O novo terror judaico

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Michel Gherman*, O Estado de S. Paulo

31 de julho de 2015 | 22h00

Os últimos dias foram de violência e medo nas ruas de Jerusalém e na cidade de Duma, na Cisjordânia. Ontem à tarde um judeu ortodoxo atacou manifestantes na Parada Gay de Jerusalém, ferindo seis pessoas. Em uma segunda ocorrência, terroristas judeus ateiam fogo a uma casa da aldeia palestina, o que acaba por ferir gravemente uma criança e por matar um bebê. Pelo que tudo indica, os homens que causaram o incêndio sabiam que a família estava em casa.

Os dois ataques têm natureza distinta e protagonistas diferentes.

Na Parada Gay, o ataque foi realizado por um judeu ultraortodoxo que já havia atacado antes, tendo cumprido pena de cinco anos em uma penitenciária israelense. Agora, solto, voltava a fazer vítimas. O segundo caso foi produzido por membros de uma organização de extrema direita (Tag Mechir), que é responsável por uma série de ataques, com menor gravidade, em aldeias palestinas da Cisjordânia, em casas árabes em Jerusalém e por atos de vandalismo em igrejas e mesquitas. 

Se o atentado da parada gay foi um típico assalto de um fanático religioso, que age de forma solitária, o segundo caso é bem diferente. Aqui há uma organização estruturada, com métodos e planos específicos e que conta com, pelo menos, dezenas de militantes prontos a cumprir ordens de uma liderança treinada e bastante ideológica. 

Para além das diferenças entre o Tag Mechir e o fanático religioso de Jerusalém, há alguns pontos que aproximam ambos os ataques. Em primeiro lugar, é importante notar que nos dois casos o elemento religioso está presente, já que o grupo que incendiou a casa palestina segue os ensinamentos do Rabino Meir Kahane, referência importante da extrema direita israelense. Em segundo lugar, ambos fazem parte de um processo que aponta para o aumento nos níveis de violência política em Israel

De fato, nas últimas semanas, a incitação e o enfrentamento político atingem temperaturas altas entre os ativistas da extrema direita no país. A coisa funciona da seguinte maneira: qualquer ato de violência produzido (ou planejado) por palestinos era respondido com um ato de violência judaica. Isto explicou o incêndio a uma igreja na cidade de Tiberiades, a pichação de mesquitas em território palestino e os vários linchamentos (ou tentativas de) a cidadãos árabes de Jerusalém. Como resposta, havia indiciamento e prisão dos culpados.

O que pode apontar para uma nova tendência é que os últimos atos não foram produzidos como "resposta" ou retaliação a possíveis ataques palestinos. Ao contrário, a retaliação pode ter justamente sido contra atitudes do próprio Estado de Israel. Me explico: apesar das pressões da coalizão direitista, a Suprema Corte de Israel vem tomando decisões contrárias às demandas de grupos da extrema direita. 

Esse foi o caso, por exemplo, da exigência de destruição de casas judaicas construídas, de forma ilegal, no assentamento de Bet El(próximo a Ramallah), ou da proibição de judeus religiosos rezarem no Monte do Templo (ou esplanada das Mesquitas), localizada no quarteirão muçulmano do cidade velha de Jerusalém, ou ainda, na demora na demolição de casas palestinas na aldeia de Susya, ao sul de Hebron.

Tais decisões criam um clima de tensão entre militantes da extrema-direita, que iniciam campanhas nas ruas de Israel. Para além disso, setores mais radicais do governo, como o caso da ministra da Justiça Ayelet Shaked, ou o do  vice ministro da Defesa Ben Dahan, acabam por apoiar as demandas desses setores, o que fortalece suas posições e levam a enfrentamentos públicos. 

Assim, os últimos atentados podem ser considerados, também, resultados dessas campanhas e de declarações de membros do governo. As reações de setores menos radicais do governo Bibi Netanyahu (o próprio primeiro-ministro já considerou os ataques como atos de terror) serão fundamentais para frear possíveis reações palestinas, que podem criar um novo ciclo longo de ações e reações, de violência de parte a parte, dando, de maneira definitiva, o protagonismo a setores mais extremistas de lado a lado.

* Michel Gherman é historiador e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (NIEJ) da UFRJ

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