O país dos empreendedores

É difícil dizer se nosso sucesso é responsabilidade exclusiva de outras pessoas ou consequência de nossos próprios atos

DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2012 | 03h04

"Prezado jornalista da página de Opinião, nos últimos anos, criei uma empresa bem-sucedida. Trabalhei muito e sinto orgulho por tudo o que conquistei. No entanto, agora, o presidente Barack Obama me diz que forças sociais e políticas contribuíram para construí-la. Mitt Romney foi para Israel e disse que as forças culturais explicam as diferenças de riqueza das nações. Estou confuso. Até que ponto meu sucesso me pertence e quanto do meu sucesso vem de forças externas? Assinado: Confuso em Columbus."

Caro Confuso.

Ótima a sua pergunta. Não há uma resposta definitiva para ela.

O ensopado que você é tem muitos chefs: pais, amigos, professores, ancestrais, mentores e, evidentemente, Oprah Winfrey. É muito difícil saber que parcela do seu sucesso deve-se a essas pessoas ou que parcela deve-se a você mesmo. Como disse certa vez um sábio, o que Deus teceu junto, nem múltiplas análises de regressão poderão separar.

Entretanto, essa pergunta tem uma resposta prática e moral.

É a seguinte. Você deve se considerar o único autor de todas as suas futuras realizações e o grato beneficiário de todos os seus sucessos passados. À medida que você passar pela vida, transitará por diferentes fases, procurando descobrir a parcela de crédito que você merece.

Você deveria começar a vida com a ilusão de que controla completamente o que faz. E deveria terminar sua vida com o reconhecimento de que, no total, recebeu mais do que merecia. Quando você tinha 20 e poucos anos, por exemplo, deveria se considerar um super-homem idealizado por Ayn Rand, que é o arquiteto da maravilha que você é.

Essa será a última vez em sua vida em que você descobrirá ser uma pessoa realmente fascinante e, portanto, deve aproveitar a oportunidade. Deve imaginar que você tem o poder de transformar-se totalmente, de um daqueles personagens patéticos de Girls na persona impressionante e confiante de alguém como Jay-Z.

Capacidade de criação. Esse senso de possibilidade liberará energias febris que o impulsionarão para frente. Você será uma daquelas pessoas que eram sócias de todos os clubes no colegial, começou um negócio secundário ainda na faculdade e, depois da conclusão do curso universitário, passou anos realizando bravamente um trabalho empresarial social pelo mundo em desenvolvimento.

Isso não o tornará compreensivo com os fracassos dos outros (como todo feed no Twitter pode atestar), mas lhe dará velocidade suficiente para disparar na corrida da vida. Aos 30 ou 40 anos, começará a pensar como um cientista político.

Terá uma avaliação menor do seu próprio poder e uma avaliação maior do poder das instituições das quais você faz parte.

Ainda confiará em suas capacidades, mas mais na capacidade de navegação e não na de criação. Você se adaptará às regras e às peculiaridades do seu ambiente. Defenderá o que o ensaísta Joseph Epstein chama de "os esnobismos correntes". Compreenderá que a questão fundamental não é o que você quer, mas o que o mercado quer. Por um breve lapso de tempo, você não se importará com as reuniões no café da manhã.

Então, aos 50 e 60 anos, se tornará um sociólogo e compreenderá que as relações são mais fortes do que os indivíduos. Quanto mais alto a pessoa chega, mais tempo ela dedica aos cronogramas e ao pessoal. Como um administrador, você se encontrará na fase de treinador da vida, desfrutando dos sonhos dos seus subalternos. A ambição, como a promiscuidade, é mais agradável quando experimentada vicariamente.

Experiência. Você perceberá que pensa nos seus mentores, novamente consciente de quanto eles moldaram o seu caminho. Embora as emoções das pessoas de meia-idade pareçam ridículas, você ficará sentimental a respeito dos relacionamentos dos quais se beneficiou e daqueles que você está construindo. Steve Jobs disse que sua maior realização foi criar uma companhia, não um produto.

Então, aos 70 e 80 anos, você será como um velho historiador. Sua mente aflorará entre as décadas e depois entre os séculos.

Logo, perceberá o quão profundamente você foi moldado pelas antigas tradições do seu povo - mórmon, judeu, negro ou hispânico. Valorizará o poder que os mortos têm sobre os vivos, porque isso, um dia, será o único poder que lhe restará.

Ficará impressionado com a espantosa importância da sorte - com o fato de ter apanhado esse ônibus e não outro, encontrado essa pessoa e não outra. Em suma, à medida que se chega à maturidade e as perspectivas se ampliam, menor parece o poder dos indivíduos e maior o poder das forças que fluem por meio dos indivíduos.

No entanto, você, sr. Confuso em Columbus, tem razão em preservar seu orgulho pelas suas realizações. Grandes companhias, instituições de caridade e nações foram construídas por grupos de indivíduos que superestimaram enormemente sua própria autonomia.

Como executivo ambicioso, é importante que você acredite que merecerá o crédito por tudo o que realizou. Como ser humano, é importante que saiba que isto não passa de uma tolice. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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