O país defendido pelo Tea Party

Movimento ultraconservador quer a retomada do período com maior desigualdade social da história dos EUA

Harold Meyerson, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2010 | 00h00

Entre os gritos de guerra, o escolhido pelo movimento Tea Party, "Retomar nosso país", funciona bem: curto e conciso, apelando à ideia de que o país no qual os americanos vivem teria mudado, e não para melhor.

Quando integrantes do movimento buscam identificar o que mudou nos EUA e os beneficiados pelas mudanças, interpretam quase tudo de maneira equivocada. Na visão da direita americana - e as pesquisas de opinião mostram que é esta ala que o Tea Party representa -, o país, enganado por Barack Obama, teria enveredado pelo rumo do socialismo. Longe de ter apontado para esta direção, encalhamos no hipercapitalismo há três décadas.

O Tea Party tem razão ao se preocupar com a redistribuição de renda, mas, se estivessem abertos ao empirismo, perceberiam que a distribuição feita nos últimos 30 anos beneficiou os ricos. De 1950 a 1980, a parcela de toda a renda que ficava com os 90% mais pobres aumentou de 64% para 65%, segundo análise feita pelos economistas Thomas Piketty e Emmanuel Saez. Como a economia estava crescendo, a renda média dos 90% mais pobres também aumentou - de US$ 17.719 anuais em 1950 para US$ 30.941 em 1980.

A partir de 1980 a história foi diferente. A economia continuou a crescer consideravelmente, mas, para os 90% mais pobres, o período foi de estagnação e perda. A parcela de toda a renda que ficou com os 90% mais pobres da população caiu para 52%. A renda média dos 90% mais pobres permaneceu praticamente inalterada - passando de US$ 30.941 em 1980 para US$ 31.244 em 2008. A vida econômica e as perspectivas dos americanos se tornaram desanimadoras, enquanto a vida dos ricos nunca pareceu melhor. A parcela da renda nacional que vai para o bolso do 1% mais rico da população aumentou de 9% em 1974 para 23,5% em 2007.

Ao analisar estes números, seria razoável crer que quando o Tea Party quer retomar o país propõe um retorno ao período de 1950 a 1980. Seria uma inferência razoável, mas também equivocada. A partir da perspectiva da direita, os dramas enfrentados pelos EUA podem ser atribuídos à ordem do New Deal de Franklin Roosevelt.

Na verdade, a ordem do New Deal produziu as três únicas décadas - os anos 50, 60 e 70 - em que a segurança e a oportunidade econômica foram amplamente partilhadas. Foi o único período no qual os sindicatos foram fortes o bastante para garantir que os ganhos na renda das empresas de fato chegassem até os trabalhadores.

Marcou o único momento da história dos EUA em que o número de americanos nas universidades aumentou; que os impostos cobrados dos ricos eram maiores do que a contribuição feita pelos demais; em que o salário mínimo acompanhou (quase) o ritmo do custo de vida. E foi a única época em que a maioria dos americanos se sentia confiante em relação às próprias perspectivas econômicas - e ao destino dos EUA.

A partir de Ronald Reagan, a ideia de que os EUA são a terra da oportunidade se transformou numa piada. Sindicatos minguaram; universidades se tornaram inacessíveis; a indústria manufatureira foi exportada; os impostos pagos pelos ricos foram reduzidos.

A julgar pelas declarações dos candidatos do Tea Party, eles querem de volta os EUA que antecedem o New Deal - um país sem previdência social, sem sindicatos ou salário mínimo. É o país deixado para trás quando elegeu a ordem do New Deal e ajudou a construí-la. Os americanos deveriam querer de volta o seu país, mas deve ser aquele mais próspero e igualitário que floresceu quando os EUA eram um guia para o mundo. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É EDITOR DA "AMERICAN PROSPECT" E "L.A. WEEKLY"

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