''O objetivo era atacar somente a polícia''

Homem diz que policiais deixaram a revolta ganhar espaço e acredita em novos protestos no enterro de Mark Duggan

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2011 | 00h00

ENTREVISTA

The Owl, traficante de Tottenham

LONDRES

The Owl, 33 anos, morador de Tottenham há 15, traz no bolso imagens históricas. Em seu celular, carrega vídeos feitos no dia 6, na High Road, epicentro dos distúrbios que se espalhariam pelo país nos quatro dias que se seguiriam, deixando cinco mortos. As imagens, que o Estado assistiu, mostram protestos pacíficos em frente à delegacia local. Os vídeos que se seguem mostram a escalada do vandalismo. Segundo The Owl, negro, imigrante e traficante, o objetivo inicial era atingir a polícia. Mas advertiu: a criminalidade corrói a periferia de Londres.

A comunidade de Tottenham diz que os protestos começaram pacíficos. Foi isso mesmo?

O protesto começou em paz, com umas 50 pessoas. Eles diziam palavras de ordem do tipo "Queremos Justiça!". Uma menina de 16 anos foi enviada até a delegacia, como representante do grupo, para cobrar satisfações sobre a morte do Mark Duggan. Bateram nela e a expulsaram da delegacia. A população se revoltou. Todos sacaram seus celulares e espalharam mensagens com pedidos de ajuda. Depois, não parou mais.

O objetivo original era atingir a polícia ou era atacar o comércio?

O objetivo não era tocar fogo nas casas, era incendiar a delegacia, atacar a polícia. Mas os agentes defenderam o prédio. Incendiamos o carro da polícia. A revolta aumentou e as lojas foram saqueadas. As pessoas roubaram bebidas, beberam, enlouqueceram. Muita gente ficou bêbada. Então destruíram o shopping e tudo piorou.

Você participou de tudo isso?

(Risos) Não sei quem foi, nem como tocaram fogo. Estava lá gravando, fazendo o meu trabalho. Se você estivesse lá, teria apanhado. Bateram em um cara do jornal The Sun e num fotógrafo. Só pessoas do bairro podiam filmar. Jornalistas não entravam. Veja aqui (mostra os vídeos que gravara). É fogo por todos os lados.

Todos eram de Tottenham?

Não. Eu conhecia 50% dos que estavam lá. Tinha grupos de Tottenham, Edmonton, Hackney, Wood Green. Todos vieram depois das mensagem. Quando estávamos reunidos, uma pessoa lançava a palavra de ordem. Por exemplo: "Audi" ou "Barclays", então, todos atacavam um Audi ou a agência (do banco Barclays). A polícia não fez nada. Vai existir outra revolta, no enterro do Duggan. Pode se preparar.

O fato de a polícia não agir de forma ostensiva e reprimir a violência estimulou o conflito?

Claro! A polícia só queria defender a delegacia. Se lixaram se iríamos destruir o resto da cidade. Quando viram o fogo na viatura, a coisa piorou. Se os policiais quisessem, teriam parado tudo no primeiro dia. Era só vir a tropa de choque com canhões d"água, bombas de gás lacrimogêneo. Por que não o fizeram? Porque é um bairro de maioria negra, querem que a gente se mate. Quando há confusão em saídas de jogos, mandam o choque e resolvem tudo.

E você, está desempregado?

Faço o mesmo que Duggan: 157 (tráfico, o número está tatuado em seu braço). A droga que eu vendo vem da Bolívia, passa pelo seu país, em Mato Grosso, São Paulo, Santos, entra na Europa por Portugal e chega a Londres.

De quem é a culpa das revoltas, na sua opinião?

É tudo culpa da mídia. Tottenham já foi o pior lugar do país. Agora está melhor. Mas é ruim em Hackney, Croydon, Clapham, por exemplo. Ouviram o que estava estourando em Tottenham e fizeram igual. Você não sabe como funciona a mente dos britânicos. Rola concorrência o tempo todo. Se em Tottenham as gangues quebram tudo, em Croydon ou em Chatham as gangues vão querer fazer pior. Virou disputa.

Então são gangues já formadas antes dos distúrbios.

Claro. Por gente que já passou pela escola junto, pelo crime junto. Duggan era meu amigo. Crescemos no mesmo bairro, éramos colegas de academia.

Duggan era mesmo traficante?

Era traficante, claro. Era tudo, na verdade. Mas a gente não trabalhava junto. Era cada um para o seu lado. Ele andava armado, eu não. Um tempo atrás, ele foi a uma festa de criança e deu tiros para o alto. Era um cara meio louco.

Então ele portava uma pistola no momento do crime?

Não. Ele não estava armado. Como sabiam que o Duggan era bandido, forjaram a cena. Outros três foram presos e confirmaram que Duggan não tinha pistola. Foi o mesmo erro que fizeram quando mataram aquele brasileiro, o Jean Charles.

As imagens mostram um homem com a bandeira do Brasil enrolada no rosto. Você o conhece? Havia outros brasileiros?

Duvido que fosse brasileiro. Devia ser português ou angolano usando a bandeira do Brasil. Conheço os brasileiros daqui e eles não se metem em confusão. Ou vêm para trabalhar ou para igrejas. O máximo que fazem é um pouco de tráfico. Eu conhecia a metade dos que estavam na confusão. E não vi brasileiros.

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