O outono dos patriarcas

Sustentado na rejeição à velha ordem e na invenção de inimigos, chavismo não deve durar tanto quanto a lenda de Chávez

O Estado de S.Paulo

28 de março de 2013 | 02h01

"Como é difícil morrer!", teria exclamado Francisco Franco em seu leito de morte. Os autocratas, ao que parece, sempre têm uma particular dificuldade em lidar com a morte, mesmo quando conseguem morrer de causas naturais.

Os estertores da morte de um ditador adquirem sempre um aspecto teatral, com massas em êxtase, pretensos sucessores lutando pela sobrevivência política e, nos bastidores, a coterie do ditador trancada em esforços para estender a vida de seu patriarca até que eles possam assegurar seus privilégios. O cunhado de Franco, que também era o médico da família, manteve o déspota moribundo respirando por aparelhos por mais de um mês.

Não está exatamente claro há quanto tempo Hugo Chávez, da Venezuela, estava morto antes de sua morte ser oficialmente anunciada. Ao ganhar tempo para garantir o próprio futuro político, chegaram a sugerir, perto do fim, enquanto Chávez era submetido a tratamentos complexos e agonizantes de câncer, que ele ainda estava "andando e se exercitando". O vazio de informações lembra o segredo que cercou as mortes de Stalin e Mao, e a prática no império otomano de manter a morte do sultão em segredo por semanas até a sucessão ser acertada.

A manipulação emocional da mise-en-scène que cercou a morte de Chávez quase certamente se traduzirá em apoio eleitoral a seu sucessor cinzento, Nicolás Maduro. Mas isso bastará para criar uma linhagem chavista? Na Argentina, apesar do desastre da volta ao poder de Juan Perón, em 1973, após um exílio de 18 anos, o peronismo foi reencarnado nos anos 80 na presidência de Carlos Menem, de novo com a chegada do presidente Néstor Kirchner e, depois, de sua mulher, a atual presidente, Cristina Kirchner. Os discursos melodramáticos desta são uma tentativa transparente de elevar seu ex-marido à condição de santo, assim como Perón elevou sua mulher, Evita, à santidade. Após assumir o cargo, ela jurou obediência não só a Constituição, mas também a "Ele" (Kirchner).

Chávez era bom em ridicularizar inimigos políticos, mas era também muito narcisista para se aproximar do fim com o tipo de humor que, segundo Suetônio, inspirou o gracejo no leito de morte do imperador Vespasiano: "Caramba, devo estar me transformando num Deus". A ideia grotesca de embalsamar o corpo de Chávez foi deixada de lado precisamente pelos danos sofridos pelo cadáver durante sua exposição às massas num exercício caótico de manipulação política.

Um deus certamente não, mas um santo, talvez. Aliás, o que foi bom o bastante para "Santa Evita", como o escritor argentino Tomás Eloy Martínez a chamou, poderia ser bom o bastante para Chávez. Como o tirano moribundo de O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez, que lamentava com justeza o destino que recairia sobre os pobres após sua morte, Chávez permanecerá, durante anos, como o santo benfeitor, mártir e redentor dos destituídos aos olhos das massas venezuelanas. Aliás, é provável que ele alcance o tipo de imortalidade que sempre acreditou merecer.

Parte da lenda é quase invariavelmente o mistério que cerca as circunstâncias da morte do líder. Uma morte comum, natural, não bate com a imagem de super-herói do patriarca lutando contra inimigos do país. A teoria conspiratória de Maduro de que o câncer de seu mentor foi resultado de envenenamento pelas "forças ocultas que o queriam fora do caminho" não é particularmente original. O próprio Chávez sustentava que seu ídolo, Simón Bolívar, foi envenenado por seus inimigos na Colômbia em 1830.

A história, mais imaginária que real, oferece a Maduro uma série de exemplos adicionais. Napoleão teria sido envenenado lentamente por arsênico durante seu exílio em Santa Helena? Lenin teria morrido de sífilis, de um derrame devastador ou envenenado por Stalin? Este teria ele sido envenenado pelo chefe de sua política secreta, Lavrenti Beria, ou talvez por seu arqui-inimigo, Josip Broz Tito, da Iugoslávia? O próprio Maduro invocou o rumor de que os israelenses envenenaram o ex-presidente palestino Yasser Arafat. Ele poderia se referir também a Gamal Abdel Nasser, do Egito, que caiu morto de um ataque cardíaco em 1970; um confidente de Nasser, o jornalista Mohamed Hassanein Heikal, sempre sustentou que o presidente havia sido envenenado por seu vice e sucessor, Anuar Sadat.

Embora a lenda de Chávez possa sobreviver, o chavismo provavelmente não poderá, pois não é uma verdadeira doutrina, mas um sentimento com base na rejeição da velha ordem política e da invenção de inimigos. Faltam-lhe as bases sólidas, por exemplo, do peronismo, um movimento inclusivo que se apoiava numa classe trabalhadora bem organizada e numa burguesia nacionalista. O chavismo, afora sua resiliência sobre uma liderança carismática, jamais passou de um programa social de carona na abundância de petróleo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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