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O olhar de um Pulitzer

Na segunda-feira, Ahmad e Jamila Majid sentaram-se com os filhos e outros parentes na sala de sua casa, no interior da Suécia, olhos fixos em um laptop colocado na mesa de centro. Assim que as primeiras imagens surgiram, eles identificaram o fotógrafo brasileiro Mauricio Lima entre os colegas na redação do New York Times. Mauricio tinha estado com a família poucos dias antes, mas viajara às pressas aos EUA após uma ligação do editor. Ao vivo, os Majids conheceram o motivo do chamado urgente. Era o anúncio do Pulitzer, maior prêmio de jornalismo do mundo, e o fotógrafo brasileiro, que se tornara um amigo próximo ao longo da perigosa jornada da família desde a Síria até o refúgio na Europa, estava entre os ganhadores.

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

23 Abril 2016 | 07h05

“Dedico o prêmio a cada refugiado que conheci no ano passado, pessoas oprimidas por guerras e injustiça social. Em especial, aos Majids, que acolheram um estranho com uma câmera por 29 dias como parte de sua família”, disse Maurício ao agradecer o prêmio, lendo as anotações em um papel amassado. Suas palavras foram traduzidas do inglês para o árabe para os Majids. Com a voz embargada, o fotógrafo mencionou cada integrante da família, nomeando-os um a um - 12 no total, o mais novo nascido em novembro. 

O trabalho de jornalismo premiado com o Pulitzer na categoria “breaking news” sobre o drama dos refugiados na Europa teve como personagem principal a família Majid. A equipe do Times acompanhou sua jornada pelas fronteiras de nove países, desde que desembarcaram de um bote frágil em Idomeni, norte da Grécia, após escaparem da guerra na Síria e dos disparos contra os que tentavam atravessar para a Turquia.

O fotógrafo russo Sergey Ponomarev, da equipe premiada, com Daniel Etter e Tyler Hicks, registrou a chegada dos Majids à Grécia e na Macedônia. Mauricio Lima assumiu o trabalho documental de Belgrado, a capital da Sérvia, até Trelleborg, na Suécia, seu destino final - uma jornada percorrida em trens e ônibus, mas principalmente a pé.

O fotógrafo acompanhou a travessia da família através de cercas de arame farpado, à noite, para despistar os guardas; as cinco noites de espera maldormidas na estação de trem de Keleti, em Budapeste, quando o governo húngaro cancelou o transporte para além de suas fronteiras; o sono agitado das crianças ao relento, deitados sobre plantações de trigo em áreas descampadas; as dificuldades no campo de refugiados improvisado; viu-os definhar pelo cansaço e a falta de comida.

“As fotos do Mauricio começaram a aproximar o zoom nos Majids e a capturar suas personalidades. Onde Sergey era cerebral, embora visceral, Mauricio era pura emoção. Ele realmente ama se conectar com as pessoas que está fotografando”, escreveu a jornalista Anemona Hartocollis, que assina a reportagem do Times, sobre o colega. “Após três semanas de viagem, era hora de nos separarmos dos Majids. Eu voltei a Atenas, onde eu estava baseada então, e Nabih (a tradutora) para Beirute. Mas Mauricio se recusou a ir embora. Quando a família partiu para sua última jornada a pé até a Suécia, ele se juntou a eles. Para ele (Mauricio), a história não estava terminada até que acabasse.”

Conheci Mauricio Lima no Afeganistão em 2011. Embora tenha sido um contato breve, pude perceber nele algo diferente. Na era da informação em tempo real e dos selfies, Mauricio mantinha o foco na história, com profundo respeito pelo alvo das suas lentes. 

Mesmo quando os holofotes da imprensa internacional migram para outra crise, Mauricio fica. Foi assim na Ucrânia, onde permaneceu por seis meses documentando a guerra, trabalho que o levou à final do Pulitzer pela primeira vez no ano passado. Também em 2015, ele recebeu o World Press Photo, em premiação dupla. Uma das imagens retrata Jacob, combatente do Estado Islâmico de apenas 16 anos, sob cuidados médicos em um hospital de Hasakah, no norte da Síria. Ao contrário de reforçar estereótipos e preconceitos, a fotografia reúne todo o drama de um conflito tão complexo, caótico e desumano que nele não cabem heróis ou vilões, nem vencedores - todos perdem. 

Joseph Pulitzer definia assim o ofício de jornalista: “Iluminar os lugares escuros e, com um profundo senso de responsabilidade, interpretar esses tempos difíceis”. Não existe definição melhor para o trabalho de Maurício Lima. Ele é o primeiro brasileiro a ganhar o Pulitzer.

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