O papa em Malta, última etapa da viagem

Retornando nesta terça-feira a um dos bastiões de sua Igreja, o papa João Paulo II iniciou a última etapa de sua atual peregrinação com palavras de louvor à devoção cristã em Malta, que remonta aos tempos da conversão do apóstolo Paulo. "Vocês têm uma herança moral e espiritual", disse o papa após chegar à ilha de Malta, país por ele visitado 11 anos atrás. A visita a Malta constitui a última etapa de sua viagem de seis dias marcada por gestos de reconciliação na Grécia e na Síria.A peregrinação também mostrou os limites físicos do pontífice de 80 anos, que às vezes parecia estar à beira da exaustão. Ele deixou de lado temporariamente seu bastão ao descer do avião da Syrian Airlines que o trouxe de Damasco, onde Sua Santidade se tornou o primeiro papa a entrar numa mesquita. Um vento forte agitou seus cabelos e vestes brancas. Ele avançou alguns passos pelo carpete vermelho estendido em sua homenagem, e o presidente maltês, Guido de Marco, apoiou o papa quando ele vacilou em meio às rajadas de vento. O pontífice também foi fustigado por críticas em relação às etapas anteriores de sua viagem. Alguns comentaristas e outros atacaram João Paulo por ele não ter condenado claramente os comentários do presidente sírio Bashar Assad, que comparou os israelenses aos que traíram Jesus.O Vaticano disse apenas que o papa e a Igreja Católica Romana têm constantemente denunciado o anti-semitismo. Em Moscou, ao mesmo tempo, os líderes da poderosa Igreja Ortodoxa Russa não receberam muito bem os pedidos de desculpas feitos em Atenas pelo papa pelos pecados cometidos pelos católicos contra os ortodoxos - ampliando a possibilidade de um sério racha dentro das Igrejas Ortodoxas do Leste sobre como superar os cerca de 1.000 anos de afastamento do Vaticano. O papa se sentiu claramente à vontade em Malta, onde 98% de seus 398.000 habitantes são batizados na Igreja Católica Romana e o divórcio e o aborto são proscritos. A identidade da fé tem raízes profundas, remontando à época do apóstolo Paulo e aos séculos sob a proteção da Ordem de São João ou dos Cavaleiros de Malta, que puseram fim ao cerco das forças do Império Otomano em 1565. "Nossa fé é nosso bem mais valioso", disse o presidente De Marco. De acordo com os Evangelhos, Paulo passou três meses pregando em Malta no ano 60 de nossa era, depois que seu navio naufragou nas costas da ilha, a caminho de Roma, onde Paulo seria julgado.Um dos discípulos de Paulo, o convertido Publius, tornou-se mais tarde bispo de Malta. Dezenas de milhares de pessoas se alinhavam ao longo do roteiro da comitiva papal. João Paulo II sorriu e acenou para a multidão por trás dos vidroas à prova de bala do papamóvel. Em resposta, a multidão o saudou aos gritos de "Merhba Lill-Papa", ou "Seja bem-vindo, Papa" em maltês, quando João Paulo se aproximou de uma praça onde ele celebrará na quarta-feira uma missa durante a qual será beatificado um sacerdote local, reverendo George Preca, venerado pelos malteses. Preca, que morreu em 1962, fundou a Sociedade da Doutrina Cristã, uma sociedade religiosa voltada para os trabalhadores e suas famílias, que conta atualmente com cerca de 1.100 membros ativos - homens e mulheres leigos e celibatários dedicados a um trabalho missionário em diversos países - e dirige escolas em Malta e em seis outros países, entre os quais Austrália e Peru.O papa tem dado um forte apoio ao trabalho dos leigos em sua Igreja.

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