiciosos estão trabalhando em tempo integral nos Estados que costumam apontar as tendências para as eleições presidenciais de 2016. Entretanto, algumas disputas - como a escolha do próximo secretário-geral da ONU, que também ocorrerá em 2016 - ainda se desenrolam, em grande, parte na surdina. No entanto, isso deverá mudar.

A eleição para o cargo de secretário-geral das Nações Unidas, que costuma ocorrer de maneira discreta, a ponto de parecer quase clandestina, em nada se assemelha ao estardalhaço de uma campanha presidencial americana.

Isto se explica, em grande parte, pelo fato de que a decisão cabe aos 15 membros do Conselho de Segurança encarregados de escolher o candidato, que deverá ser confirmado pela Assembleia-Geral da ONU.

Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança - China, França, Rússia, Grã-Bretanha e EUA - têm o poder fundamental de veto, portanto, a maioria não significará nada se um único membro desse grupo discordar dos demais.

Sucessão. O processo de seleção é limitado ainda por um acordo informal, mas indispensável. O cargo deverá ser exercido de maneira rotativa por um representante de cada região a cada dois mandatos. A única exceção foi Kofi Annan, uma personalidade extremamente popular que, embora tenha sucedido a outro africano, foi escolhido por dois mandatos consecutivos.

Como desde 1971 a posição foi ocupada sucessivamente por Europa Ocidental, América Latina, África e Ásia, somente uma região da ONU ainda não foi representada, a Europa Oriental. Já surgiram vários candidatos potenciais do Leste Europeu e alguns começaram ativamente a pedir apoio. O ex-presidente da Eslovênia, Danilo Türk, que foi assistente do secretário-geral para Assuntos Políticos na época de Annan, é um dos favoritos.

Também estariam entrando na disputa a atual diretora-geral da Unesco, a búlgara Irina Bokova, e dois eslovacos: o ex-ministro das Relações Exteriores, Miroslav Lajcak, e seu predecessor, Jan Kubis. Finalmente, há o ex-ministro de Relações Exteriores da Romênia, Mircea Geoana, muito respeitado entre os governos dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança.

Oposição russa. O fato de esses cinco candidatos serem amplamente conhecidos nos círculos diplomáticos e de quatro deles terem experiência direta na ONU refuta a velha convicção de que a Europa Oriental não tem um candidato confiável para apresentar.

No entanto, há um obstáculo a ser vencido: a região deve evitar um veto russo. Na verdade, esse pode ser o principal fator de frustração das perspectivas do ex-ministro de Relações Exteriores polonês, Radek Sikorski.

Se, como alguns temem, o Kremlin vetar todos os candidatos da Europa Oriental, um representante da Europa Ocidental e do chamado Grupo dos Outros, como a ex-primeira-ministra da Nova Zelândia e atual subsecretária-geral da ONU, Helen Clark, poderá ter uma chance, considerando principalmente o apelo representado pela escolha de uma mulher para o cargo.

Será que o público assistirá a essa disputa? As eleições de 2006, nas quais fui o segundo de sete candidatos, teve um grau de exposição sem precedentes. Os candidatos se reuniram com grupos regionais da ONU, falaram na Cúpula da União Africana e chegaram a participar de um debate na BBC. Alguns sites se manifestaram com o único propósito de analisar a disputa. Tudo isso representou um importante avanço. Dada a importância da posição do secretário-geral da ONU, os candidatos deveriam ter a oportunidade de compartilhar suas ideias e objetivos com a sociedade, como eu pretendia fazer.

Entretanto, ultimamente, a campanha pública pouco influiu no resultado, pelo fato talvez de Ban Ki-moon não ter participado do debate na BBC. Embora os esforços para compartilhar a própria visão possam fazer com que o candidato receba amplas expressões de apoio, também podem fazer o mesmo para os seus oponentes. Por outro lado, na eleição de um secretário-geral da ONU, os membros do Conselho de Segurança podem votar em quantos candidatos quiserem.

Isto não significa que a disputa não influencie o resultado. Em 2006, a Coreia do Sul fez uma ampla campanha, de um ano de duração, regiamente financiada, dirigida a todos os 15 membros do Conselho de Segurança. Na realidade, a Coreia do Sul foi o único membro do órgão que empreendeu essa campanha.

Vantagens. A conclusão óbvia é que a disputa para o cargo de secretário-geral da ONU não tem nada a ver com a posição ou o melhor currículo, com a facilidade em se expressar em várias línguas, com a capacidade administrativa ou mesmo com o carisma pessoal.

Trata-se de uma decisão política, tomada principalmente pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança. Consequentemente, o candidato "menos inaceitável" obtém o cargo. E, na realidade, não há motivo para acreditar que o advento da mídia social, da cobertura de TV por satélite ou de uma imprensa mais indiscreta deva mudar essa realidade fundamental.

Em 2016, a grande aposta será um candidato da Europa Oriental que seja aceitável pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, particularmente pela Rússia. Resta ver como o candidato conseguirá o consenso. O que está claro é que qualquer candidato que não se coadune com a descrição entrará na disputa com uma desvantagem muito grande, embora não necessariamente insuperável. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*É DEPUTADO INDIANO E PRESIDE O COMITÊ DO PARLAMENTO PARA RELAÇÕES EXTERIORES. FOI SUBSECRETÁRIO-GERAL DA ONU E CHANCELER DA ÍNDIA

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