O pacifismo perto do fim no Japão

Rusgas com Coreia do Norte e China conferem urgência ao debate sobre como Tóquio deve lidar com desafios externos

SIMON TISDALL, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2010 | 00h00

O Japão deve adotar uma posição militar mais "dinâmica" e voltada para a iniciativa, envolvendo sofisticados novos armamentos, unidades móveis de resposta rápida e alianças de segurança mais estreitas com os países amigos, como parte de uma ampla reavaliação estratégica de segurança concentrada em ameaças reais e potenciais por parte da China e da Coreia do Norte.

Apesar de a mudança na direção de uma posição militar mais assertiva estar em debate já há algum tempo em Tóquio, uma agressiva confrontação marítima com a China em setembro e o recente ataque da Coreia do Norte contra território sul-coreano conferiram urgência às discussões relativas à melhor maneira de lidar com os desafios que ambos os países representam para o Japão.

Ao mesmo tempo, medidas japonesas no sentido de romper os compromissos da Constituição pacifista adotada pelo país depois da 2.ª Guerra Mundial e desempenhar um papel militar mais proativo tanto no âmbito regional quanto no mundial certamente causarão alarme entre os Estados vizinhos, incluindo aliados modernos como a Coreia do Sul e outros países que não esqueceram nem perdoaram os crimes do passado.

Reportagens da mídia japonesa sugerem que a avaliação, cujo anúncio foi marcado para esta semana e será a primeira atualização dos chamados "parâmetros do programa de defesa nacional" em seis anos, vai identificar a Coreia do Norte como ameaça e classificar as atividades militares da China como preocupantes. O jornal Nikkei Business Daily afirmou que a análise pediria a criação de uma "capacidade defensiva dinâmica" com o objetivo específico de dissuadir incursões chinesas perto das ilhas ao sul do Japão, disputadas por ambos os países, em parte por meio de uma mobilização mais ágil das unidades da força japonesa de autodefesa.

Se o primeiro-ministro Naoto Kan, do Partido Democrata, adotar todas as recomendações feitas, a frota japonesa de submarinos pode aumentar de 16 para 22 embarcações; a força aérea receberá novos caças avançados e as tropas de autodefesa serão transferidas de Hokkaido para o sul, levando-se em consideração a redução da ameaça enxergada na Rússia.

Dentro do plano, alianças defensivas com os Estados Unidos, Austrália, Índia e até Coreia do Sul, sublinhando a integração militar e a inter-operabilidade, também devem ser buscadas. Isso seria celebrado por Washington, que há muito pressiona por uma partilha mais justa do fardo da defesa. Logo após o ataque norte-coreano, o presidente do estado-maior conjunto dos EUA, almirante Mike Mullen, pediu a formação de uma aliança tríplice entre Japão, EUA e Coreia do Sul.

Desgaste. Preocupado com relações já desgastadas, Kan garantiu que a estratégia em evolução não é voltada contra a China, apesar de os gastos militares de Pequim terem quase quadruplicado nos últimos 10 anos. "Sem dúvida nosso país precisa organizar as próprias capacidades defensivas. Isso não está diretamente relacionado a uma ameaça japonesa a outro país", disse Kan.

Mas o primeiro-ministro foi pressionado a enfrentar a China após o incidente do último mês de setembro, quando um pesqueiro chinês se chocou contra uma embarcação da guarda costeira japonesa, no que pareceu ser um ataque intencional. A resposta inicial de Kan foi criticada por ser considerada fraca demais, fazendo com que sua popularidade caísse muito. Ironicamente, Kan foi conduzido ao poder no ano passado com promessas de obrigar as forças americanas a abandonar a base de Okinawa, envolvida em grande controvérsia. Agora ele tenta se aproximar cada vez mais de Washington, que tem suas próprias preocupações em relação a Pequim.

Os novos parâmetros devem incorporar recomendações feitas em meados deste ano por uma comissão de especialistas nomeados pelo governo. De acordo com Michael Auslin, diretor de estudos sobre o Japão do American Enterprise Institute, se as ideias da comissão forem totalmente implementadas, "o Japão seguiria apoiando a ordem internacional do pós-guerra". "Se o governo adotar as recomendações feitas, o país se tornará uma força criadora na formação de uma comunidade de interesses liberais na região da Ásia e do Pacífico", afirmou.

É exatamente isso que preocupa alguns vizinhos mais inseguros.

Escrevendo para a Rede de Segurança e Relações Internacionais, Axel Berkofski, do Instituto para o Estudo da Política Internacional, de Milão, disse que as ideias da comissão "provocaram considerável inquietação" entre os analistas.

"O relatório recomendou não apenas um reforço para a Marinha, a Guarda Costeira e as capacidades japonesas de lançamento de mísseis balísticos... mas também uma reavaliação dos "três princípios não nucleares" do Japão, que proíbem o país de receber, armazenar e fabricar armas nucleares dentro de suas fronteiras."

Ao menos um destes princípios foi rotineiramente violado no passado pelas visitas de embarcações americanas portando armas nucleares. Dito isso, Berkofski previu que não haveria um gesto formal no sentido de alterar a política japonesa em relação às armas nucleares - e nem de adquirir mísseis balísticos ofensivos projetados para um ataque preventivo contra a Coreia do Norte, como gostariam os mais aguerridos.

O temor de um retorno do militarismo japonês é infundado, disse ele. Ainda assim, não há dúvida que as coisas estão ficando mais perigosas na Ásia Oriental - e ao Japão não restam muitas opções senão reagir, alertou Berkofski. "Numa região em que a China continua a promover uma rápida modernização de suas forças armadas e os programas de mísseis e armas nucleares da Coreia do Norte representam importantíssimas preocupações de segurança, o Japão está respondendo na mesma moeda, para se garantir." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É EDITOR E COLUNISTA

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