AFP
AFP

‘O número de mortes é muito maior’, diz capitão de barco de resgate

Milhares de imigrantes morreram tentando cruzar o Mar Mediterrâneo nas últimas décadas, mas tudo indica que 2015 será o ano mais mortal de que se tem registro.

Entrevista com

Ingolf Werth

Rick Noack/The Washington Post, O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2015 | 03h02

Foi este enorme custo humano que levou os empresários alemães Harald Höppner e Matthias Kuhnt a comprarem um navio, o Sea Watch, para patrulhar o Mediterrâneo por conta própria. O navio e sua tripulação voltaram recentemente de sua primeira missão e Ingolf Werth, capitão, falou sobre o trabalho.

Vocês passaram as duas últimas semanas resgatando imigrantes no Mediterrâneo. Como foi a experiência?

No total, conseguimos resgatar cerca de 600 pessoas. O que mais me choca nisso é que praticamente qualquer um poderia fazer o mesmo. O que me deixa feliz é que conseguimos salvar as vidas de todos os refugiados que encontramos. Muitos teriam morrido se não estivéssemos lá.

O número oficial de mortes de imigrantes no Mediterrâneo é baixo demais?

Sim, durante dias, fomos os únicos a resgatar embarcações naquela área. Com base nos números de imigrantes que resgatamos e as condições de seus barcos, suponho que uma quantidade muito maior morra a cada dia sem ser incluída em estatísticas.

Como os imigrantes que vocês resgataram reagiram?

As reações foram diversas. Alguns ficaram imediatamente em pânico quando os avistaram porque pensaram que éramos líbios que queríamos enviá-los de volta à África. Eles nos disseram: “Preferiríamos cometer suicídio aqui a voltar para o lugar de onde viemos”. Outros, porém, começaram a cantar e celebrar quando nos viram. Nós só recebemos a bordo aqueles que estavam feridos ou precisavam de cuidados médicos imediatos. Entretanto, tivemos de depender de outros navios para transportar os refugiados para a Europa, porque teria nos tomado vários dias alcançar o litoral. Isso nos faria perder um tempo crucial e teríamos sido incapazes de resgatar mais imigrantes.

Vocês foram apoiados por barcos da União Europeia?

Bem, nós os vimos ancorados em portos italianos, mas não vimos um único barco da UE no mar, perto da Líbia, onde a maioria dos imigrantes enfrenta problemas. Tentei descobrir o paradeiro dos barcos da UE, porque não tínhamos condição de lidar com a quantidade de imigrantes em perigo, mas a resposta era sempre: “Lamento, senhor, mas não há navios da Frontex ou Triton (agências de controle de fronteiras da UE) nas proximidades”. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK


Tudo o que sabemos sobre:
EuropaimigraçãoO Estado de S.Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.