O outro despertar árabe

Arábia Saudita e monarquias da região passam por mudanças sutis, mas importantes

THOMAS, FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2013 | 02h02

Temos as revoluções radicais na Tunísia, no Egito, na Síria, no Iêmen e na Líbia, nenhuma das quais construiu uma democracia estável e inclusiva. E temos as evoluções radicais em curso na Arábia Saudita e nas monarquias do Golfo Pérsico. Elas envolvem mudanças sutis, mas reais, nas relações entre os líderes e seus povos e é possível detectá-las numa visita breve a Riad, Dubai e Abu Dabi.

Os líderes do Golfo ainda não chegaram ao tempo da democracia de "um homem, um voto", mas, na esteira da Primavera Árabe, estão preocupados com a própria legitimidade, que não conseguem comprar com mais subsídios. Assim, cada vez mais líderes convidam seu povo a julgá-los pelo desempenho - como eles melhoram escolas, criam empregos e implantam redes de esgoto - e não só por como resistem a Israel, ao Irã ou impõem o islamismo.

E, graças à internet, mais pessoas estão fazendo isso. O papel da rede foi exagerado no Egito e na Tunísia, mas está sendo subestimado no Golfo, onde Facebook, Twitter e YouTube proporcionam vastos espaços sem controle para homens e mulheres interagirem uns com os outros. "Não leio mais nenhum jornal local", disse um jovem saudita. "Recebo todas as minhas notícias pelo Twitter." O mesmo vale para jornais controlados pelo governo.

A Arábia Saudita produz, sozinha, quase a metade de todos os tuítes no mundo árabe e está entre as nações mais ativas do mundo no uso do Twitter e do YouTube. De longe, os sauditas com mais seguidores nas redes sociais tendem a ser pregadores fundamentalistas wahabitas, mas estão se aproximando deles os humoristas e comentaristas que esquadrinham a sociedade saudita, incluindo o establishment religioso, que já não é intocável.

O rei Abdullah, da Arábia Saudita, continua popular, mas a burocracia do governo é vista como indiferente e corrupta. É por isso que os usuários sauditas do Twitter criaram recentemente esses hashtags: "#se eu encontrasse o rei, eu lhe diria"; "#do povo para o rei: a educação está em risco" e "#o que você gostaria de dizer ao ministro da Saúde?".

Na Arábia Saudita e em todo o Golfo Pérsico, pessoas estão perdendo o medo - não da revolta, mas de pedir um governo limpo e responsabilizável. Na semana passada, um amigo saudita compartilhou comigo um vídeo que se tornou viral no WhatsApp que foi postado por um homem pobre cujo telhado vazava durante as chuvas recentes, até dentro do berço do bebê. Ele pode ser visto andando por sua casa encharcada, dizendo: "Sou um saudita. É assim que eu vivo. Onde está o ministro da Habitação? Onde estão os bilhões que o rei deu para a habitação? Onde estão meus direitos? Sinto que estar em minha casa e estar na rua é a mesma coisa."

Ouvi muitas histórias como essa durante conversas em grupo com jovens sauditas e dos Emirados, os quais achei interessantes, antenados e tão ansiosos por reformas em seus países quanto qualquer um de seus colegas revolucionários no Egito. No entanto, eles querem evolução, não revolução. Eles assistiram aos vídeos do Cairo e de Damasco. Pode-se sentir sua energia - do movimento de base para permitir que mulheres possam guiar carros ao jovem que murmura que está tão farto do Islã puritano.

Ateus sauditas? Quem diria? Por falar em reforma, em Dubai, o governo criou uma estratégia para 2021. Cada um dos 46 ministérios e agências reguladoras tem um Indicador Chave de Desempenho (ICD) trienal que ele tem de alcançar para chegar lá, que vai de melhorar o desempenho de jovens de 15 anos em exames de ciência, matemática e leitura até facilitar mais a criação de uma nova empresa. Todos os 3.600 ICDs são carregados num painel de iPad que o governante, xeque Mohamed bin Rashid, acompanha a cada semana. Maryam al-Hammadi, de 48 anos, diretora de desempenho do governo, causa medo a cada ministro porque, todo mês, ela classifica quem fez mais progressos para alcançar seus ICDs - e o xeque Mohamed recebe a lista.

Ninguém quer ficar em último. Hammadi me mostrou o painel e explicou que o xeque Mohamed está pedindo que "cada agência do governo tenha um desempenho tão bom como o do setor privado em serviço e satisfação do consumidor". O público receberá um relatório anual.

De novo, isto não tem a ver com democracia. Tem a ver com líderes sentindo a necessidade de conquistar sua legitimidade. No entanto, quando um líder o faz, outros se sentem pressionados a copiá-lo. E isso conduz a mais transparência e mais responsabilização. E isso, e mais o Twitter, conduz a sabe-se lá o quê. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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