O padre e sua grande fortuna

Diretor do Banco do Vaticano vivia luxuosamente

O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2013 | 02h02

Apesar de ele ser conhecido por gostar da boa vida, a polícia se confessou chocada quando agentes chamados para investigar um roubo em janeiro entraram no apartamento do monsenhor Nunzio Scarano, então diretor do Banco do Vaticano.

O apartamento, em um dos bairros mais valorizados de Salerno, no centro da cidade, era enorme, com obras de arte forrando as paredes e corredores divididos por colunas em estilo romano.

Scarano, que está na prisão Regina Coeli, em Roma, chamou a polícia para reportar que assaltantes haviam roubado parte de sua coleção de arte.

Entrevistas com investigadores importantes em diferentes departamentos judiciais e policiais em Salerno, no sul da Itália, e fotos policiais dos quadros no apartamento oferecem um cenário mais detalhado da fortuna de Scarano.

Os investigadores revelaram que os bens roubados estavam estimados em 6 milhões (US$ 7,82 milhões) e incluíam seis obras de Giorgio di Chirico, uma de Renato Guttuso, uma atribuída a Marc Chagall e peças de arte sacra. "Nos perguntamos como esse monsenhor veio a ter esse lugar e essas obras de arte caras", disse um investigador à Reuters sob a condição de anonimato.

"Ele afirmou que eram todas doações. É um apartamento de luxo e nos perguntamos como ele poderia tê-lo comprado", disse. Juízes suspeitam que pelo menos parte disso pode ter vindo de atividades ilegais do religioso.

Por intermédio do seu advogado, Silverio Sica, Scarano disse que as obras de arte, o apartamento e o dinheiro em suas contas bancárias, incluindo duas no Banco do Vaticano, vieram todos de doações e ele não fez nada de errado.

O apartamento de luxo de 700 metros quadrados na Via Romualdo Guarna não é a única propriedade de Scarano, sozinho ou em sociedade. Os investigadores descobriram que ele era parcialmente dono de três companhias imobiliárias de Salerno.

Dom 500 euros. Numa descoberta mais significativa, porém, eles disseram que Scarano havia retirado 560 mil em dinheiro no ano passado em uma transação do Banco do Vaticano, oficialmente conhecido como Instituto para Obras da Religião (IOR).

Scarano, bem relacionado nos círculos da alta sociedade local, dividiu o dinheiro, a maior parte em notas de 500, por vários amigos. A mídia italiana havia apelidado Scarano de "Dom 500 euros" porque estas eram aparentemente suas cédulas preferidas.

Cada amigo lhe deu um cheque bancário para ser sacado em bancos italianos. Aí ele levou todos os cheques a um banco em Salerno e saldou a hipoteca de seu apartamento.

Scarano disse aos investigadores que pegou o dinheiro de sua conta no banco do Vaticano porque queria saldar a hipoteca para vender o apartamento com lucro e usar a diferença para construir um lar para doentes terminais. O advogado Sica também disse que era essa a intenção do seu cliente.

Os investigadores disseram que estão examinando agora um lar para idosos que Scarano ajudou a construir em Salerno. Eles querem determinar como o lar foi construído, de onde veio o dinheiro e como ele foi financiado.

Um investigador do Departamento de Polícia de Salerno disse que cada um dos cheques foi justificado como "doação" nos registros dos bancos locais.

"Mas esse foi um truque muito tolo. Nós percebemos isso rapidamente. As doações eram falsas", disse ele. O advogado de Scarano diz que todas as doações eram genuínas.

Referindo-se ao apartamento de Scarano, que o prelado disse a investigadores que foi mobiliado com doações, um investigador disse: "Se foram doações, não se mobília uma casa desse jeito quando se é um padre."

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