O Ocidente e os afegãos

Apesar do discurso enérgico, não há disposição para retirar as tropas do Afeganistão

HELENE, COOPER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2014 | 02h37

Ao ouvir os líderes ocidentais presentes na reunião da Otan, na quarta-feira, é fácil achar que os EUA e o restante da coalizão militar internacional no Afeganistão mudaram de ideia e estão decididos a uma retirada rápida do país.

O presidente Barack Obama anunciou abruptamente ter instruído o Pentágono a iniciar o planejamento para uma saída completa do Afeganistão, uma vez que o presidente Hamid Karzai se recusa a assinar um acordo de segurança que permita às tropas ocidentais permanecerem no país após 2014. "Se o acordo não for assinado, nenhum soldado da Otan estará no Afeganistão após 2014", disse o secretário-geral da aliança, Anders Fogh Rasmussen.

No entanto, são poucos aqueles que realmente querem sair totalmente do Afeganistão. A razão é simples: para os comandantes militares, se não houver um grupo remanescente de soldados para apoiar o governo afegão e treinar as forças de segurança, é grande a probabilidade de que áreas do país voltem a ser controladas pelo Taleban, como ocorreu antes do 11 de Setembro.

Depois de 13 anos de guerra, o retorno à antiga realidade é visto como uma pílula amarga. "Se sairmos do país e a comunidade internacional retirar sua ajuda, o governo afegão poderá entrar em colapso, a insurgência ganhar impulso, território e assumir o controle", disse Michèle Flournoy, ex-funcionária do Pentágono. "Apesar de todo este esforço, todo o sacrifício e progresso, você devolve um novo refúgio seguro para terroristas? Não faz sentido."

Membros da inteligência americana afirmaram que os insurgentes poderão retomar áreas do Afeganistão em menos de um ano após a retirada total das tropas e alertam que Cabul poderá ficar exposta a ataques mais sérios do que os que ocorreram nos últimos anos. Essa mudança de direção também levará insegurança para Índia e Paquistão, nações com armas nucleares.

Estrategistas americanos já tentam imaginar o que ocorrerá se os EUA forem obrigados a uma retirada total das tropas. Parte do plano de contingência inclui o estabelecimento em outros países, talvez na Ásia Central, de bases que permitam continuar as operações com drones na região. O secretário da Defesa, Chuck Hagel, citou essa possibilidade ao declarar que o Exército está se atualizando constantemente, verificando onde instalar as bases, onde as ameaças são maiores e onde há aliados dispostos a trabalhar em conjunto.

Oficiais militares, porém, afirmam que uma retirada completa dos soldados enfraqueceria os esforços de combate ao terrorismo. Segundo o general Martin Dempsey, comandante do Estado-Maior Conjunto, as ameaças ocidentais de se retirar completamente debilitam as forças afegãs e encorajam o Taleban.

Muitas autoridades afegãs, incluindo todos os 11 candidatos presidenciais, gostariam que alguns soldados americanos ficassem no país. Na quarta-feira, o porta-voz de Karzai, Aimal Faizi, afirmou que o acordo acabará sendo assinado. "Não existe nenhuma opção zero", disse Faizi, referindo-se à possibilidade de não permanecer nenhum soldado no Afeganistão.

Outros enfatizaram o quão crucial é a ajuda internacional. "Os americanos precisam saber que no momento em que saírem sem deixar nenhuma força residual, o país mergulhará numa guerra civil e retrocederá aos anos 90", disse Aryan Yoon, chefe da comissão de relações internacionais no Parlamento afegão. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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